Artigo publicado em 02 nov 2012 | Este artigo tem 5 Comentários

Freud definia amor, como um sentimento que existe para além do prazer de se entregar a outra pessoa, não tem dimensões, nem tempo, nem cálculo – como analisa no seu livro, de 1920, a ideia de para além do princípio do prazer. Aliás, é a hipótese que intitula o livro. Normalmente, temos um Ego que sai de Si para se entregar a outro Ego, com a observação sistemática de um outro princípio que observa esse Ego ou Eu, o de Superego ou a consciência de saber que existimos não apenas para nós, mas também para os outros.

Para entender o desejo e união dos amantes é necessário lembrar que existem dois níveis na relação: inconsciente e consciente. Mesmo sabendo que a paixão não é infinita a pessoa quimericamente crê que a paixão pode se perpetuar no fulgor da relação. As emoções sentidas são intensas. Nesta fase tudo é intenso, colorido, transparente, perfeito, alegre e desencadeia a maior parte dos vínculos, por isso é desejada por todos. É o momento em que a pessoa se permite idealizar o que ela necessita no outro.  É o relacionamento da pessoa consigo mesma, projetada no outro. Esta fase de encantamento tem uma visão narcísica, “onde a pessoa ama sua própria imagem refletida”. A pessoa projeta no outro o que ela deseja. Apaixona-se pelo que ela criou no outro. É cientificamente comprovado que a paixão não dura para sempre. O pavor de perder a pessoa, o ciúme descontrolado e a necessidade de estar com o parceiro o tempo todo passam naturalmente. E querer manter este clima de impossibilidade leva a equívocos, a separações e, nos casos trágicos, até à morte. Eis aí os dois níveis da relação: inconsciente e consciente.

Todo casal tomado pela fantasia de preenchimento total – estranhará tudo que represente um afastamento desse desejo primordial. Um mínimo de desatenção, uma voz menos carinhosa, um tempo maior de separação, tudo coloca o parceiro em situação de ansiedade, de insegurança quanto ao amor do outro – ainda que ele saiba, com outra parte de sua personalidade, que não se trata disso. Os amantes mantêm-se preocupados em não deixar que o outro sofra as angústias da dúvida irracional. Repito: racionalmente, ambos sabem que adiamentos ou mudança de tonalidade de voz não significam deixar de amar; mas se o inconsciente aí se manifestar, trará uma insegurança inapropriada.

No topo ideal, uma relação se realiza em estado de fusão, entretanto, a perda de identidade dos parceiros, leva a uma situação prazerosa, porém ameaçadora. É necessário um movimento de afastamento e individuação para que os parceiros recuperem seu próprio eixo, quando então poderão voltar a viver as delícias de uma intimidade funcional. Se cada um puder entender o conhecimento dos desejos e temores inconscientes – a convivência do casal ganhará em intensidade, tranquilidade e relaxamento.

“A transformação, seja ela em qualquer campo de nossas vidas, é benéfica”. Quer dizer que passamos para outra fase, que conseguimos enxergar a vida de outra forma, na maioria das vezes com mais segurança e maturidade.

A paixão é uma das relações afetivas mais sem limites. O  limite é fundamental no aprendizado do amor, tornando o relacionamento maduro e saudável.

 

 

Artigo publicado em 01 nov 2012 | Este artigo tem 9 Comentários

 

O desejo enquanto real não é da ordem da palavra e sim do ato.

Jacques Lacan.

A realidade nos mostra que, os que mais necessitam de um relacionamento a qualquer custo, são os que não se sentem bem consigo mesmo e também não têm facilidade para criar os meios que poderiam proporcionar possíveis encontros afetivos, ainda que incompatíveis. Esses são os verdadeiros “mal-amados”. Não porque sejam pessoas aparentemente menos apresentáveis — muitos são até charmosos e bonitos fisicamente —, mas não conseguem desenvolver características da personalidade que favoreçam os relacionamentos. Alguns tampouco têm noção do que é o amor, porque nunca experimentaram essa vivência, nem com os pais ou a família. Outros só sabem receber amor, sem conseguir dar, e há os que têm dificuldade aguda em criar sintonia com as demais pessoas — passam pela vida como andarilhos vindo de outros mundos.

