Artigo publicado em 08 ago 2013 | Este artigo tem 2 Comentários

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“A verdade não é outra coisa senão o que o saber só pode aprender que sabe ao pôr em ação sua ignorância.” (Escritos, Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano p.812). 

Existem pessoas que se apaixonam pela experiência proporcionada pela paixão. Dessa maneira, acaba vendo no outro apenas um espelho refletido de suas expectativas.

Qual a necessidade de se ter uma paixão? Talvez seja o pensamento que mais seja questionado nesses tempos contemporâneos

A resposta mais sensata pode ser: ter um amante para nos fazer companhia, bem como: dividir projetos, sonhos, alegrias, angústias, tristezas, e também receber e dar afeto, cuidados e proteção.

A partir desse ponto de vista, os amantes seriam bons companheiros e o sucesso da união dependeria dos adjetivos em comum de cada um e não das diferenças entre os parceiros.

A paixão pode até acontecer no início do relacionamento, mas na convivência do dia a dia ele deve evoluir. Para uma convivência duradoura demanda – calma e sensatez – os amantes devem navegar em mares serenos e seguros para que possam descobrir o amor de uma vida a dois.

A experiência subjetiva da paixão retira a pessoa dos paradigmas em que ela se encontra e a coloca em uma nova maneira de ser e ver o mundo a sua volta. A paixão marca a personalidade naquele momento e dá uma vitalidade incomum de disponibilidade e encantamento. Todas as áreas da vida de um momento para o outro passam a ser avaliada como muito positiva. O mundo do apaixonado passa a ser visto de forma colorida, preenchendo a alma dos amantes, como se refletisse a imagem de um EU em estado de plenitude, magia, meiguice, sensualidade, força e muita disposição para viver.

Mas vale questionar: “Qual é o lugar que se encontra o objeto desejado, nesse enredo?” O outro é quem instiga o movimento desse amor, ou, àquele que incita/estimula o desejo de amar. Mas, às vezes, essa resposta é tão forte que transcende. A pessoa entra em uma dimensão avassaladora pela experiência da paixão que já não tem mais contato humano e real com o objeto do seu amor, ou seja, aquele que o coloca, supostamente, nesse estado.

A paixão pode ser um sentimento perigoso e enganador, uma patologia que afeta corações inocentes e traz consequências destruidoras: o caminho de uma paixão possessiva é a frustração, o arrependimento e a infelicidade.

Quando a paixão enfeitiça o sujeito, implica dizer: que somos incompletos, porque na realidade somos seres incompletos em estado de continua evolução. Estar apaixonado é estar em um mundo de incertezas e, por isto, muitos se assustam perante a paixão. Diante das frustrações as pessoas recorrem, então, a estratégias para se ver livres deste incômodo.

Deveríamos compreender que o que idealizamos do outro é uma ficção e que a ficção escapa o mundo real. Os mistérios da paixão demandam uma contínua invenção. O desconhecido instiga, seduz, intriga, entusiasma, fascina o sujeito, embora possa estigmatizá-lo. Mas um bom começo para se perceber o outro como uma imagem sem possibilidade de frustração é perceber a si próprio como definitivamente incompleto. Desta forma, podemos conviver com nosso amante, ouvir juras de amor e ainda assim manter o desejo – descobrindo no dia a dia que a verdadeira convivência de parceria, companheirismo e o mais importante

Quando a situação é favorável, quem ama se sente preenchido pelo que tem de melhor. Justamente em razão disso, corre um sério risco: o de se apaixonar perdendo de vista àquele que crê amar. Nesses casos, a pessoa – ama/amar – mas nem sempre o parceiro se beneficia desse amor.

Por fim, fixe seus pés no chão, olhe para dentro de si e se conheça. Admita suas imperfeições. Para poder conviver com o outro, entenda que não existe no mundo alguém que seja sua imagem e semelhança refletida, portanto, não vale à pena perder tempo tentando encontrar a cara metade. O amor é muito mais que isso, o amor é viver com os cinco sentidos da alma, é compreender, é confiar e, principalmente, sentir que a divindade habita dentro de nós.

 

 

 

 

 

Artigo publicado em 30 jul 2013 | Este artigo tem 2 Comentários

O amor não é inerte 8
“O desejo reproduz a relação do sujeito com o objeto perdido.”
Jacques Lacan.

Existe um contingente de pessoas que acreditam ter poder para mudar o outro. As pessoas ainda hoje, têm a capacidade de achar que são donos da PERSONALIDADE do outro. Começam um relacionamento e adentram a vida do parceiro, dissimulando que certos traços da personalidade do parceiro existem, por acaso, mas que com certeza essas características se transformarão quando o cupido do amor flechar o coração e cantar sua canção para o casal apaixonado. Quase como se o parceiro fosse uma espécie de massa inerte, com a qual pudéssemos moldar as imperfeições que tanto nos incomodam.

