Artigo publicado em 30 nov 2018 | Este artigo tem 0 Comentário

INTRODUÇÃO:

“Aristofanes nos conta que nossa antiga natureza não era tal como a conhecemos hoje e sim diversa. Os seres humanos encontravam-se divididos em três gêneros e não apenas dois – macho e fêmea – como agora. Havia um terceiro gênero que possuía ambas as características e que era dotado de uma terrível força e resistência e, além disso, de uma imensa ambição; tanto que começaram a conspirar contra os deuses. Zeus e as demais divindades viram-se então tendo que tomar providências para sanar tal insubordinação; tinham a alternativa de extinguir a espécie com um raio, como haviam feito com os gigantes, porém perderiam também as homenagens e os sacrifícios que lhes advinham dos humanos. Por outro lado permitir tal insolência por mais tempo era impensável. Resolveu-se então parti-los ao meio, desse modo não só se enfraqueceriam como também aumentariam de número. Assim foi que até hoje, divididos como estamos, que cada um infatigavelmente procura a sua outra metade”.

DA CARA METADA

“Fizeram-nos acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta. Nós crescemos através de nós mesmos, se estivermos em boa companhia, é mais agradável. Mas o contentamento da vida vem de dentro. Se não formos felizes por si mesmos, jamais iremos fazer o outro feliz. Atraímos pessoas boas, quando estamos de bem conosco! 
Pessoas bem resolvidas sabem o que querem para si. E conseguem sentir e enxergar os corações das pessoas”.

DOS RELACIONAMENTOS INFELIZES X COMODISMO X DECISÕES

Desta primícia, é comum encontrar pessoas infelizes nos relacionamentos. E quando estão em um relacionamento ruim, não se separam por medo de estar sozinhas. Em outras palavras: quer dizer estar na companhia de si mesmas.

Alguém pode ter medo de se separar, porque imagina que será esquecido, abandonado, desprotegido. Indivíduos amedrontados por temer a solidão, não se veem como provedores do necessário para o próprio bem-estar.
Faltam-lhes disposição, impulsos e habilidades, para construir o que os faz feliz. Por esta razão é que confiam mais nos outros (“a cara metade”) do que em si mesmos.

Tudo indica que indivíduos assim, se acomodam esperando sempre que o outro faça o que acha ser correto, ou seja, são incapazes de tomar decisões, passando sempre o poder de decisões ao companheiro. Por isso, são indivíduos que passaram a maior parte da vida respondendo às expectativas do outro. Onde poderiam correr os riscos necessários para realizar os próprios desejos e pensamentos. Muito embora, esses indivíduos: pensam e falam em separ-se muitas vezes ao longo da sua rotina infeliz, mas não tomam uma atitude, porque temem a solidão como se temesse à morte. Eis que surge a pergunta: “Que tipo de companhia essa pessoa quer para si, que acaba por opção, compartilhando à vida com alguém que a faz infeliz?”

Geralmente, quando esses indivíduos acordam, o tempo útil da vida, já passou – e acabam tendo a sensação de ter vivido uma vida que nunca foi genuinamente sua. Desse modo, se torna uma pessoa ineficiente, e nesse lema, pode levar a sua metade a perder a admiração por si – tomando a decisão de dar um basta na relação fragmentada definitivamente. Muito embora, em relações desse nível um enfraquece o outro, mas como todo relacionamento baseado na dependência – quando esses casais estão juntos, se sentem seguros e encorajados para enfrentar os imprevistos da vida. Existe nessas relações um conluio inconsciente. Assim, entende-se o temor que alguns sentem em pensar em divórcio e/ou separação.

