Artigo publicado em 09 maio 2013 | Este artigo tem 5 Comentários

Psicanalista nega distinção entre vida real e virtual. Luzziane Soprani.

As relações afetivas construídas na internet e a forma como nos mostramos nas redes sociais não são nada virtuais. Ao contrário, são muito reais. Psicanalista que figura entre os mais famosos no Brasil, Contardo Calligaris vai contra discursos que diferenciam relacionamentos ou atitudes na rede dos realizados no mundo “físico”. Para ele, amizades ou romances mantidos na web valem o mesmo que os mantidos fora dela. E comportamentos muitas vezes exóticos assumidos virtualmente são só o reflexo de características já existentes no indivíduo. O espetáculo “O Homem da Tarja Preta” – retrata um homem casado e pai de duas filhas que, na madrugada, assume o papel de travesti em chats.

Calligaris diz que é sintoma da web hoje. “Esse foi um dos grandes efeitos civilizatórios da rede. Antes dela, um cara que tivesse uma fantasia desse tipo se sentiria um monstro que precisava de tratamento, pois julgava que só ele tinha isso. E mudou. Na internet, descobre que milhares de pessoas vivem as mesmas fantasias que ele, vê que não está só.”

Diz o psicanalista que isso não é somente para fantasias sexuais. Vale para colecionadores de relógios antigos, quem gosta de botões, enfim, tudo o que pode fascinar um indivíduo e que ele deixa escondido por medo de não ser aceito.

É justamente aí que entra a questão de o personagem no mundo virtual não ser um personagem, mas o mesmo indivíduo do mundo real.

Para Calligaris, o homem que se oferece na web como travesti para machões, na verdade, é tão real como o homem que é casado e pai de dois filhos. “Acontece que ninguém se mostra por inteiro para ninguém. Todo mundo tem diferentes facetas para certos momentos. Mesmo as esposas não sabem tudo de seus maridos”, diz ele, depois usando o repórter como exemplo: “Você entrou aqui, se apresentou como Rodrigo, vi que tinha barba, cabelo estilo anos 60, mas não sei da sua vida, se pratica sexo no Ibirapuera à noite, por exemplo.”

É para essas coisas que se escondem na personalidade, que a web entra de forma libertária, quando o sujeito encontra outras pessoas que compartilham traços. Nos e-mails que o psicanalista recebe pela sua coluna, por exemplo, Calligaris diz que alguns trazem ofensas, até com palavras de baixo calão. “Pessoalmente, o sujeito não diria isso. Mas na web se sente à vontade, pois já está acostumado com o espírito.”

A mesma coisa pode ser notada nas celebridades que surgem na rede mundial, como a maior-cantora, Susan Boyle, que apareceu em um programa de calouros do Reino Unido e recebeu milhões de visitas no YouTube. “Na rede, as pessoas colocam facetas que esconderiam. É o melhor lugar para mostrar o seu talento. Se não der em nada, não deu.”

Da mesma forma como as ações, as relações que nascem na rede não são virtuais, defende. Mesmo com o mito de que se mente mais na rede quando se quer conhecer um parceiro ou amigos, o psicanalista defende que o comportamento é o mesmo do mundo real. “Quando se conhece alguém no mundo físico, é como um baile de máscaras. Você nunca sabe tudo. Mesmo fisicamente, as pessoas fazem cirurgias plásticas.”

Para ele, o jogo de esconde e mostra da internet – tanto na personalidade como fisicamente – faz parte da “parte lúdica”. “Há casais que se conhecem na web e se casam. E outras pessoas que não se conhecem fisicamente, mas mantém uma relação muito real. Não há distinção entre real e virtual.”

Contardo Calligaris é italiano radicado no Brasil: além de psicanalista, é escritor, colunista da “Folha de S. Paulo” e agora dramaturgo. E assina o texto do espetáculo “O Homem da Tarja Preta”.

