Artigo publicado em 23 maio 2014 | Este artigo tem 4 Comentários

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O conceito de sintoma é essencial para a psicanálise. Encontramos o desenvolvimento do conceito de Sintoma nas obras de Freud e Lacan, que ofertam ao leitor um guia na trajetória desses autores – convidando-os a evoluir com a sua própria trajetória.”Miller (1987), Ocariz (2003) e Conde (2008)  o caminho para a leitura dos originais revelando que, ao longo da obra de Freud, o sintoma aparece como expressão de um conflito psíquico; mensagem do inconsciente e satisfação pulsional. Já Lacan, lendo Freud, apresenta o sintoma como mensagem; gozo e invenção”.

Por que o sintoma nos causa inquietação, incômodo, angústia, e, ainda assim, nos são muito benéfico. Benéfico no sentido de nos manter atentos, por pior que seja a condição que nos encontramos preferimos o conhecido a aventurar-se ao desconhecido.

O sintoma é um acontecimento que se repete, como um círculo vicioso – e, não raro, o sujeito não consegue sair dele sozinho. Na verdade, o que se repete são os modelos infantis. Os acontecimentos começam desde a primeira infância, porque é na infância que temos uma definição da personalidade, da sexualidade, do sofrimento psíquico e o gozo. Para Freud, o sintoma, tem sempre um sentido inconsciente, dispõe de uma íntima ligação com as experiências peculiares do sujeito e está sustentado por uma fantasia infantil. O inicio da personalidade do sujeito tende ir ao encontro dos acontecimentos que lhe dão prazer – e ao se confrontar com outras situações, sendo isso algo mais no sujeito, (o além do princípio do prazer), vem complementar dizendo que, nisso não reside um sistema de vida de se viver bem, em que o sujeito faz coisas indesejáveis e/ou que lhe cause sofrimento. Ora, se desencadeia angustia/sofrimento por que o sujeito continua se repetindo? Porque se existe sofrimento existe também prazer, se não houvesse prazer, não haveria a repetição. Mas eis a indagação: que prazer é esse que mesmo sofrendo, o sujeito sente prazer? O prazer deriva do inconsciente. Entende-se que, ao mesmo tempo em que o sujeito sofre, ele sente também um prazer enorme. Por isso, que o sujeito não consegue parar de repetir e abandonar o sintoma, ocorre que ele fica agarrado ao sintoma porque o sintoma o define.

“Há alguma coisa que se repete na sua vida, que é sempre a mesma, essa é a sua verdade. E o que é essa coisa que se repete? É uma certa maneira de gozar”. Lacan

O conceito de gozo descrito por Lacan diz respeito a um prazer inconsciente e ao mesmo tempo desprazer na consciência. Para Lacan o ser humano é um sujeito dividido pelo seu inconsciente e a sua consciência. Percebemos que a Psicanálise não se importa tanto com o sintoma, portanto, dá mais atenção ao gozo que está por detrás do sintoma – e dessa forma o sujeito acaba fixado no sintoma. Porque é onde o sujeito sofre e repete, que existe o gozo.

O sujeito projeta no Outro, a causa de seu desejo. Dito de outro modo, colocamos no Outro o que desejamos. Assim, o neurótico espera do Outro a esperança de que, o Outro, diga o que lhe falta. O sintoma nunca será resolvido completamente, pois somos seres sempre em busca daquilo que vai nos preencher. Dessa forma, para cada um de nós, o ser humano é na verdade, uma interrogação. Porque não há uma verdade absoluta para o sujeito. “Somos seres “furados”. E como diz Lacan: “Somos seres faltantes”. Se não falta é porque a pessoa não enxerga a falta, está simplesmente sonhando e alucinando. Tendemos acreditar que o Outro nos inspira a ser melhor e/ou apenas melhor que o Outro. Uma tentativa de resposta à questão: quem sou eu?

“Em Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Lacan (1964) trabalha a constituição do sujeito utilizando-se da matemática e especificamente, da teoria dos conjuntos e suas operações de união e intersecção e do termo vel (e/ou). Lacan destaca o fato de que não se nasce sujeito e que este surgiria através das operações de alienação e separação na cadeia significante. E é a partir desse movimento, na dinâmica própria da linguagem, que se localizaria a causa do sujeito. Nas palavras de Lacan, “o efeito de linguagem é a causa”. introduzida no sujeito. Por esse efeito, ele não é causa dele mesmo, mas traz em si o germe da sua causa que o cinde.” (Lacan, 1960, p. 849).