CONCLUSÃO

A saída é o autoconhecimento, é fortalecer-se, é procurar por ajuda para desenvolver a parte de si que ficou latente nas fases regressas. Só assim a vida a dois, deixará de ser obrigação e cobranças – feitas por si, e pelo o que os outros irão pensar. Porque a cobrança muitas vezes pelo convívio simbiótico com o parceiro leva o indivíduo à arrastar eternamente uma relação infeliz. Enfim, é preciso perder para sentir a turbulência de viver um vazio necessário – para que a vida compartilhada com quem se encontrar depois deixe de ser obrigação, para tornar-se uma escolha por prazer.

Autora: Luzziane Soprani

Artigo publicado em 31 out 2018 | Este artigo tem 0 Comentário

INTRODUÇÃO

Neste artigo abordaremos o Transtorno do Espectro do Humor Bipolar. O TEHB é um termo usado para identificar humor que varia entre episódios de extrema alegria ou tristeza, sem necessariamente atingir o estado maníaco (“eufórico”) ou depressivo. O chamado Transtorno do Espectro Bipolar não é uma novidade, mas um grupo de pessoas que não respondem exatamente ao modelo convencional bipolar rígido (TBH), apesar de incluírem os mesmos “altos e baixos” e períodos de depressão intercalados com “euforia” (mania), típicos da bipolaridade como é conhecida. Os Transtornos do Espectro do Humor Bipolar são transtornos crônicos, recorrentes e, muitas vezes, com remissão incompleta, potencialmente letais (cerca de 25% dos pacientes fazem tentativas de suicídio e cerca de 20% acabam por completar este intento) e que afetam um grande número de pessoas. 1 Estes transtornos estão associados a grandes custos pessoais e sociais e pelo menos uma proporção de casos é refratária ao tratamento convencional. 2 Os pólos de apresentação sintomática são o pólo da mania e da hipomania (humor eufórico ou irritável, pensamento acelerado com idéias grandiosas, conduta com aumento da atividade motora), o pólo da depressão (humor depressivo, pensamento lentificado, idéias de ruína, conduta com retardo motor), e a apresentação mista (com uma mistura de sintomas maníacos e depressivos).

DA PSIQUIATRIA

Sob o olhar da psiquiatria tradicional, o termo mania designa estados de exaltação do humor, excitabilidade psíquica, aceleração do pensamento, elevação da autoestima e grandiosidade. O termo hipomania descreve estados maníacos de menor gravidade. Por sua vez, melancolia refere-se a estados de depressão grave do humor, lentificação psicomotora, inibição das funções psíquicas, pessimismo, autoacusações, ideias de indignidade.

Nos sistemas classificatórios psiquiátricos contemporâneos esses quadros estão reunidos na categoria diagnóstica dos transtornos do humor (ou transtornos afetivos) e subdivididos em dois grupos: a depressão unipolar e o transtorno bipolar. No primeiro, são observados somente sintomas da série depressiva, enquanto no transtorno bipolar ocorrem sintomas tanto do polo depressivo quanto do polo maníaco, simultânea ou alternadamente, em diferentes combinações. Esses quadros vêm sendo objeto de grande interesse no campo da psiquiatria e frequentemente surgem propostas de mudanças em sua definição. Assistimos, por exemplo, à emergência de conceitos como o espectro bipolar, com a perspectiva de melhorar a capacidade de reconhecimento de condições bipolares e a discriminação dos pacientes que se beneficiariam de intervenções farmacológicas específicas.

DA PSICANÁLISE

A classificação psicanalítica não comporta categorias diagnósticas correspondentes aos diagnósticos psiquiátricos. Ainda assim, neste artigo, procuramos articular algumas concepções psicanalíticas que permitem entender fenômenos descritos pela psiquiatria em relação aos transtornos de humor.

O QUE SERIA, ENTÃO, O ESPECTRO BIPOLAR?