Sim, todo mundo tem suas imperfeições, porém outras características da personalidade podem servir de equilíbrio. Por esta razão à Psicanálise tem sido de grande valia em diversos casos. A pessoa precisa sentir-se bem para poder se expressar/dialogar ser espontânea (não é preciso ser popular), mas poder criar uma “linguagem” que, desperte diálogo instigante, interesse, desejo, afeto, e assim sentir-se admirado.

Em algumas situações não é fácil avaliar se o sentimento de rejeição vem da dificuldade de relacionamento ou se a determina. Existem pessoas que carregam o sentimento de não conseguirem despertar interesse, e, acabam, por se deixar levar pelas armadilhas de presságios que se desenvolvem: como já se sente rejeitado, se atrapalha, agindo de forma descompensada, não existindo equilíbrio entre razão e emoção, acaba, então, atraindo a rejeição.

Desiludidos, alguns dos “mal-amados” se isolam. Mas há quem, mesmo sem conseguir superar esses obstáculos, sente que, de alguma forma, precisa se relacionar. Para estes, toda forma de amor vale a pena, inclusive as relações superficiais e passageiras, às vezes sustentadas apenas por sexo, que até aliviam os desejos do cotidiano, mas podem produzir vazio na alma.

A situação mantém-se assim até o momento em que alguns tomam consciência e percebem que há caminhos mais consistentes a seguir. Quando se dão conta disso, deixam de ser “mal-amados” e conseguem encontrar dentro de si as causas disso, para se reinventar e então passam viver uma relação afetiva.

Em última análise, há pessoas solteiras que não se sentem rejeitadas. Nutrem sempre a esperança de que alguém está por chegar, lembrando a música Anunciação, de Alceu Valença: “Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais”. São ambos os sexos que, apesar de solteiros, estão contentes consigo mesmo, e aproveitam a própria companhia, a dos amigos, dos familiares. Estes estão mais preparados a encontrar o amor-amante-parceiro-amigo, ainda que demore.

 

 

 

Artigo publicado em 30 out 2012 | Este artigo tem 4 Comentários

Para falar um pouco de tipos de comportamentos assim, será abordada a análise do filme: “Duas Vidas” – interpretado por Bruce Willis. (O filme é uma boa indicação para autoanálise e para entender alguns comportamentos…).

Análise do personagem principal do filme: “Duas Vidas”.

O que se percebe no início é a “máscara” que o personagem principal, (Russ Duritz) usa a todo o momento. Seu uso serve para suplantar as insatisfações e feridas geradas na sua infância. Entretanto, retrata a vida de uma pessoa muito bem-sucedida financeiramente, um executivo de sucesso, mas não tem laços emocionais com à sua família de origem. Ele também não criou vínculos para fazer uma nova família e/ou manter um bom relacionamento.

Podemos perceber que ele ao se defrontar na sua história: com à sua criança de 08 anos (o menino). Ou seja, o seu passado… O encontro com esse menino o confronta, e traça um verdadeiro desafio com as feridas emocionais, que o personagem imaginava já ter superado.

Na realidade a dor, seja qual for: se não for vivida e curada, a qualquer momento da vida pode voltar com a intensidade dos anos.

O que percebemos no contexto do filme é o confronto que o personagem principal vive na trama. Ele é compelido a rever as emoções de lembranças doloridas, representado pelo surgimento da criança. Àquelas que ele não queria lembrar. Dores que ele não admitia que existissem; sonhos que ele já abrirá mão há muito tempo. (“Lembra-se do cachorro e do avião?”).

Quais seriam os motivos dessas lembranças aparecerem quando ele está por completar 40 anos? Elas não vieram por acaso, tiveram um motivo para reaparecer. Percebe-se que eram seus conflitos. Lembrando que o personagem encontrava-se emocionalmente naquela idade (08 anos). O filme retrata claramente o problema de relacionamento muito distante dele com o pai. Afinal, seus sentimentos quando criança foram de: humilhação, rejeição e abandono. Podemos observar que esse menino cresceu usando uma proteção contra as pessoas. Possivelmente, aconteceram muitas situações em sua vida para tornar-se um Narciso. E ao confrontar-se com esta realidade passada, fizeram com que ele saísse de situações congeladas.