Fonte: Por Rodrigo Martins.

São Paulo, 06 (AE).

Concordo com o psicanalista Contardo Calligaris. Concluo que relacionamentos virtuais podem dar certo. Da mesma forma que relacionamentos “reais” podem dar errado. Não existe uma fórmula secreta e/ou uma cartilha a ser seguida, se fosse assim, os livros – Best Sellers nos trariam fórmulas mágicas e estaríamos a salvos! Fato é que, devemos tomar cuidado sempre e observar muito antes de qualquer acontecimento, sendo real ou virtual. Não raro, se ficarmos ligados o virtual entrega até mais que o real. Existem inúmeros casos de relacionamentos pela internet que deram certo. Tem muita gente que consegue transformar esses encontros virtuais em namoros reais e até em casamentos. Enfim, não há uma regra, mas sempre devemos ter muito cuidado sendo o relacionamento real ou virtual. Mas que fique claro, nada é tão seguro, enquanto cérebros vivos.Psicanalista nega distinção entre vida real e virtual.

 

Artigo publicado em 02 maio 2013 | Este artigo tem 5 Comentários

O Luto. A finitude do contato físico.

“Toda perda grave gera um luto: A perda é uma das situações mais traumáticas da vida de um ser humano. O luto é a perda de pessoas próximas ou de situações que têm uma relação de vínculo conosco; há uma grande carga energética vinculada. É um processo de elaboração para que essa ferida sare. É muito importante a pessoa realizar que de fato a perda ocorreu”. (KOVÁCS, 1998).

INTRODUÇÃO:

O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o País, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem melancolia em vez de luto; por conseguinte, suspeitamos de que essas pessoas possuem uma disposição patológica. Também vale a pena notar que, embora o luto envolva graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para com a vida, jamais nos ocorre considerá-lo como sendo uma condição patológica e submetê-lo a tratamento médico. Confiamos em que seja superado após certo lapso de tempo, e julgamos inútil ou mesmo prejudicial qualquer interferência em relação a ele.

DA PERDA AO LUTO:

O luto é um movimento de afastamento forçado e doloroso de quem tanto amamos que não existe mais. Somos obrigados a nos destacar dentro de nós, do ser amado que perdemos. Seria como identificar-se (ficar com) com o melhor do objeto perdido dentro de nós e enterrar o resto.
Freud sustenta que a imagem do objeto perdido é a sua “sombra”, que cai sobre o eu e encobre uma parte dele. A dor é uma reação. E ante o transtorno pulsional introduzido pela perda do objeto amado, o eu se ergue: apela a todas as suas forças vivas. Mesmo com o risco de esgotar-se. E as concentra num único ponto, o da representação psíquica do amado perdido.

A DOR DA AUSÊNCIA:

A dor ocorre cada vez que acontece um deslocamento maciço e súbito de energia. Assim, o desinvestimento do eu dói, e o desinvestimento da imagem também dói, o que dói não é perder o ser amado, mas continuar a amá-lo mais que nunca, mesmo sabendo-o irremediavelmente perdido. Contudo, é necessário separar-se do ente querido, ou seja, da parte física, e isso é possível com o processo do luto. O luto é um longo caminho que começa com a dor viva da perda de um ser querido e declina com a aceitação serena da realidade, da perda e do caráter definitivo da sua ausência. Durante esse processo, a dor aparece sob forma de acessos isolados de pesar. “O luto é desfazer lentamente, o que se coagulara precipitadamente”.
Buscaremos avançar nesse ponto, reiterando a questão do processo de luto para a compreensão desse problema. Costumamos ouvir de pessoas próximas, que, com tempo aceitamos à morte, mas a bem da verdade, não há aceitação da morte, muito embora tenhamos que conviver com a ausência do ente querido. Mas para que isso aconteça é necessário fazer o processo do luto. Nesse aspecto, o processo do luto é de grande relevância. A negação da ruptura contínua é o pior mecanismo de defesa. A maneira mais justa nesse aspecto é elaborar o luto, para que se possa dar continuidade à missão de quem fica.
Segundo Fernando Ulloa, luto congelado é um luto diferido, adiado, que pode ser mantido por muitos anos e se caracteriza quando é trabalhado na psicoterapia. O luto em processo de negação é uma espécie de estagnação, de sofrimento congelado.
Freud disse que o luto é um retirado do investimento afetivo da representação psíquica do objeto amado e perdido. O luto é um processo de desamor, é um trabalho de luta, detalhado e doloroso. Podem durar dias, semanas e até meses, ou ainda toda uma vida…

