Artigo publicado em 30 jul 2017 | Este artigo tem 0 Comentário

“As pulsões são, no corpo, o eco do fato de que há um dizer”. Jacques Lacan

O presente artigo tem por objetivo discorrer sobre a psoríase, doença que atinge parte da população, e que está intimamente ligada à psicopatologia da vida cotidiana – vivida com intensidade diante eventos traumáticos ao longo da vida.

“Pulsão: o limite entre o psíquico e o somático. Partindo de uma reflexão sobre as particularidades da relação entre o corpo e o psiquismo no fenômeno psicossomático, destaca-se a presença, no espaço psíquico dos sujeitos que apresentam este tipo de patologia, de um excesso pulsional traumático que, por não encontrar meios de simbolização, toma o corpo sob a forma de adoecimento.”

A psoríase é uma doença dermatológica atribuída tanto a fatores hereditários quanto ambientais e afeta de um a três por cento da população. Sua causa é desconhecida, embora muitos estudos indiquem que fatores genéticos e ambientais estejam envolvidos. Fenômenos emocionais são frequentemente associados ao aparecimento desta doença. A psoríase está incluída no grupo das erupções papuloescamosas, caracterizadas pela presença de pápulas e escamas superficiais. Essas erupções são responsáveis por grande número de casos e evoluem em episódios separados, com períodos de latência inconstantes, ao acaso e com momentos de remissão total (Cohen, 2000).

Até hoje não foi descoberto um tratamento medicamentoso que cure de forma definitiva a psoríase. De maneira geral, vários tratamentos tópicos, geralmente à base de corticóides, podem ser eficientes, principalmente quando utilizados pela primeira vez, mas com o tempo o organismo tende a ficar resistente a eles (Cohen, 2000).

Assim como em diferentes outros tipos de dermatoses, na psoríase postula-se o envolvimento significativo de fatores emocionais na gênese e desenvolvimento da doença, o que tem sido estudado especialmente na abordagem psicossomática. Segundo Eksterman (1992, p.77-78), a Medicina Psicossomática é um estudo das relações mente-corpo com ênfase na explicação psicológica dos sintomas corporais.

Sabemos que a psicanálise, em suas origens, pretendeu tratar de um sofrimento que escapava à medicina, e que dizia respeito a sintomas que atingiam o corpo não em seu registro orgânico, mas no representacional. As patologias nomeadas como psicossomáticas colocam um desafio ao analista, pois não tratam do adoecimento de um corpo imaginado, mas, ao contrário, atingem o órgão em sua materialidade. Uma investigação sobre os aspectos psíquicos envolvidos em uma patologia psicossomática como a psoríase, que tenha como referência o discurso psicanalítico, deve, antes de tudo, colocar em pauta a questão de saber de que maneira a psicanálise permitiria compreender um quadro onde o corpo surge como figura central do adoecimento. Assim, a primeira pergunta que nos fazemos é sobre que corpo é esse da patologia psicossomática e qual é sua articulação com a vida psíquica. Freud define, a pulsão como “o representante psíquico de uma fonte endossomática e contínua de excitação” (Id., ibid., p. 171), ele permite pensar que aquilo que é psíquico se constitui a partir de um corpo somático, das excitações corporais. Sendo assim, é pelo conceito de pulsão que podemos vislumbrar a mudança de Freud no que diz respeito às relações entre o corpo e o psiquismo, pois ela é esse conceito-limite entre o psíquico e o somático e é através dela que estes dois registros poderão se comunicar.

A psoríase é uma doença de pele muito frequente, chegando a atingir quase 2% da população ocidental. Sua forma mais comum de apresentação é a chamada psoríase vulgar, caracterizada por placas avermelhadas e escamosas que podem aparecer em diversas regiões da pele. Existem, contudo, outras manifestações, mais raras, como é o caso da psoríase artropática, que atinge as articulações e assemelha-se à artrite reumatóide. Há ainda certas manifestações clínicas bastante severas, que chegam a acometer quase 75% do corpo, como a psoríase eritrodérmica, que surge como uma grande vermelhidão e escamação fina na pele (SIGAL, 2004).