“O sintoma, é o significante de um significado recalcado da consciência do sujeito. […] é uma fala em plena atividade, pois inclui o discurso do outro no segredo de seu código”. Jacques Lacan ( Escritos, 1953, 1998, pág. 282)

Afirmar com convicção que no desconhecido contém resistências veladas – é poder desfazer-se de nossos benéficos sintomas – a partir da visão de quão antigos e ultrapassados esses estão – e que só se retroalimentam porque nos seguramos a eles, como se fossem um objeto de valor! Não é uma decisão fácil, nem tão pouco simples de se fazer. Porém, o primeiro passo é arriscar-se a mudança. Porque diante do mecanismo de negação em que não nos arriscamos, já estamos negando a mudança. E mudar padrões é ousar. No entanto, arriscar é poder alcançar um SIM, pois de qualquer maneira no NÃO, o sujeito já está, quando não embarca no processo de se conhecer – ele permanece no incômodo, inquietação, angústia, ou seja, sempre na compulsão a repetição. Uma vez ouvi alguém dizer: “quem quase vive já morreu”. Finalmente, é necessário coragem para enfrentar a si próprio.

 

REFERÊNCIA:

Sigmund Freud (1856-1939) Livro XVIII – Obras Psicológicas de Sigmund Freud

lacan.orgfree.com

 

Artigo publicado em 21 abr 2014 | Este artigo tem 8 Comentários

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O presente artigo faz algumas considerações sobre a mulher histérica. Entretanto, ao longo dos nossos estudos sobre a psique, descobrimos que a histeria não é um caso específico e/ou restrito somente as mulheres –  há, portanto, muitos homens histéricos. Mas sabemos que foi por meio das mulheres que Freud começou seus estudos referente a histeria – e começou demonstrar o deciframento do desejo inconsciente através da escuta. Embora, o próprio Freud durante o seu percurso deixasse claro, que seria impossível conhecer a profundidade dos desejos de uma mulher.

O vocábulo “histeria” deriva-se da palavra grega hystera (matriz, útero). A noção da doença histérica remonta a Hipócrates, época em que era considerada uma doença orgânica de origem uterina presente, então, nas mulheres. No século XVI, a idéia de que a histeria provinha do cérebro abriu caminho para se pensar em o sintoma histérico estar presente também nos homens. Já no século XVII, “(…) pôde-se invocar, em vez da antiga sufocação da matriz, o papel das emoções, dos “vapores” e dos “humores”, a ponto, aliás, de confundir numa mesma entidade a histeria e a melancolia” (Roudinesco, 1998, 338).

Neste artigo, porém, abordaremos o enigma da mulher histérica. A anormalidade antes vista na histérica, deu lugar nos dias de hoje, a uma nova representação do sintoma, não mais percebendo na histeria uma patologia, mas uma personalidade enigmática. O sintoma, então, para a Psicanálise, não é mais uma anormalidade, mas sim, abrigado no inconsciente – e atribuído a eventos inconscientes que não pode ser dito. Freud denominou isso de recalcado, e descreveu sua reconstituição sob a denominação de sintoma.

“A explicação do enigma é a repetição do enigma”. Clarice Lispector

A mulher histérica impacta a primeira vista pelo seu perfil: sedutora, vaidosa, extrovertida, extravagante, excêntrica e incisiva nas suas investidas. Demostrando alegria e êxtase em suas conquistas, para em seguida, machucar o sujeito o qual seduziu. Usa e abusa da sexualidade – é sexy e possessiva por natureza. Dissimula um amor romântico na busca de fama. Necessita de palco para representar a sua teatralidade. Mas, o que ela quer mesmo é fama, ser o centro das atenções, inclusive, quando se sente amargurada diante os eventos da vida.

Tudo que ela toca e faz é com muita sensualidade. Mas todo cuidado é pouco. O seu olhar, assim como a sedução sexual da qual ela se utiliza, são um engodo.  Quando ela mira a sua presa – esta o deixa perdidamente sem direção (exceto a sua própria direção). Usa o seu corpo como sua maior arma de provocação – tudo para deixá-lo envolvido e enrolado.