A CONSCIÊNCIA DA FINITUDE:

Quanto mais deixamos a morte de lado, mais ela se aproxima. Quanto mais nos dedicarmos a diminuir nosso egoísmo, mais descobrimos que não só teremos menos medo de morrer como também teremos menos medo de viver.
Atualmente, o mundo vem sendo marcado por diversas perdas, são dezenas de pessoas que morrem em sinistros desastres, personalidades e familiares acometidos de doenças que nos deixam todos os dias. Nesse aspecto, ao analisar esse panorama que se configura em nossas vidas – devemos levar em consideração a necessidade de trabalharmos nossas crenças, filosofias e sentimentos, já que eles são inerentes a qualquer ser humano. Em diversas situações, o aspecto emocional prevalece ao racional. Entendemos que não há como negar nossos sentimentos nos momentos de contato com a morte, embora seja possível evoluir em sentimentos e emoções, por mais difícil que seja.

CONCLUSÃO:

Nunca estamos tão mal protegidos contra o sofrimento como quando amamos, nunca estamos tão irremediavelmente infelizes como quando perdemos a pessoa amada. Assim, o amado me protege contra a dor enquanto seu ser palpita em sincronia com os batimentos dos meus sentidos. Mas basta que ele morra bruscamente para que eu sofra como nunca.

REFERÊNCIAS:

Sigmund Freud, LUTO E MELANCOLIA – Editora: Cosac Naify , 2012. Marilene Carone

Material de EFAPO/CEBRAFAPO. Freud, S., Obras Completas

Nasio, Juan-David, O Livro da Dor e do Amor, J. Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1997. M. Ramirez

Kóvacs, M. J. (2003a). Educação para morte: temas e reflexões. São Paulo: Fapesp; Casa do Psicólogo.

Artigo publicado em 25 abr 2013 | Este artigo tem 1 Comentário

Terapia Psicanalitica

TERAPIA VIRTUAL.

Muitas pessoas ainda não conhecem, ou ainda, nunca ouviram falar, pois é uma novidade que chegou para ajudar. A terapia virtual é uma orientação psicológica online, ou seja, via Internet, que tem o mesmo propósito da terapia no consultório. A pessoa conversa ao vivo com o psicanalista, psicólogo ou psicoterapeuta, através de conversas digitadas, via Skype e outras ferramentas utilizadas na internet. Por exemplo, existem opções de voz onde a pessoa conversa ao vivo com o psicanalista, psicólogo ou psicoterapeuta – através do áudio e também através de Webcam – a pessoa pode conversar com chat e voz ao mesmo tempo, e ao vivo. O Diferencial é que o analisado pode ter um atendimento de qualquer parte do mundo em que se encontrar.  Não precisará se ausentar da terapia, devido aos compromissos relacionados ao trabalho, viagens e afins.

NA ARGENTINA.

Ao menos 35% dos psicanalistas de Buenos Aires já atendem via Skype ou chat clientes do país com mais psicólogos per capita.