O “temperamento bipolar”, que é a característica definidora e ao mesmo tempo causadora de problemas tão diversos, hoje englobados sob a denominação de Espectro Bipolar. Portanto, para explicar esse quadro é preciso antes esclarecer que todos nós temos um certo padrão de temperamento, mais ou menos estável ao longo da vida. A grosso modo, envolve aquilo usualmente referido como o “gênio” da pessoa. A respeito do temperamento é que utilizamos termos descritivos como “genioso”, “temperamental”, “instável”, “imprevisível”. Fala-se coloquialmente que alguém tem temperamento “inquieto”, “retraído”, “irritadiço”, “pavio curto”, “calmo”, e assim por diante. Temperamento trata, portanto, de características usualmente duradouras e meio que definidoras de o “jeitão de ser” de cada um de nós.

O chamado temperamento bipolar, então, vai muito além do que o nome sugere inicialmente. Ou seja, não engloba somente aquelas pessoas que oscilam o estado de ânimo (humor) entre depressão, tristeza e bem-estar, alegria, euforia. Define antes de mais nada aquelas pessoas de temperamento “forte” – pessoas com vidas intensas, dramáticas, surpreendentes (para o bem e para o mal), instáveis, etc; assim como pessoas ousadas, com energia abundante, “elétricas”, inventivas, de espírito inquieto, ousado, rebelde, aventureiro.

Frise-se que as características descritas até agora e aquelas a seguir, podem estar presentes nas mais diversas combinações e intensidades. Somente se forem características duradouras (não circunstanciais) e se estiverem presentes em determinadas combinações e intensidades, causando prejuízo funcional ou sofrimento subjetivo é que diremos se tratar de um temperamento bipolar.

Cabe também lembrar que se considera o temperamento uma característica psíquica de natureza fortemente biológica. Portanto, influenciada em grande medida pela herança genética. Por exemplo, “filho de peixe, peixinho é” – está presente e definida já muito precocemente (muitos futuros bipolares já se mostram crianças inquietas, hiperativas, rebeldes, ou então retraídas, isoladas e passivas), apesar de poderem causar problemas só na adolescência ou vida adulta. É determinado pelo arranjo neuronal (células cerebrais) de cada um, por sua “química cerebral” e não é facilmente modificável pelo esforço deliberado. Eis aqui um ponto importante para reflexão.

DOS MEDICAMENTOS ESPECÍFICOS PARA O TRATAMENTO DO ESPECTRO BIPOLAR

Muitas vezes algumas características disfuncionais de personalidade (irritabilidade, instabilidade, impulsividade, alterações inexplicáveis do estado de ânimo, etc) são de fato quase impossíveis de serem modificadas sem a ajuda de medicamentos específicos. Para esses pacientes – do “Espectro Bipolar” – utilizam-se via de regra, os chamados “estabilizadores do humor” (são diversos medicamentos, incluindo alguns mais conhecidos, como lítio, carbamazepina e ácido valpróico, por exemplo). O objetivo é conseguir a harmonia dos “ritmos” neuronais e por consequência evitar as oscilações que estão na gênese de muitos dos problemas descritos. Essas pessoas ficam mais “donas de si”e menos sujeitas a estados afetivos excessivamente intensos e instáveis; menos sujeitas a emoções poderosas que as fazem agir sempre de forma passional, impulsiva, pouco ponderada e às vezes desastrosa.

Esses novos conhecimentos apontam também para outro fato gravíssimo. Essas pessoas, com características bipolares, quando tomam antidepressivos inadvertidamente, podem apresentar uma infinidade de respostas inesperadas, com sintomas incomuns. O antidepressivo, isoladamente, poderá induzir nessas pessoas o agravamento dos sintomas apresentados ou o surgimento de outros problemas novos. A possibilidade de resultados desastrosos não é pequena. E o que é mais grave: via de regra não são identificados como sendo causados pelo uso do antidepressivo. Pensa-se que é apenas um agravamento do quadro inicial. Troca-se o antidepressivo ou se aumenta a dose. O resultado é cada vez pior. Dentro das diversas combinações possíveis, pode ocorrer uma mistura insuportável de sintomas como angústia, desespero, insônia incontrolável, irritabilidade intensa e pensamentos suicidas, por exemplo. Menos desagradável, mas não com consequências menos graves, essas pessoas também podem desenvolver a clássica “mania-euforia”: progressivo aumento de energia, diminuição da necessidade de sono e descanso, aumento da autoestima, da coragem, da desenvoltura social, desinibição, aumento do apetite sexual, etc, que podem levar a pessoa a agir de forma inusual e de forma muito irresponsável e arriscada. Quando passa a crise, a pessoa via de regra diz não ser capaz de explicar “como foi capaz de fazer aquelas coisas”. Denominador comum é que essas pessoas ficam “aceleradas” psíquica e comportamentalmente.