“A questão, justamente, é saber por que, para que uma histérica mantenha um relacionamento amoroso que a satisfaça, é necessário, primeiramente, que ela deseje outra coisa, e o caviar não tem aqui outro papel senão o de ser outra coisa, e em segundo lugar, que, para que essa outra coisa desempenhe bem a função que tem a missão de desempenhar, ela justamente não lhe seja dada”. (LACAN, 1999, p. 376)

A mulher histérica lança seu olhar fulminante e sedutor, mas, que denota também, uma carência de afeto. E mais que isso: possui em seu olhar penetrante a perdição do encantamento na fantasia dos apaixonamentos  – ela é  que podemos chamar de: “o calcanhar de Aquiles,” para a fragilidade de um homem envaidecido. Consegue deixá-lo sentir-se intensamente amado, desejado, quando na realidade, a histérica só sente amor e desejo por si mesma. A histérica é extravagantemente narcisista. Na estrutura histérica, observa-se alguns adjetivos bem demarcados: sedução, dissimulação, egocentrismo, vaidade, exibicionismo, manipulação, possessividade, dramatização, humor oscilante, precipitação e mitomania.

A histérica, na verdade, expressa o seu lado homem, no entanto, não é homossexual – da forma a qual as mulheres que desejam outras mulheres. A histérica apenas se alimenta de uma identificação imaginária com o homem para encontrar as perguntas e respostas, referente à essência da feminilidade. Assim, o ponto nevrálgico da histérica em relação a sua feminilidade é devido o luto pelo pai que não pôde lhe responder o que é ser uma mulher.

Entende-se que à mulher histérica recria um homem e o eleva a condição amo. O homem nesse caso é o significante amo na histérica, o que nos faz entender que o pai é o primeiro dos amos, sendo o pai o amo na maior hierarquia.

Na falta do homem, a mulher histérica sintomatiza e adoece, pois ela necessita do homem para realizar suas fantasias – mas em contrapartida, na presença do homem – ela se coloca numa posição em que possa manipula-lo, mostrando-lhe como um homem deve ser e agir. Pois, na verdade, é ela quem mantém as rédeas na relação.

Atenção, homem envaidecido: o amor da mulher histérica é intenso e ao mesmo tempo falso, forte e frágil, vasto e superficial – ela é imprevisível. A sua mitomania, que é um ato clássico de mentir e acreditar na própria mentira é incisivo, pois é um traço de sua personalidade muito forte.

Na histeria há uma miscelânea de fantasia e realidade, não sabendo quando uma começa e a outra finaliza. De imaginação fértil e fantasiosa, pode chegar a calúnia para chamar a atenção sobre si mesma, e sentir-se o centro do universo. A histérica costuma afirmar que o homem (vaidoso e sedutor) foi quem a seduziu, inventando histórias onde é vítima da sedução sexual.

Geralmente, diz ser perseguida pelo amigo do namorado, o parente do marido, o colega de trabalho do namorado, o namorado e/ou marido da irmã etc. Assim, engana e se engana para ser valorizada. A necessidade de público que tem o sujeito histérico é para representar, tanto para si quanto para toda a platéia, que a mesma consegue abarcar.

“Freud vai dizer que a histeria está ligada a uma fixação à fase fálica. Nesta fase, ao se deparar com a percepção de que a mãe não tem falo, o mundo da criança passa a ser dividido entre fálicos e castrados, os primeiros considerados seres superiores e os segundos, inferiores. É ao passar pela resolução do complexo edípico que a criança poderá aprender a diferença entre os sexos e dividir as pessoas em homens e mulheres”.

A histérica não sabe o que é ser mulher, mas, faz uma representação do que é ser mulher, por isso, muitas vezes demonstra um ar teatral e exagerado!

“Freud coloca que o excesso de adereços numa mulher seria uma tentativa de compensação pela sua falta de pênis. Há um jogo que se passa na falicidade, em que há uma ilusão de não estar se perdendo nada”.
“Segundo Silvia Fendrik, do ponto de vista estrutural a histeria supera o âmbito do psicopatológico para ser um modo específico de estruturação do desejo relacionado ao Édipo”.

Alguns homens, dizem preferir as mulheres histéricas, pois elas têm suas vantagens…!

Na visão lacaniana, o desejo da histérica é desejo de desejo do Outro. A histérica vive para ser desejada. Ela necessita do homem, e para isso, ela é pertinente na condição de dar-se como objeto, mas, é da natureza da histérica, sustentar o amor para depois destituí-lo e instituir Outro. Por fim, todo jogo da histérica está na sua sexualidade que envolve o Outro – explora aquele que ela dissimula amar e desejar para depois rejeitar.