Abrir mão da terapia é um sacrifício que muitos argentinos não estão dispostos a fazer. No país que ocupa o primeiro lugar na Organização Mundial da Saúde (OMS) em número de psicólogos por habitantes – 106 profissionais para cada 100 mil pessoas – a psicanálise faz parte da rotina semanal de milhões de pessoas que, nos últimos anos, começaram a usar novas tecnologias como única alternativa para continuar um tratamento. Após a crise econômica de 2001, alguns pacientes tiveram de rumar para o exílio e precisaram, mais do que nunca, de um acompanhamento terapêutico; outros moram longe dos consultórios e não têm tempo de enfrentar o trânsito cada vez mais infernal da capital Argentina. A lista de obstáculos é grande e levou muitos psicanalistas a flexibilizarem sua metodologia, incluindo uma opção ainda questionada por alguns de seus colegas: a terapia online.

Atualmente, a Associação Psicanalítica de Buenos Aires (APdeBA) estima que 35% de seus membros já se renderam aos encantos da consulta virtual, utilizando programas como Skype, ou algum outro sistema de ligação via computador ou até mesmo de chat.

— Comecei a fazer consultas via Skype há dez anos, e os resultados foram muito bons – conta Adriana Guraieb, que pertence à Associação Psicanalítica Argentina (APA), uma das pioneiras em terapias online.

CONSTANTE MONTANHA RUSSA.

Muitos de seus pacientes abandonaram o país durante os difíceis momentos em que a economia despencava e a taxa de desemprego alcançava mais de 20%.

— Foram tempos terríveis para todos, e contar com a ajuda profissional de um compatriota foi fundamental para muitos exilados – diz Adriana.

Hoje, cerca de 50% de seus pacientes fazem o tratamento online. São pessoas que cuidam de pais idosos, têm filhos pequenos ou estão passando por crises agudas de depressão e ataques de pânico, por exemplo. Quando surge um impedimento maior, Adriana e outros analistas argentinos não hesitam em oferecer um sistema que permita a continuidade do trabalho psicanalítico.

— Viver na Argentina não é fácil, estamos sempre numa montanha russa. Por isso os argentinos precisam tanto dos terapeutas, e por isso somos cada vez mais. Vivemos em constante tensão – afirma Adriana.

— As terapias online são muito interessantes e necessárias num país como o nosso – afirma o psicanalista Miguel Espeche, que também atende pacientes pelo computador.

Segundo ele, o resultado desse tipo de tratamento é surpreendente.

— Conversei com muitos colegas e todos concordamos em afirmar que está dando certo – assegura Espeche.

Ele lembrou que os analistas não foram treinados para realizar este tipo de trabalho, mas estão aprendendo e evoluindo com a prática. Outros profissionais como Adriana Martínez, da Fundação Buenos Aires, são mais cautelosos. Segundo ela, “é importante poder ter sempre um caminho alternativo de contato entre o terapeuta e o paciente”.

CRESCIMENTO TAMBÉM FORA DA REDE.

Os consultórios psicológicos continuam se multiplicando em bairros portenhos como Recoleta, Palermo e Belgrano. As faculdades de psicologia têm cada vez mais alunos e hoje, diferentemente de outros momentos, como durante a última ditadura (1976-1983), quando centenas de profissionais foram obrigados a exilar-se, a maioria exerce sua profissão no país. O fenômeno social continua crescendo, mas também adquirindo novos contornos para adaptar-se à realidade dos pacientes. Para muitos argentinos, como Cecilia Bonel, que trabalha a cem quilômetros da capital, ter uma consulta presencial é uma verdadeira missão impossível. Há três anos, ela optou pela terapia online.

— O tempo que perdemos para nos locomovermos causa ainda mais estresse – disse Cecilia. Para ela, se o paciente está realmente comprometido com o tratamento, “a terapia virtual é bastante positiva”.

Psicanálise virtual.

Fonte:  O GLOBO MUNDO.

 

Artigo publicado em 22 abr 2013 | Este artigo tem 4 Comentários

O relacionamento da histérica com o obsessivo.