Resumidamente, o conceito de Espectro Bipolar, chama à atenção para a existência de um grupo muito particular de pessoas. São aquelas com temperamento bipolar e, portanto, predispostas a vários problemas. Elas podem adoecer psiquicamente de todas as formas conhecidas, apesar de o fazerem preferencialmente de algumas formas.

CONCLUSÃO

Mas o importante mesmo é nunca se negligenciar que é preciso identificar que tipo de problema está incidindo em que tipo de pessoa. Depressão, por exemplo, não é tudo a mesma coisa; a apresentação sintomática e principalmente a escolha dos medicamentos é muitíssimo diferente, a depender de que pessoa, com qual história e com qual temperamento estamos lidando. É fundamental fazer uma análise em perspectiva e contextualizada. A prescrição abusiva dos hoje tão vulgarizados antidepressivos está sendo uma das responsáveis pelo aumento vertiginoso dos transtornos psiquiátricos. Pessoas com temperamento bipolar ficarão bem com a utilização dos estabilizadores do humor, isoladamente ou em associação com outros medicamentos. Dificilmente apenas com antidepressivos.

A existência desse novo conceito exige grande atualização, atenção e cuidado por parte de quem prescreve medicamentos e bastante esforço de conscientização por parte de todos. Não dá para generalizar ou simplificar demais. Na presença de problemas como os mencionados, o sensato mesmo é procurar um profissional para uma avaliação pormenorizada. Lembrando sempre que cada caso é único e singular. Eis aí o “jeitão de ser de cada um”, a ser analisado por um analista e/ou terapeuta, mas antes de iniciar o processo analítico é necessário primeiro o diagnóstico do psiquiatra.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Transtorno Bipolar e Espectro Bipolar – Martins S. Puglia Gustavo Psiquiatra, Título de Especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria – Farmacoterapia dos Transtornos do Espectro do Humor Bipolar: diretrizes e algoritmo – Flávio Milman Shansis e Aristides Volpato Cordioli – Porto Alegre, Artmed, 2005, p.329)
As perspectivas psiquiátrica e psicanalítica sobre os “transtornos de humor” – Adauto Silva Clemente
Ano 4 • Número 12 • novembro 2013 • ISSN 2177-2673

Artigo publicado em 30 set 2018 | Este artigo tem 0 Comentário

INTRODUÇÃO

Este artigo aborda a ética da psicanálise que é transmitida antes de tudo a partir da experiência intensiva do psicanalista, principalmente por meio da investigação da expressão do sujeito.

“O desejo da psicanálise não é o mesmo desejo dos orientadores de comportamento.
O inconsciente da psicanálise não é o mesmo inconsciente das práticas psicológicas.
O recalque da psicanálise não é o mesmo recalque da inveja cotidiana.
A escuta da psicanálise não é a mesma escuta do gerenciador de conflitos.
O gozo da psicanálise não é o mesmo gozo do dicionário que consiste em prazer.
As palavras servem a um vocabulário os conceitos servem a uma ética”.