A doença evolui por surtos de intensidade variável durante toda a vida. Pode, porém, desaparecer durante um tempo mais ou menos longo, de meses ou anos. As crises agudas, em geral, melhoram logo, mas a remissão total do quadro é rara. Nenhum dos medicamentos conhecidos até hoje garante a cura (AZULAY & AZULAY, 1997). O mecanismo que forma esta patologia refere-se a uma alteração no processo de renovação das células que compõem a camada mais superficial da epiderme. Acerca das causas, considera-se que haveria uma predisposição hereditária para desenvolver tal doença. Contudo, não é claro o que leva ao desencadeamento do quadro ou à sua evolução, o que geralmente é associado a uma combinação de diferentes elementos, dentre os quais se destacam os fatores emocionais (FITZPATRICK, JOHNSON & WOLFF, 2002). A constatação de que existe uma articulação entre as vivências emocionais dos pacientes e o surgimento e a evolução da doença traz para o primeiro plano a importância de se pensar como se dão as relações entre o psíquico e o somático nesta forma de adoecimento. Nesta perspectiva, torna-se uma questão de grande relevância, na compreensão desse quadro, determinar que aspectos da vida psíquica poderiam contribuir para a formação da psoríase. É exatamente sobre este questionamento que procuraremos nos deter, buscando, desta maneira, poder contribuir para um melhor entendimento desta doença, que afeta de maneira tão significativa a vida de inúmeras pessoas.

O adoecimento psicossomático nos remete a um corpo que se mostra, assim como o corpo dos atos compulsivos já nos permitiu vislumbrar, sob uma dimensão destrutiva e carente de prazer. Ao analisar o problema do corpo nas somatizações, Fernandes (2003, op. cit.) utiliza o termo “corpo do transbordamento”, em contraponto ao “corpo da representação” encontrado na neurose, por considerar que, nesses casos, o corpo estaria marcado por algo que escapa ao processo de simbolização e ao recalcamento. Trata-se de um corpo que se liga a uma força violenta que tem na figura do trauma, de um excesso irrepresentável, sua mais profunda raiz.

Pierre Marty entre os novos autores que deram prosseguimento aos estudos das doenças psicossomáticas pós Freud, vem nos falar sobre, a desorganização mental, que ocorre quando um excesso de excitação irrompe no aparelho psíquico, promovendo um abalo em sua organização e em seu funcionamento. Tal desorganização poderá tomar diferentes rumos. Ela tanto pode instaurar uma sintomatologia mental, neurótica, quanto resultar na formação de uma patologia psicossomática, a diferença vai depender dos recursos do sujeito para lidar com tal excesso. Os casos mais problemáticos, que incluem as saídas somáticas, ocorrem quando o indivíduo não é capaz de recorrer a uma sintomatologia mental, em função de uma carência de representações precedentes. Este quadro nos faz pensar em certa combinação de uma situação adquirida e uma insuficiência de base, que impediriam o sujeito de encontrar outras vias de descarga para o excesso de excitação que perturba seu funcionamento psíquico.
A presença deste excesso que não pode ser elaborado e que precisa ser descarregado no corpo remete-nos para a dimensão traumática na formação da doença psicossomática.

A partir do exposto, é possível pensar que, com Marty, o entendimento das patologias psicossomáticas passou a girar em torno de uma dimensão essencialmente traumática. O autor deixa claro que o que estaria em jogo no adoecimento psicossomático seria a existência de uma energia pulsional, que se tornaria excessiva exatamente pela impossibilidade de encontrar vias de elaboração, o que caracterizaria uma verdadeira invasão do espaço interno, configurando-se em uma vivência extremamente ameaçadora para a integridade psíquica. A descarga no corpo é tida como um último recurso tomado pelo aparelho psíquico para livrar-se desta excitação.
Apesar de a psoríase ser geralmente considerada assintomática, é possível encontrar nos relatos de vários pacientes a queixa de que suas lesões cutâneas lhes causam grande incômodo, por se tornarem fontes de sensações intensas de prurido, levando-os a uma necessidade de se coçarem de maneira praticamente constante e, às vezes, de forma tão desesperada que chegam a ferir suas peles (SIGAL, 2004, op. cit.). Em alguns casos, este prurido pode acabar levando a uma verdadeira compulsão a coçar-se, o que, indubitavelmente, compromete a vida do sujeito e o prende em um ciclo de estimulação corporal permanente, estimulação esta que muitas vezes resulta em ferimento e dor.

