Artigo publicado em 07 nov 2012 | Este artigo tem 3 Comentários

O que aceito, isto vai para parte de minha alma que eu conheço, o que eu rejeito, vai para parte da alma que eu desconheço.

C. G. Jung.

Entre as causas e motivações conscientes das traições está a vingança: aquele que foi traído sente raiva do parceiro, não conseguindo resolver está mágoa fica num dilema consigo mesmo, vivendo sempre a margem da vingança e autodestruição.

Ainda que as estatísticas mostrem que as mulheres começam a trair mais, o modelo de traição que predomina é a traição masculina (continua sendo muito comum a imaturidade masculina). Claro que, na juventude, é natural o flerte e a aventura. Surgi à curiosidade que vem dos hormônios. Só que uns levam isso à frente e para sempre. A sociedade ainda é machista: o homem livre é o pegador, ou o mais popular no passado o “garanhão” – e a mulher livre é chamada de vagabunda, galinha, piriguete e outros julgamentos atribuídos ao sexo feminino. De acordo com a sexóloga Carmita Abdo, “vagabunda é aquela mulher que você quer, mas não te quer”. Aquela que transou com vários não estaria interessada em estabilidade. “Será que eu vou dar conta?”, pensa ele. Como se pudesse controlar a futura dor de uma rejeição ou troca.

Isso não quer dizer que é mais realizado na vida amorosa quem faz sexo com muita gente, seja homem ou mulher. Às vezes, as próprias mulheres não relatam seu passado, por temer a maioria dos homens machistas – acabam dizendo que não tiveram muita experiência, ou nunca se sentem à vontade para relatar. Poucos homens conseguem aceitar a experiência sexual das mulheres. Mas o porquê saber das experiências de nossos parceiros no passado? Afinal, todos têm um passado com poucas ou mais experiências que só diz respeito à pessoa. Os homens mais agressivos com as mulheres sentem dificuldade de lidar com a ideia de que elas têm desejo sexual próprio. “É como se a virilidade deles fosse transferida para elas”, afirma o psicanalista Contardo Calligaris. São homens capazes de agredir uma mulher por estar de saia curta. A vida sexual deles costuma ser frustrante, limitada e triste.

Nesse caso o homem continua com a mesma consciência, não reprimir o desejo (por querer mais sexo ou variedade erótica do que encontra no relacionamento) “é o desejo ardente por liberdade, por considerar ter uma única mulher uma escassez”. Não raro, é uma forma de controle, manipulação e poder.

Há quem diga que trai para salvar o casamento: embora tenha insatisfações em relação ao parceiro, acredita que é melhor estar casado; ou quer se separar, mas tem receio à reação do cônjuge. Para estes, trair é um jeito de amenizar o convívio com o cônjuge que não deseja mais.

Já se tornou comum dizer que a postura infiel não gera culpa nem confusão a vida da pessoa, e se ela souber manipular a variedade de experiências e os riscos de ser descoberta, então sua infidelidade é apenas uma escolha – e, subentende-se, suportável. É o perfil de vida individualista atual, que suporta atitudes egoístas e banaliza comportamentos cínicos.

Na realidade, quando alguém se vê obrigado por outra pessoa a passar por situações inaceitáveis estará sendo vítima de uma relação de poder e sua saúde mental/emocional estará à mercê das dores que somatizadas poderão desencadear patologias. É o caso da traição. Trair é um ato de poder. Deixaria de sê-lo só se a opção fosse escolha de ambos. Nesse caso não existe traição, o relacionamento é aberto não tem exercício de poder. É uma escolha dos parceiros, que eticamente combinaram necessidades mútuas. A liberdade nas relações afetivas.

Traição são casos levados aos consultórios dos psicoterapeutas com muita frequência. Enquanto formos tolerantes. com atos infiéis, estaremos retardando a evolução dos relacionamentos afetivos.

Artigo publicado em 05 nov 2012 | Este artigo tem 7 Comentários

A mídia convence que as pessoas belas, com corpos perfeitos, terão sucesso no amor e nos negócios. A beleza torna-se encobridora da falta em uma franca recusa da castração. O corpo passou a ser palco da perfeição e da juventude eterna. A identificação com estas imagens segue um modelo chamado de ego ideal que aponta para o narcisismo e a tentativa de evitar conflitos e castração, e tem como consequência uma falsa ideia de completude e certo desenvolvimento paranóico com relação ao próprio corpo. (Déborah Pimentel – Círculo Psicanalítico de Sergipe).