Estamos vivendo um tempo em que tudo tem que ser resolvido na velocidade do mundo digital, com isso muitas linhas de motivação e autoajuda foram surgindo, portanto, nada se compara a Psicanálise, que leva o sujeito a realidade de forma a não ludibriar o seu sintoma. Na realidade, se houvesse “cura” dos processos psíquicos, bem como os transtornos e síndromes estruturais, não haveria doenças psicossomáticas. Ademais, não se trata as estruturas: neurótica, psicótica e psicopática/perversa, com sessões de autoajuda e/ou motivacionais. Nessas sessões, supostamente, milagrosas o sintoma ficará latente, mas a causa não será tratada.

É necessário saber que o sujeito psicopata, por exemplo, se beneficia das sessões de terapia, pois lhe dá mais poder através do conhecimento adquirido em cursos e sessões de terapias breves. Nós, enquanto profissionais da condição humana – não podemos acreditar que vamos conseguir curar e/ou ajudar o sujeito de estrutura psicótica somente com sessões de terapia – pois, na psicose temos ramificações de transtornos diferentes, cito como exemplo, a esquizofrenia, mas temos outros transtornos que não, necessariamente, são tão visíveis como a esquizofrenia, por isso, é necessário o acompanhamento psiquiátrico. Isso não pode ser negligenciado.

No entanto, não podemos confundir, psicose com psicopatia. A primeira necessita de acompanhamento psiquiátrico e terapia – a segunda não têm cura! O psicopata é 0% emoção e 100% razão. Ou seja, é frio e calculista. Tudo o que faz é premeditado. E não sente culpa ou remorso algum! E ao contrário do que se pensa são seres sociáveis. O psicopata tem uma lábia que os neuróticos não conseguem ter. Na estrutura neurótica – os seres sociáveis – ou seja, o sujeito que obedece e internaliza às leis – que ao contrário do psicopata – sente culpa e remorso, quando em crise precisa, também, de acompanhamento psiquiátrico e terapia.

CONCLUSÃO

Por tudo isso, ao implicarmos o desejo do sujeito no processo de tratamento, ocorre a transferência, o que daí resulta o fato de predestinar-se, a rememorar as fases vividas e que nem sempre estão a nível consciente, por isso mesmo, à destituição – destituição essa assinalada como efeito indelével da política da falta-a-ser levada a sério. Assim, devemos nos atentar para as ofertas das instituições do comportamento que leva o sujeito a crer na “cura” midiática. Para tanto, este assunto não se encerra por aqui, deixaremos em aberto para uma possível discursão em um próximo artigo.

 

Referências

Autora Luzziane Soprani

Flávia Albuquerque – Ponto Lacaniano

Artigo publicado em 31 ago 2018 | Este artigo tem 0 Comentário

O presente artigo tem por objetivo abordar o autismo. O autismo requer orientar-se sobre o corpo e a língua, mas para as finalidades deste artigo ficou centralizado apenas no corpo, em função da proposta do VI Enapol. Em psicanálise, o corpo é algo a construir, e Lacan [1] expressa o uso do verbo “ter”: tem-se um corpo, mas não se é um corpo em nenhum grau. Tal afirmação leva a argumentar porque não há atribuição de um corpo no autismo.

Algo distingue à primeira vista o corpo de um autista de outro corpo: o aspecto exterior ‒como o chama Heidegger‒ torna-se estático na aparência, sem um movimento orientável a determinado ato. O autista toma o corpo do outro, a mão do analista, e a dirige para seu objetivo, como encontrando nesse outro corpo a força vital que ele não tem.

Desde Freud os fenômenos de corpo mostram que a pulsão não está domesticada. A pulsão tem um pé no corpo; perspectiva que se amplia quando Lacan faz da pulsão um movimento de apelo a algo no Outro, o objeto a. A pulsão representa um circuito, apoiada sobre uma borda constante e faz um giro, contornando o objeto a. Ele, como vazio topológico, é o furo necessário para fechar o circuito da pulsão.