O processo de cura inicia-se quando nos permitimos: falar, lembrar, repetir e elaborar, isto é, entrar em catarse. (Catarse: é uma explosão emocional, baseando-se na rememorização da cena e de fatos passados que estejam ligados àquelas perturbações. É um desabafo!). Para resolver relacionamentos, com movimentos de saídas emocionais dos problemas. Enfim, é preciso de uma resolução da pessoa. Decidindo pelo movimento.
Esse processo é doloroso, pois vivemos o dilema da mudança. Nesse caso, por que mudar depois de tantos anos? No filme eram 32 anos de congelamento.

Na maioria das vezes é necessário perdoar muitas pessoas, principalmente os pais e a si mesmo. No caso do filme, o personagem resolveu os seus conflitos com o pai. Entendeu o comportamento distante do pai, em função da perda prematura da mãe, e resolveu seus conflitos com os colegas de escola.

O confronto é isso: “Entrar em contato com aquilo que nos incomoda para resolver”. Contudo, o personagem teve a oportunidade de resolver à sua história e teve o final tão desejado. Na vida real, nem sempre temos a mesma oportunidade de voltar e fazer tudo de novo e diferente. Por isso, a análise-terapia possibilita a cura das dores, que nos deixa paralisados. Basta ter coragem e força de vontade para encarar aquilo que nos paralisa de frente. Sabemos que resolver nossos sentimentos não é fácil, mas não é impossível.

Artigo publicado em 29 out 2012 | Este artigo tem 3 Comentários


Em seu poema Amar, o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) pergunta: “Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?/ amar e esquecer,/ amar e malamar,/ amar, desamar, Amar?/ sempre, e até de olhos vidrados, amar?”.

Amar é o que desejamos numa relação. E, quando encontramos o amor, parece que um mix de leveza e encantamento nos adentra. Mas, como ocorre em outros segmentos de nossa vida, o amor passa por modificações e a vivência em cada uma delas é que vai fortalecê-lo ou matá-lo.

A ciência diz que quando apaixonadas, as pessoas ficam como que drogadas, devido a certas substâncias químicas produzidas pelo organismo que dão a sensação de satisfação. Quando passa a fase do encantamento e da etapa romântica, quando tudo é encanto e fantasia, pode-se partir para desilusão ou para harmonia.

Na verdade, nem tudo no dia a dia são rosas, e, administrar uma relação, é buscar ouvir e respeitar o parceiro, estar sempre atento às mudanças e nuances da trivialidade é fundamental para a manutenção do amor. Afinal, ninguém sabe quanto tempo vai durar esse “estado de graça” e, se o amor não for bem cuidado, a relação poderá entrar numa fase de desencanto, quando bate a sensação de que a pessoa dos sonhos parece ter se tornado uma pedra de gelo que se desfaz em nossas mãos. É sério, porque agora aquele “amor cego” começa a enxergar problemas que não via. Na dor, o amado se pune: “Eu não podia ter feito isso comigo, como pude me enganar tanto!” O que determina o rumo dos acontecimentos é a capacidade dos envolvimentos de cair na realidade sem perder o equilíbrio, respeitando o outro e a si mesmo.

O que faz a união de um casal?

Admiração, respeito, afinidades e desejo. A ordem não importa, mas são ingredientes essenciais. Sem desejo seria amizade sem os resquícios do fulgor da paixão, que houve um dia e é importante para a durabilidade da relação. Sem admiração, trata-se de um casal de amigos que optam em manter as aparências pelos mais diversos motivos. Sem algumas afinidades não há possibilidade da troca mínima necessária e no limite não há possibilidade de compreensão. Sem ternura, não há relação, mas dor, ressentimento, falta de cuidado. É necessário ainda mais, é necessário respeito pelas diferenças e pela individualidade. Quando a compreensão de todo não é possível entre um casal devido as diferenças próprias entre os sexos faz-se suficiente apenas aceitar a diferença ou seguir adiante. O respeito à individualidade são fundamentais para o sucesso da relação. Parece difícil? Quem disse que a vida é fácil? E se relacionar dá trabalho, sim. Como diz, Roberto Freire, “sem tesão não há solução”.

Quando os parceiros buscam o diálogo, adequando intimidade com individualidade, amando, mas sem sair da realidade, sem idealizar o outro, a relação entra na maturidade, atinge a fase da harmonia, na qual o que prevalece é a realidade, além do respeito ao outro e a si mesmo. A relação então poderá se reorganizar em bases sólidas. Mas isso exige dedicação e tempo. Afinal, o encantamento pode ocorrer de repente, mas uma relação plena, não.