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REFERÊNCIAS 

O Recalque (1915) In: Escritos sobre a psicologia do inconsciente, v. 1. Rio de Janeiro: Imago, 2004.

FREUD, S. A interpretação dos sonhos (1900) In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de S. Freud, vol. 4. Rio de Janeiro: Imago, 1987.

ROUDINESCO; PLON, M. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

Artigo publicado em 18 mar 2014 | Este artigo tem 4 Comentários

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“A ciência moderna ainda não produziu um medicamento tranquilizador tão eficaz como o são umas poucas palavras bondosas”. (Freud)

INTRODUÇÃO

O presente artigo tem por objetivo abordar a terapia, como um bem maior a nossa qualidade de vida. A psicanálise, leva o sujeito ao autoconhecimento, bem como a se relacionar melhor com o outro – uma vez que parte do princípio que uma pessoa analisada passa a se conhecer melhor.

DA COMPREENSÃO DO EU

Por vezes, sentimos uma angustia sem saber o porquê – o processo analítico, então, ajudará o sujeito a compreender os seus sentimentos, para viver mais livre dos sentimentos que acometem a raça humana, como, a culpa, a angústia e o medo, que, eventualmente, nos acomete de forma negativa, e muitas vezes desencadeia muitas patologias.

DA CAUSA AO SINTOMA

A causa do problema pode ser algo que foi vivenciado na infância e – esquecido -, ou seja, fica armazenado no inconsciente do sujeito, pois aparentemente não obteve um impacto imediato na vida do sujeito –  muito embora, no decorrer da vida os sintomas comecem a gritar dentro da gente – podendo desencadear uma série de patologias. Para tanto, a psicanálise encaminha o sujeito a conhecer a sua história de maneira diferente, pois no decorrer das sessões de análise, o analisante toma conhecimento da causa e os sintomas que o aflige, através dos insights que o analisante vai tendo no decorrer do processo de análise, bem como criando uma nova forma de interagir com àqueles a sua volta. Pode ser um processo longo e doloroso, mas quando nos propomos a dar voz interior, a cura ou a correção dos sentimentos acorrerá.

DA PSICANÁLISE X PSIQUIATRA

É importante ressaltar que a linha da psicanálise é diferente da psiquiatria. A psiquiatria se dispõe a tratar a patologia estrutural psicótica, diferente da patologia estrutural neurótica, sendo a estrutura psicótica mais grave, sendo necessário o uso frequente de medicamentos no tratamento.

Para a Psicanálise, “as pessoas hoje estão fazendo uso de muitos medicamentos”. Talvez as pessoas não queiram enfrentar, ou, reviver o sofrimento passado que de alguma maneira o sujeito negou, assim, a mente humana camufla a dor, levando para o inconsciente – até que em algum momento isso volte à tona. Precisamos entender que, o sofrimento é inerente a condição humana, e em muitos casos é necessário para a nossa evolução enquanto seres humanos. Não queremos dizer com isso, que pacientes estruturalmente neuróticos não necessitem de medicamentos nos momentos de crise. O sujeito em crise, que se dispõe a se tratar em sessões de terapia, necessita, sim, de medicamentos para, então, conseguir reequilibrar os neurotransmissores, que se encontram desajustados, devido à crise existencial. No entanto, o paciente não necessariamente ficará dependente do medicamento para o resto da vida. Diferentemente dos pacientes psiquiátricos que em sua maioria precisam utilizar os medicamentos por toda uma vida. Geralmente, os distúrbios psiquiátricos não têm cura, por isso, o uso da medicação pode ser indicado para o controle da doença. Falamos aqui, de duas estruturas, a primeira Neurótica, que pode ser tratada sem medição no processo terapêutico, caso o paciente não se encontre em crise. A segunda Psicótica, que será necessário o uso de medicamentos para o controle da doença.