Sem dúvida, a vaidade, a estética e o culto à saúde, são muito importantes. Isso só se torna um problema quando há uma supervalorização desses aspectos.

Hoje, o que conta é a aparência. As imagens dos corpos que desfilam assumem a forma padronizada que rege o lugar de objetos de desejo. Portanto, o pecado agora é ser gordo, ter celulite, estrias ou rugas.

A cada dia proliferam academias, clínicas de estética, novos tratamentos antienvelhecimento, antiestrias, “anti-isso”, “anti-aquilo”…

São muitas as ofertas para uma mulher parecer diferente, mais linda, mais desejável, mais fascinante e ilusoriamente perfeita: mudam a cor dos olhos, usam-se cosméticos, aumentam ou diminuem partes do corpo, como seios, lábios, nádegas…

É importante questionar: qual é a relação que existe entre as imagens dos corpos divulgados pela mídia em uma cultura de consumo, como ideais de beleza, e a ideia de completude e busca da felicidade?

As pessoas estão o tempo todo aspirando ao corpo perfeito, um marido bacana, uma mulher linda, um bom emprego. E se estas coisas ainda não foram alcançadas, não desanime, pois o pacote completo, sinônimo de sucesso deve estar por chegar. Este também é “o segredo” dos livros de autoajuda que se tornam Best Sellers.

No mundo contemporâneo, imediatista e individualista: há os viciados em álcool, droga, jogo, trabalho, status, prestígio, poder, sexo, internet… e os que supervalorizam à sua imagem física e/ou muitos desses vícios juntos.

Muitas dessas mulheres viciadas em plásticas estão identificadas e paralisadas diante das imagens das Top Models, pelo narcisismo e pela presença de um superego cruel e sádico, “não habitam e se reconhecem no próprio corpo”, que é tratado como objeto ameaçador, vigiando-o, controlando-o e transformando-o continuamente por motivação estética.

Essas questões vão além de uma referência a modelos estéticos. Esse excesso de preocupação com a beleza e a estética está a serviço de evitar confrontos com a realidade, é uma fragmentação interna que gera: insegurança, frustração, medo, angústia e horror ao vazio.

Se houvesse um meio de conciliação, se, de alguma forma, estas mulheres pudessem se apropriar dos seus próprios corpos e simbolizá-los de alguma maneira, posto que (ninguém é perfeito), se não ficassem evitando a frustração e elaborassem o seu desamparo e carência estrutural, poderiam estar mais próximas da tal felicidade, mesmo que parcial e, verdadeiramente, como é o destino dos humanos.

Em última análise, sentimos o quanto à valorização desses atributos externos estão tão arraigadas em nossa consciência que deixamos de olhar para o que realmente importa: a essência humana que está dentro de cada um de nós.

Artigo publicado em 02 nov 2012 | Este artigo tem 5 Comentários

Freud definia amor, como um sentimento que existe para além do prazer de se entregar a outra pessoa, não tem dimensões, nem tempo, nem cálculo – como analisa no seu livro, de 1920, a ideia de para além do princípio do prazer. Aliás, é a hipótese que intitula o livro. Normalmente, temos um Ego que sai de Si para se entregar a outro Ego, com a observação sistemática de um outro princípio que observa esse Ego ou Eu, o de Superego ou a consciência de saber que existimos não apenas para nós, mas também para os outros.

Para entender o desejo e união dos amantes é necessário lembrar que existem dois níveis na relação: inconsciente e consciente. Mesmo sabendo que a paixão não é infinita a pessoa quimericamente crê que a paixão pode se perpetuar no fulgor da relação. As emoções sentidas são intensas. Nesta fase tudo é intenso, colorido, transparente, perfeito, alegre e desencadeia a maior parte dos vínculos, por isso é desejada por todos. É o momento em que a pessoa se permite idealizar o que ela necessita no outro.  É o relacionamento da pessoa consigo mesma, projetada no outro. Esta fase de encantamento tem uma visão narcísica, “onde a pessoa ama sua própria imagem refletida”. A pessoa projeta no outro o que ela deseja. Apaixona-se pelo que ela criou no outro. É cientificamente comprovado que a paixão não dura para sempre. O pavor de perder a pessoa, o ciúme descontrolado e a necessidade de estar com o parceiro o tempo todo passam naturalmente. E querer manter este clima de impossibilidade leva a equívocos, a separações e, nos casos trágicos, até à morte. Eis aí os dois níveis da relação: inconsciente e consciente.