Philippe Jaeger (2006) procura discutir exatamente a importância que o ato de coçar pode assumir em certas doenças dermatológicas, seguindo, para tanto, uma abordagem winnicottiana. Ainda que não seja nossa intenção nos aprofundarmos nas teorizações de Winnicott, que apresentam grande complexidade e riqueza consideramos que suas considerações acerca do prurido nos ajudam a pensar a função que este sintoma pode vir a assumir para alguns sujeitos.

De acordo com Jaeger, Winnicott apresentou, ao longo de sua obra, duas teorias psicológicas acerca do ato de coçar-se, a primeira bem no início de suas construções teóricas e a segunda mais tardia. Assim, na primeira abordagem que Winnicott fez sobre esta problemática, ele tendeu a compreendê-la como um sintoma neurótico, que seria resultado de uma luta entre o desejo e o recalque, na qual a estimulação corporal feita através da coceira estaria associada a uma masturbação compulsiva.

Na proposta, trazida pelo pensamento de Winnicott (1969, op. cit.), encontramos a ideia de que certos desconfortos crônicos da pele poderiam carregar consigo a função de reforçar os limites psíquicos, a partir do contato e da exploração que o sujeito faria dos limites de seu corpo. Tomando como referência esta forma de entender o fenômeno e a possibilidade de encará-lo como um procedimento autocalmante, destacamos, como ponto central, a ideia de que, a partir de uma estimulação corporal, o sujeito alcança um meio de contenção, pela via da dominação, da excitação traumática referida, como vimos, a uma alteridade interna violenta.
Dessa forma, vemos que o sujeito recorre – com a instauração da doença e de um de seus sintomas – a um modo exteriorizado, fora dos domínios do aparelho psíquico, de controle daquilo que ameaça sua vida psíquica. Como já comentamos a exploração do corpo não é, contudo, a única forma que o sujeito encontra, após o aparecimento do quadro, de obter tal controle. Destacamos, inclusive, o lugar da relação travada não apenas com o próprio corpo, mas também com o outro externo, quando a doença se instala. Falta, nesta perspectiva, podermos analisar este último aspecto e sua importância na psoríase.

Na psoríase, é inegável a importância da visibilidade das lesões cutâneas e do efeito de atração que são capazes de exercer sobre os olhares externos, principalmente porque tais lesões podem vir a assumir formas bastante assustadoras. A maneira como a pele é afetada nesta patologia pode mobilizar, no outro, movimentos de interesse que se dão, muitas vezes, pelo horror provocado pelo aspecto dessas lesões, o que também pode levar, em contrapartida, a reações de rejeição ou repulsa. Assim, sob o signo do horror, instaura-se um jogo de atração e repulsão entre o sujeito e o outro externo.

Jaeger dá, assim, grande destaque a esta segunda concepção de Winnicott a respeito do prurido, enfatizando sua função de configurar-se como um meio pelo qual o sujeito pode construir seus limites corporais e psíquicos. Estes elementos abrem para uma possibilidade de entendermos mais claramente certos aspectos metapsicológicos envolvidos neste processo de construção, pela via da estimulação corporal, de uma espécie de “moldura limitante”, ou seja, de um meio de contenção da energia psíquica. Assim, o autor nos sugere que compreendamos a estimulação corporal que ocorre no ato de coçar-se, à luz dos chamados procedimentos autocalmantes.

A ideia de procedimento autocalmante foi criada por Gérard Szwec e Claude Smadja, membros do Instituto de Psicossomática de Paris, com o intuito de definir certas medidas específicas tomadas pelo sujeito, que fazem apelo essencialmente à motilidade e que têm, por objetivo principal, baixar o nível de tensão no aparelho psíquico. Assim sendo, tratar-se-ia de um método de controle da excitação psíquica que se viabilizaria a partir do recurso ao corpo, mais precisamente, de um recurso à motilidade. Existiriam diversas formas de se obter esta descarga, algumas muito habituais, como, por exemplo, o próprio gesticular ao falar seria uma maneira de liberar um pouco de excitação psíquica pela via corporal. Entretanto, às vezes, estes comportamentos tomariam um lugar excessivo para o sujeito, assumindo mais o valor de defesa em relação a uma excitação traumática do que de um processo que simplesmente viria acompanhar ou facilitar o funcionamento do aparelho psíquico (BAUDIN, 2002, op. cit.).