DAS LINHAS PSICANALÍTICAS DE ATENDIMENTO

Abordaremos outro questionamento importante: é frequente psicanalistas defenderem de forma quase que absoluta que, para ser psicanalista é preciso ser lacaniano e/ou freudiano. Tendo em vista, o que Freud quis dizer quando afirmou que os psicanalistas eram os principais rivais da psicanálise – quando são muito sectários na dimensão terapêutica. “Pode ser verdadeiramente abominável as sessões muito curtas” – seguidas por determinados lacanianos. Por que imitar Lacan? Para a psicanálise ele foi genial! – Lacan pode ser considerado o mais importante psicanalista depois de Freud. Ele teve a genialidade de dar continuidade a descoberta freudiana, que é o de permitir a cada pessoa saber qual é a sua forma peculiar de desejar, sem ser compelido a entrar nessa plastificação do sectarismo. Fato é que Lacan se tornou lacaniano – criando a sua própria maneira no atendimento analítico. Lacan, enfatiza que, cada profissional coloque um pouco de si na sua conduta profissional.

Sessões curtas era um traço de Lacan, sim, mas ele não fez isso por toda à sua vida como psicanalista. E ele também, não teorizou a ideia de que era necessário fazer sessões muito curtas e tão pontuais. Nesse ponto de vista, a maneira de conduzir uma sessão de análise aos moldes lacanianos – se tornaria uma seita ou religião. As sessões devem ter o tempo necessário, de aproximadamente, 50/60 minutos? Ou ainda, o tempo necessário para o psicanalista e o seu analisante. Também não temos o propósito de condenar  aqueles que seguem a risca o atendimento nos moldes freudiano ou lacaniano.

DA IMPORTÂNCIA DO VALOR DAS SESSÕES

Outro fator importante a ressaltar neste artigo – são as pessoas que buscam a análise acharem caro! E por que acham caro? As pessoas estão usando o dinheiro na relação custo/benefício. E, geralmente, pensam: “É um investimento muito alto!” Assim, acreditam que a melhor opção é fazer uma viagem, fazer àquela cirurgia plástica de que tanto deseja, etc.

Ora, é um investimento que se faz em uma psicanálise. Se você vai a um médico, e, então, o médico diz: “você me paga R$ X, e eu o deixo (a) maravilhoso (a)”, logo, se tem uma relação óbvia de custo/benefício. Mas quando a pessoa vai para o analista, não tem nada padronizado, ou seja, o que está em jogo não é o exterior, a plasticidade física, mas os sentimentos, as dores que muitas vezes são  aparentemente invisíveis a todos, mas que nunca irão se calar – continuarão latentes. Assim, ignoram e pensam, mas vou gastar X ou Y, só para conversar com um analista? No entanto, assim como o tempo, o pagamento é um fator que o profissional utiliza como instrumento terapêutico. Como o cirurgião cobra X ou Y, por uma cirurgia plástica para lhe deixar mais bonito (a), o analista também cobra X ou Y, para que você possa estar melhor e mais mais belo internamente. O primeiro, faz uma cirurgia plástica externa, o segundo, lhe ajuda a corrigir emocionalmente suas experiências negativas.

DA IMPORTÂNCIA DA CURA INTERIOR

Pense: qual é o seu objetivo, quando vai fazer uma mudança no visual externo? E dessa forma, ponha em questão seu referencial de valor. Tendo em vista que o dinheiro é um dos objetivos nos quais a questão do valor predomina.

CONCLUSÃO

Em suma, talvez seja por isso que, as industrias de medicamentos, de cosméticos, as lojas de objetos de produtos de luxo, as clínicas de cirurgiões plásticos e as estéticas estão sempre lotadas. Esquecemos o custo/beneficio do bem-estar interno e preferimos aderir a um narcisismo da globalização e contemporaneidade, com imperativos de consumo. Pois, quando soubermos usar o custo/benefício ao bem-estar interno, será um dos nossos maiores investimentos. Com isso, não queremos menosprezar a aparência física e a autoestima que um tratamento estético pode nos oferecer, bem como às cirurgias plásticas proporcionam as pessoas a autoestima, por exemplo, mas alertar que não devemos menosprezar os nossos sentimentos.

 

Fonte própria

Artigo publicado em 18 fev 2014 | Este artigo tem 4 Comentários

Trânsito-acidente

“A vida é um conjunto de forças que resistem à morte” – Bichat

INTRODUÇÃO:

Os acidentes de trânsito representam importante problema mundial pelos índices de mortalidade. Estatísticas oficiais mostram que mais de um milhão de pessoas por ano, em todo o mundo morrem por envolvimento em acidentes de trânsito. Acrescido ao número de mortes, os acidentes deixam entre 20 milhões e 50 milhões de pessoas feridas.