Todo casal tomado pela fantasia de preenchimento total – estranhará tudo que represente um afastamento desse desejo primordial. Um mínimo de desatenção, uma voz menos carinhosa, um tempo maior de separação, tudo coloca o parceiro em situação de ansiedade, de insegurança quanto ao amor do outro – ainda que ele saiba, com outra parte de sua personalidade, que não se trata disso. Os amantes mantêm-se preocupados em não deixar que o outro sofra as angústias da dúvida irracional. Repito: racionalmente, ambos sabem que adiamentos ou mudança de tonalidade de voz não significam deixar de amar; mas se o inconsciente aí se manifestar, trará uma insegurança inapropriada.

No topo ideal, uma relação se realiza em estado de fusão, entretanto, a perda de identidade dos parceiros, leva a uma situação prazerosa, porém ameaçadora. É necessário um movimento de afastamento e individuação para que os parceiros recuperem seu próprio eixo, quando então poderão voltar a viver as delícias de uma intimidade funcional. Se cada um puder entender o conhecimento dos desejos e temores inconscientes – a convivência do casal ganhará em intensidade, tranquilidade e relaxamento.

“A transformação, seja ela em qualquer campo de nossas vidas, é benéfica”. Quer dizer que passamos para outra fase, que conseguimos enxergar a vida de outra forma, na maioria das vezes com mais segurança e maturidade.

A paixão é uma das relações afetivas mais sem limites. O  limite é fundamental no aprendizado do amor, tornando o relacionamento maduro e saudável.

 

 

Artigo publicado em 01 nov 2012 | Este artigo tem 9 Comentários

 

O desejo enquanto real não é da ordem da palavra e sim do ato.

Jacques Lacan.

A realidade nos mostra que, os que mais necessitam de um relacionamento a qualquer custo, são os que não se sentem bem consigo mesmo e também não têm facilidade para criar os meios que poderiam proporcionar possíveis encontros afetivos, ainda que incompatíveis. Esses são os verdadeiros “mal-amados”. Não porque sejam pessoas aparentemente menos apresentáveis — muitos são até charmosos e bonitos fisicamente —, mas não conseguem desenvolver características da personalidade que favoreçam os relacionamentos. Alguns tampouco têm noção do que é o amor, porque nunca experimentaram essa vivência, nem com os pais ou a família. Outros só sabem receber amor, sem conseguir dar, e há os que têm dificuldade aguda em criar sintonia com as demais pessoas — passam pela vida como andarilhos vindo de outros mundos.

Sim, todo mundo tem suas imperfeições, porém outras características da personalidade podem servir de equilíbrio. Por esta razão à Psicanálise tem sido de grande valia em diversos casos. A pessoa precisa sentir-se bem para poder se expressar/dialogar ser espontânea (não é preciso ser popular), mas poder criar uma “linguagem” que, desperte diálogo instigante, interesse, desejo, afeto, e assim sentir-se admirado.

Em algumas situações não é fácil avaliar se o sentimento de rejeição vem da dificuldade de relacionamento ou se a determina. Existem pessoas que carregam o sentimento de não conseguirem despertar interesse, e, acabam, por se deixar levar pelas armadilhas de presságios que se desenvolvem: como já se sente rejeitado, se atrapalha, agindo de forma descompensada, não existindo equilíbrio entre razão e emoção, acaba, então, atraindo a rejeição.

Desiludidos, alguns dos “mal-amados” se isolam. Mas há quem, mesmo sem conseguir superar esses obstáculos, sente que, de alguma forma, precisa se relacionar. Para estes, toda forma de amor vale a pena, inclusive as relações superficiais e passageiras, às vezes sustentadas apenas por sexo, que até aliviam os desejos do cotidiano, mas podem produzir vazio na alma.

A situação mantém-se assim até o momento em que alguns tomam consciência e percebem que há caminhos mais consistentes a seguir. Quando se dão conta disso, deixam de ser “mal-amados” e conseguem encontrar dentro de si as causas disso, para se reinventar e então passam viver uma relação afetiva.

Em última análise, há pessoas solteiras que não se sentem rejeitadas. Nutrem sempre a esperança de que alguém está por chegar, lembrando a música Anunciação, de Alceu Valença: “Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais”. São ambos os sexos que, apesar de solteiros, estão contentes consigo mesmo, e aproveitam a própria companhia, a dos amigos, dos familiares. Estes estão mais preparados a encontrar o amor-amante-parceiro-amigo, ainda que demore.