“É a verdade do que esse desejo foi em sua história que o sujeito grita através de seu sintoma.” (Jacques Lacan, Escritos)

INTRODUÇÃO:

A apresentação deste artigo tem como objetivo abordar a Histeria versus Obsessão. Indicando que a psicanálise e a psicoterapia psicanalítica são abordagens terapêuticas eficazes nessas categorias diagnosticadas.

Para a psicanálise, há três Estruturas Clínicas: Neurose, Psicose e Perversão. Entretanto, a psiquiatria não utiliza a nomenclatura Perversão, mas, sim, Psicopatia, muito embora tenha o mesmo significado, quando abordamos essa estrutura clínica. No entanto, o presente artigo busca elucidar de forma concisa a estrutura Neurótica, que ficará restrita aos dois principais tipos clínicos de neurose: Obsessão e Histeria.

DA HISTERIA X OBSESSÃO:

 “Há quem diga que as pessoas, na verdade, não encontram “o parceiro”, e sim a neurose que as completa”.

“Segundo o psicanalista e psiquiatra, Jorge Forbes: É fato corriqueiro que neuroses se atraem. O mais conhecido é o par mulher-histérica, homem-obssessivo. Ela o alimenta com a sua eterna insatisfação, ele lhe responde com a onipotência servil que ela adora, pois dá nova chance dela reclamar que não é ainda bem isso o que ela queria, o que faz que ele tente uma nova resposta, e assim por diante, até que a morte os separe, ou um deles se trate”.

Com base nesse ponto de vista, o relacionamento da histérica com o obsessivo reproduz o encaixe do parafuso com a porca, que traz a confiança da existência na intensidade entre os sexos, na complementação de um pelo outro. Eis aí o apelo imaginário que sustenta a união, mas eis aí, também, o logro que faz a tormenta do casal. “O domínio de tapar do obsessivo só tem semelhança na angústia de esburacar da histérica.”

Como o obsessivo trata a histérica? O ser da histérica é atraído pela paixão à figura do Mestre, pela paixão e admiração ao seu conhecimento. O sujeito histérico é o objeto perfeito para o sujeito obsessivo. Existe nessa parceria um conluio inconsciente entre o histérico e o obsessivo.

E como a histérica seduz o obsessivo? O ser da histérica é como a abelha rainha que faz seu voo nupcial com zangão e depois mata-o. Sua intenção num primeiro momento, é a de reconhecê-lo, mas, num segundo momento, é a de destituí-lo e/ou destruí-lo ao apontar-lhe a falta. Por exemplo, é como à mulher debochada que “prova” ao seu marido que ele não consegue amá-la da forma como ela deseja.

“O sujeito da obsessão, por seu turno, visa de imediato à destruição do outro na constituição de seu desejo. Trata-se de uma destruição articulada no nível do significante. Isso num primeiro momento. O problema é que a destruição do outro, nesses termos, resulta na destruição do próprio sujeito, pois se trata do sujeito da fala. Como consequência, o obsessivo, num segundo momento, visa à restauração amorosa do outro. O que era ódio se converte em servidão. Tudo para o outro. Na tentativa de reparar o dano causado” (Teixeira, 2010, p. 51-61).

DO DESAFIO ENTRE HISTÉRICA X OBSESSIVO:

Por isso, a histérica e o obsessivo estão sempre em constante conflito. Razão pela qual o relacionamento da histérica com o obsessivo poderá continuar para sempre até que a morte os separe, mas, em contrapartida, tem tudo para acabar pelos intensos e destrutivos conflitos. Muito embora, esse final não seja objetivo é por conseguinte subjetivo. Não temos como prognosticar.

E qual é a posição da histérica? Basicamente, ela se apresenta como a toda poderosa, sedutora, encantadora, instigante, manipuladora, provocativa sexualmente. Entretanto, existe algo de particular nessa oferta; ela retrocede, ou se retira, quando o conquistador se aproxima. Ela se põe como objeto que se furta de um compromisso.