“As necessidades humanas são inatas e universais; no entanto, elas podem ser influenciadas, eliminadas ou enfraquecidas pelas condições externas, atribuindo, assim, importância fundamental aos suportes presentes no ambiente para a sua satisfação.” (Maslow)

A PSICANÁLISE E O COMPLEXO DE ÉDIPO NO TRÂNSITO:

O complexo de Édipo está entre os conceitos fundamentais da psicanálise. Sua importância é tanto que dados indicam que entre 1910 e março de 2005 foram catalogados 1266 trabalhos – grande parte destes artigos em revistas científicas. Esse assunto é de grande relevância para a própria estruturação da psicanálise – foi inspirado no famoso mito grego de Édipo, que encontramos a primeira intersecção entre trânsito e psicanálise, pois é uma situação de conflito no trânsito que desencadeia o processo de Édipo matar seu pai.

Diante do mito, é importante analisar que os conflitos de trânsito já podiam ser violentos na Grécia antiga. Mesmo considerando que Édipo seja um ser mitológico é muito provável que o conflito de trânsito seja a parte real do mito, algo que fazia parte da realidade daquela cultura. Assim, não é novidade do mundo pós-revolução industrial que exista violência no trânsito, o que há de mais novo, é uma grande proporção de indústrias automobilísticas e suas concorrências acirradas -, isto ressalta o quão instigante e sedutor é o trabalho do marketing em prol do consumo e do consumido, o sujeito.

DA FINITUDE:

Quando se analisa a questão da finitude através da teoria psicanalítica, a associação com o conceito de pulsão de morte é inevitável.

Na contemporaneidade, o trânsito pode realizar a busca de algum desejo inconsciente. Violando as leis de trânsito, logo, se ultrapassam regras. E nessa incessante repetição, há uma enorme satisfação que é levada ao gozo. O sujeito tende a viver perigosamente – e sempre que é levado pelo prazer da velocidade – estará suspenso entre a vida e à morte.

O TRÁGICO CENÁRIO DE ACIDENTES AUTOMOBILÍSTICOS:

Estudiosos preocupados com o trágico cenário de acidentes automobilísticos têm produzido conhecimento científico sobre o comportamento do homem no trânsito. Observa-se, também, que independe do gênero, visto que o sexo feminino está cada vez mais atuante em todos os segmentos, havendo assim maior necessidade de estar no trânsito. No entanto, a probabilidade de acidentes automobilísticos com o sexo masculino é muito mais frequente e com estimativas de números bem maiores. Pode-se dizer que a ocorrência desse cenário se intensifica, pois afeta aspectos da personalidade humana.

O incessante interesse por investigar e estudar o assunto – nasceu de uma trágica perda de um ente querido – em um acidente automobilístico. A partir desta vivência, a curiosidade por desvendar o mistério, que se passa na psique de indivíduos velozes fez com que eu buscasse na filosofia, na psicanálise, na religião, alguns questionamentos e, por conseguinte, restaram-me algumas respostas.

Acidente automobilístico

 

Recentemente, (“o ator, Paul Walker, de Velozes e Furiosos. (Morre em acidente de carro nos EUA). Fonte: Do G1, em São Paulo”. Aqui cabe a frase, que é irônica nesse caso: “A vida imita a arte”.)

O COMPORTAMENTO DO SUJEITO VELOZ

É possível compreender essa necessidade que leva ao processo de repetição com a velocidade – causando assim, tantos acidentes automobilísticos? O que ocorre com o sujeito veloz?

A maneira como o sujeito dirige pode ser vista como uma representação de seu funcionamento psíquico. Para além de suas escolhas, crenças e costumes. Estão presentes também situações reprimidas e camufladas da personalidade do sujeito que, geralmente, são provenientes da infância. A “impotência” diante da vida e seus dissabores são compensados pela “potência” dos motores; ou, na mesma direção, o “poder” de dirigir um carro potente – exteriorizado por meio do prazer da velocidade de um carro com todas as tecnologias de ponta.

No presente caso, os veículos representam a extensão do próprio corpo e/ou da própria existência. Quando acorrem os acidentes automobilísticos, o veículo passa a ser o objeto central do sintoma – sendo que em um primeiro momento todo o discurso do acidente pode ser o veículo o qual o sujeito conduzia. Geralmente, o discurso começa a partir do veículo. Mas sabemos que pertinentemente as indústrias automobilísticas sabem se basear no conhecimento cada vez mais sofisticado que se tem do desejo humano. Muito bem elaborado e estudado por ferramentas do marketing. As indústrias automobilísticas sabem que CARROS são como que projeções do EU.