No relacional o autista não acede ao Outro na trajetória circular da pulsão, o objeto a permanece no campo do sujeito, como efeito, sua economia própria apresenta um funcionamento autista. Nesta instância do ensino de Lacan, o autismo é explicado como foraclusão da falta. Miller chama de fenômenos psicóticos do corpo quando a pulsão emerge no real e atravessa o corpo; assim, propõe reconhecer nos fenômenos de corpo a pulsão que passou ao real. [2]

No Seminário De um Outro ao outro, o objeto a resta completude ao Outro. E neste objeto a, que tem a substância de furo, as peças desprendidas do corpo se moldam a essa ausência, esclarece Miller. [3] O objeto a impõe uma estrutura topológica ao Outro, é um furo que possui bordas. E atrai, condensa e captura esse gozo informe. No autista o gozo informe não é capturado por esse furo com borda que
daria forma ao gozo, que está em qualquer parte pela ausência desse objeto condensador de gozo. Esse espaço vazio, no qual os fragmentos de corpo poderiam se situar, está foracluído.

Eis ai que, no espaço em que ele vive seu corpo, não há diferenças entre o dentro e o fora, ambos se apresentam sem uma interrupção espacial. O objeto não é êxtimo, é um sujeito que se constitui de pura superfície, uma banda de Moebius sem furos. O espaço tem a propriedade –cito Laurent– de que um objeto visto a 300 metros de distância e outro, que a criança leva na mão, sejam um e o mesmo. Não tendo a noção de distância, o sujeito tenta agarrar o objeto da rua através da janela. Alteradas as coordenadas espaço-temporais, o sujeito se bate ao passar por um lugar com obstáculos, como prova de que não pode manter-se a distância dos objetos, ele os confunde com seu corpo, e o que assegura essa função é o objeto a.

Em “A terceira”, Lacan assinala que não há estatuto simbólico da linguagem sem a incorporação do falo pelo corpo. O corpo autista encurralado reflete corporalmente a dificuldade para sustentar uma postura ereta: há ausência de copulação do falo com o corpo e a linguagem. No autista há foraclusão do falo, intermediário entre a linguagem e o gozo do corpo, não há investidura libidinal, seu gozo não obedece ao regime da castração.

No nó borromeano, imaginário, simbólico e real incluem o falo, e os três na dimensão de seu furo como real. O último ensino de Lacan dá conta do furo [4], trata-se de dar existência, pelo efeito de furo, ao puro não há. A primazia do Um é o gozo “próprio”, antes o objeto a era um pressentimento disto, forjado por Lacan na experiência analítica como gozo pulsional, exterior ao fálico. Miller esclarece que é um
gozo não edípico. Surge no autista a dimensão de um gozo do corpo que escapa ao seu domínio, indócil ao significante ao qual rechaça.

No que constitui a raiz do autismo, uma hipótese é baseada no primeiro ensino como a foraclusão da falta e a outra quesupõe ‒como a enunciou Laurent‒ a foraclusão do furo. No primeiro caso, a falta se situa no nível do ser. O furo, em contrapartida, está no nível do real. Assim é como, com Lacan, é possível avançar na abordagem de uma clínica do real no autismo: extrair as consequências desse Há o
 Um, fórmula que permite esclarecer como real essencial a iteração. [5] A sequência no tratamento seria, primeiro, uma abordagem enlaçada ao corpo, depois a admissão de S1, na tentativa de cingir uma topologia de bordas. Caso disponha deste recurso, que os S1 comandem o corpo, o autista poderá inventar um modo de se ligar a seu corpo.

BIBLIOGRAFIA
1. Lacan, J., O Seminário, Livro 23, O sinthoma, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2007.
2. Miller, J.-A., Embrollos del cuerpo, Paidós, Bs. As., 2012, p.116.
3. Miller, J.-A., Iluminações profanas, Curso da orientação lacaniana, aula de 23 de novembro de 2005, inédito.
4. Miller, J.-A., O Ser e o Um Uno, Curso da orientação lacaniana, aula de 2 de março de 2011, inédito.
5. Ibíd., aula de 18 de maio de 2011.
Traduzido por Elisa Monteiro