A necessidade de recorrer a estes processos autocalmantes ocorre por não ter sido possível ao sujeito constituir meios psíquicos de contenção de sua força pulsional. Esta impossibilidade é fruto de dificuldades vividas na relação primária, referentes a falhas na capacidade materna de realizar sua função como apaziguadora das angústias sentidas pela criança. Por esta função de apaziguamento da força pulsional não ter sido internalizada ou, ainda, por ter sido internalizada de maneira precária, o sujeito busca mantê-la fora do campo psíquico, de maneira exteriorizada, neste caso, através do recurso à percepção e à motilidade.

Desta maneira, chegamos à possibilidade de compreender mais claramente o apaziguamento a que chega o sujeito no processo autocalmante. É um alívio que está intimamente articulado à possibilidade de dominar a energia pulsional traumática, o que permite, igualmente, uma forma de se descolar do poder exercido por certos aspectos do objeto interno. Apesar de Szwec (1993, op. cit.) afirmar que os procedimentos autocalmantes permitem uma ligação, ao nível do corpo, da energia pulsional, pensamos que talvez fosse mais interessante reservar a palavra ligação aos processos psíquicos que permitem um trabalho da ordem da simbolização, o que não ocorre neste caso. Consideramos, assim, que seria mais adequado nos referirmos aqui, como já procuramos destacar anteriormente, à ideia de uma tentativa de dominação e não de ligação da força pulsional. Conter a excitação pulsional. Neste sentido, certos aspectos desta relação inicial com o outro externo, ao serem internalizados, apontam para uma realidade psíquica devastada pela potência traumática. A escolha da pele para a instalação da doença faz-se pela existência destas marcas inicias, corporais e psíquicas, constituídas na relação com o outro.

Quando a psoríase se instaura, sua característica de visibilidade e os sintomas que desperta, revelam o esforço do sujeito de encontrar meios de se desvencilhar dos ataques sofridos internamente, ainda que esta resposta se dê através do recurso à exteriorização, não garantindo a simbolização dos aspectos psíquicos irrepresentáveis. Assim, vimos à importância assumida nestes quadros, do olhar do outro, da busca por uma estimulação corporal, bem como da possibilidade de criar formas figuradas para aquilo que, no psiquismo, apresenta-se como pura intensidade traumática. Muito embora esses recursos não deixam de carregar, atrás de si, a intensa fragilidade destes sujeitos no que se refere à possibilidade de delimitar suas fronteiras, seus limites egóicos, tanto no que diz respeito às insurgências do objeto interno, como também, o que fica claro com o aparecimento do quadro, em relação aos objetos externos. Foi exatamente esta dinâmica complexa estabelecida entre o interno e o externo, que tivemos a oportunidade de elucidar nesta forma particular do sofrimento humano.

CONCLUSÃO:

Diante da perspectiva analítica não deveríamos nos render apenas pela hereditariedade e/ou predisposição para o desencadeamento da doença em um evento traumático. Sabe-se que a psoríase está intimamente ligada às bases psíquicas. É necessário compreender que sob a psoríase se ocultam problemas de ordem psíquicas sofríveis. Muito embora os médicos não indiquem algum tratamento psicológico, mesmo aceitando que o estresse e a ansiedade podem agravar o quadro dessa doença. Por esse motivo, se faz necessário que na formação acadêmica e profissional possa oferecer aspectos para além do biológico, que se referem ao nosso lado social, de contato com o mundo. Vale ressaltar que a saúde subsiste em um tratamento multidisciplinar, e não individual.

 

REFERÊNCIAS:

Trauma e alteridade na psoríase: um “manto” para o mal-estar. Rio de Janeiro (02-2008) – Lilia Frediani Martins Moriconi

Bleger J. (1977). Simbiose e ambiguidade. Rio de Janeiro: Francisco Alves.

BREUER, J. & FREUD, S. (1893-95) Estudos sobre a histeria. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1972. vol. II.

WINNICOTT, D. W. (1969) “Nota Adicional sobre Transtorno Psicossomático”. In. Explorações Psicanalíticas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

MERLINO, C. (2005) “Vergonha: uma forma de dor na atualidade”. In. Cadernos de Psicanálise da Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro.vol. 21, n. 24.

MEZAN, R. (2003) Freud: a trama dos conceitos. São Paulo: Editora Perspectiva.

PINHEIRO, T. (2003) “A escravidão do olhar”. In. ARÁN, M. (Org.) Soberanias. Rio de Janeiro: Contra Capa.

 

 

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