Mas, essa estrutura, é bem conhecida pela a forma segundo a qual a histérica tem desejo de desejo insatisfeito. Satisfazer o desejo é destruir o desejo; sendo assim, insatisfazê-lo é elevá-lo à sua plenitude. Nada de gozo. A histérica não quer gozar. De forma mais clara, a histérica não quer realizar. A histérica seduz, mas não realiza. Deixando o obsessivo sempre a correr atrás daquilo que quem sabe poderá um dia preencher a sua insatisfação. Nesse aspecto, obsessivo e histérico não encontram o caminho certo para que ambos se entendam. Aliás, entre essas duas estruturas isso é praticamente impossível.

Eis a questão, se o obsessivo anula a histérica – ele destitui o parceiro  como sujeito, ele o reduz à condição de objeto – objeto de seu gozo. A histérica ocupa a posição de objeto com prontidão, nesse aspecto, ela favorece a parceria amorosa com o obsessivo. Por outro lado, o encontro do desejo impossível de um com o desejo insatisfeito do outro é um embaraço previsto dos seus constantes conflitos, porém, instigante e sedutor.

E qual a posição subjetiva do obsessivo em relação à questão do desejo? Para ele, o objeto de desejo é ilusóriamente sustentado pela proibição do outro, ou seja, da histérica. O suplício do obsessivo, então, é este: o desejo desaparece quando o objeto a ele se entrega. De forma mais clara, o obsessivo deseja a conquista, isso o instiga, mas quando ele conquista, corre o risco de perder o desejo, ou vai atrás de algo mais desafiante.
Eis o porquê, a histérica e o obsessivo mantém uma relação de desafios. O desafio os instiga a manter o jogo da conquista.

“Existem pessoas que se deixam atrair tanto pelas qualidades quanto pelos defeitos das outras. E existem pessoas que se deixam atrair mais pelos defeitos. Trazem algo dentro de si, inconscientemente, ou, às vezes consciente, mas por seus dilemas não conseguem “corrigir” a causa, desencadeando nos sintomas”.

CONCLUSÃO:

Segundo o psicanalista Jorge Forbes, “O defeito também é sedutor, atração não segue regra de bom senso algum. Os exemplos são inúmeros, desde os mais banais, da mulher-enfermeira, sempre correndo atrás de um homem problemático que ela vai salvar; ou do homem-professor que quer ensinar a fineza da vida à mulher debochada, como em My Fair Lady. A relação dura enquanto houver o defeito, por isso que muitos namorados ou namoradas não querem que seus parceiros façam análise: têm medo de perde-los”.

Concluímos que a parceria amorosa da histérica com o obsessivo é de tal ordem que os aspectos determinantes da aproximação são exatamente os mesmos que desnorteiam o relacionamento. Dizer que tem tudo para dar certo é tão oriundo como afirmar que tem tudo para dar errado. Mais uma vez, não há regras, não há garantias e não há como se guiar por valores universais. As estruturas e os tipos clínicos são generalizações, são abordagens universalizadoras. Numa experiência psicanalítica, cada parceria, cada sujeito terá uma história e um desfecho que serão da ordem da singularidade, e não há estatística possível quando o caso é singular.

 

Referências

LACAN, J. (1985). O Seminário: livro 3: as psicoses. (1955-1956). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Soler, C. (1993). Fines del analisis. Historia y teoria. In: Finales de Analisis. (p. 29). Buenos Aires: Manantial

Teixeira, A. M. R. (2010, janeiro/julho). As bodas sintomáticas do obsessivo com a histérica. In: Agora: estudos em Teoria Psicanalítica, 13 (1), 51-61

Forbes, Jorge – Conferências. In: Você quer o que deseja?, São Paulo: Editora Best Seller, 2003, p. 63-107

Francisco Paes Barreto – A Direção do Tratamento da Histérica e do Obsessivo

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