Analisando este panorama enquanto estudiosa da Psicanálise, percebo a demanda geradora do mal-estar da civilização na atualidade; sendo os acidentes automobilísticos uma dessas consequências. Vale ressaltar que diante de tantas novas tecnologias – o ser humano continua sempre em falta. E por existir essa falta, que veementemente estamos sempre em busca. Sabemos por Freud, que somos seres faltantes e que, na maior parte da vida estamos aprisionados nessa pele humana e, por essa razão, somos angústia e desejo, somos fobia e castração.

A Psicanálise nos invoca para as formas de linguagem com intuito de alcançar o inconsciente e as pulsões beneficiadas pelo desejo. A contribuição da Psicanálise na compreensão dos acidentes automobilísticos tem como objetivo discutir os aspectos da personalidade que permeiam a ocorrência de acidentes à luz da Psicanálise. Para essa questão encontram-se conceitos como: pulsão de morte e de compulsão à repetição.

A pulsão de morte é um conceito introduzido por Freud em 1920, na sua obra Além do Princípio do Prazer. Trata-se de um dos conceitos mais discutidos da teoria psicanalítica. Sob esta reflexão, é possível analisar que há um longo caminho a ser percorrido em direção a uma mudança de mentalidade que contemple o olhar que envolve a singularidade humana. Além disso, está em evidência uma correlação entre os níveis de raiva dirigidos a si próprio e as variáveis idades do sujeito – é uma fúria sádica contra ele mesmo. O desejo de viver perigosamente é sem dúvida uma droga potente. A pulsão impõe à repetição que é produto da pulsão de morte que fixa o sujeito em seus pontos de gozo. Mas, isso requer aprofundamento da questão pulsional, para que tenhamos uma melhor compreensão da repetição do sujeito. Pode-se dizer que essa repetição se mostra bastante intrigante, sendo imprescindível estarmos atentos as especificidades para que possamos ouvir suas vicissitudes em cada sujeito.

“Uma pulsão é um impulso, inerente à vida orgânica, a restaurar um estado anterior de coisas, impulso que a entidade viva foi obrigada a abandonar sob pressão de forças perturbadoras externas” – Freud

“O desejo por ser peculiar ao sujeito é por excelência narcisista, podendo desencadear na extensão do pensamento e da consciência representantes egocêntricos. Da mesma forma, que o sonho é do sonhador, o desejo é do desejante. Afinal, o sonho seria, então, a realização alucinada de um desejo? E o trânsito não seria, então, a realização veloz desse desejo?”

Existe um enigma que não se explica após o fim do sujeito, pois, sabemos que o mesmo, não estará presente para ser posto em análise. A morte dá condição para existência do enigma.

CONCLUSÃO:

O que se observa à luz da psicanálise é uma impossibilidade de que estes jovens motoristas exibam comportamentos seguros no trânsito. Suas vivências no trânsito foram geralmente prazerosas, eles agiram pelo princípio do prazer, uma atuação praticamente soberana do Id. Eles não estão de fato interpelados (castrados) por uma lei, por algo que represente uma impossibilidade do prazer incondicional e imediato. Por isso, os desejos e a compulsão a repetição são privilegiados sempre.

Por fim, o desconhecimento da sociedade frente às mazelas invisíveis motivadas pela angústia – acomodam os familiares das vítimas de trânsito (direta ou indiretamente) a não buscarem apoio psicológico como também, de não perceberem as consequências que os acidentes podem produzir para além das sequelas físicas. Finalizamos com a pergunta inicial do título deste artigo: “Acidente Automobilístico: Suicídio Inconsciente ou Ironia do Destino?” Estas breves linhas não encerram o assunto, ao contrário, permitem estimulá-los. Que possam os leitores refletir e opinar.

 

REFERÊNCIAS:

Freud, S. (1920). Além do princípio do prazer. Obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago

Código de Trânsito Brasileiro (C.T.B.). Lei 9.503, de 23/09/97.

Organização Mundial da Saúde (2003). Epidemias mundiales desatendidas: tres amenazas crecientes. Informe sobre la salud en el mundo 2003 – forjemos el futuro. Disponível em www.who.org.

Psic: Revista da Vetor Editora
versão impressa ISSN 1676-7314
Psic v.8 n.1 São Paulo