Acredite essa magia não vai se concretizar. O amor não é inerte.
Um dos maiores conflitos que acontecem nas mentes carentes e medrosas é a condição em que as pessoas ficam tão desatinadas para encontrar um parceiro que basta “alguém” as escolher para que se sintam imediatamente agradecidas por serem salvas dessa solidão. E, assim, nunca escolhem. Apenas são escolhidas. A fera vira bela, vira príncipe/princesa imediatamente!

O tempo vai passando e o outro não muda. As diferenças começam a importunar. Logo, ambos estão desesperadamente tentando mudar um ao outro, como se essa fosse à saída para o relacionamento funcionar. Geralmente, nesse processo de querer mudar o parceiro um se torna o carrasco. Desencadeando em frustração e dor ao se deparar com a dura verdade: o outro simplesmente não vai mudar.

O outro não vai dar mais do que pode só porque você deseja.
Logo vem à mente do escolhido: sou doce, gentil, educado (a), carinhoso (a), sei o que desejo, mas não consegui mudar o que era “imperfeito”.
Por isso, fica evidente a importância da escolha, de uma escolha consciente.

Devaneio é o que ocorre em muitos relacionamentos. Casais que passam anos em conflitos para transformar sapo em príncipe/princesa. Perdendo um tempo precioso que não volta atrás, em busca dos culpados. A culpa não é do outro. Um sapo tem todo o direito de ser sapo, ora!

É preciso ter objetivo no que se busca – aprender a ter mais paciência e consciência em suas escolhas – e parar de agir com euforia por medo dessa tal solidão.

Artigo publicado em 24 jul 2013 | Este artigo tem 7 Comentários

Canalha

Nós nos achamos sujeitos formidáveis, mas realmente o ser humano só se salva quando chega a conhecer a própria hedionez. É isso que eu procuro quando escrevo: reconhecer a hedionez do ser humano. Para que se desenvolva nele uma série de competências psicológicas e sentimentais que fiquem trabalhando, elaborando dentro do leitor um processo.

(Nelson Rodrigues, Pouco amor não é amor, 2002).

O canalha é o intérprete parasita, o magistrado da fala alheia, o patrão das enunciações, especialista na gestão da impostura e na arte de colocar sua própria enunciação como Outro do Outro. Não é possível dizer a verdade sobre o Real porque neste caso teríamos que estabelecer uma correspondência biunívoca entre a linguagem (dizer) e o mundo (real), bem como localizar um sujeito fora do mundo, lugar de onde ele poderia enunciar a verdade da relação entre o que se diz e o que é.

O canalha é o perverso do amor. Inspira confiança e expira mentiras. O cinismo do canalha introjeta no outro esse poder de sedução e atração fatal. A presa do canalha sempre acha que pode fazer com que ele mude de postura. Devaneio, pois a pessoa apaixonada não consegue encontrar o antídoto para o canalha que é o desprezo. Ele dissimula que não é um canalha/cínico. Esse perfil atua como: o bom homem, carente, atencioso, apaixonado e infeliz. Senão infeliz no aqui e agora, mas na nostalgia do passado. Ele age por instinto, não sabe ser de outra maneira. A sedução faz parte da sua sobrevivência emocional. Ele é um lobo – o outro o cordeiro.

Amigos, cada obra de arte devia trazer a seguinte advertência da censura: – “Imprópria para os canalhas de todas as idades”. Nelson Rodrigues.

O canalha não necessariamente, tem uma beleza atrativa, mas tem um poder de sedução-cinismo que desafia e descontrola corações.

O canalha ardilosamente seduz – e a presa do canalha se encanta – para depois odiar. Ele tem uma imensa falta de escrúpulos. O canalha/perverso não nega a sua ação, mas se considera isento no que tange às consequências. Ele não se sente responsável e nessa conduta chega a se justificar.

Por fim, o canalha é um cínico deslavado. A sua forma de viver funciona como uma agressão. Uma agressão afetuosa. Uma provocação.

Artigo publicado em 17 jul 2013 | Este artigo tem 4 Comentários

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“O gozo fálico é o obstáculo pelo qual o homem não chega, eu diria, a gozar do corpo da mulher, precisamente porque o de que ele goza é do gozo do órgão.” (1972-73, p. 15) Lacan.

A globalização estabeleceu valores, até então intocáveis. Chegou com uma mudança brusca, dos novos padrões a serem seguidos todos estão sujeitos a se igualarem, pois antes só os adolescentes faziam suas proezas que é inerente a sua condição: o imediatismo, pois esses estão em um mundo a ser descoberto – sujeitos em formação que no seu desenvolvimento afetivo/sexual, não namoram, mas saem ficando.

Ficar: termo ambíguo que é usado não no sentido de permanecer.  Mas é a maneira superficial e breve dos jovens se relacionarem.

E os adultos? O que levou os indivíduos adultos, maduros cronologicamente agirem de ponta-cabeça?

O mundo virtual disponibilizou o poder. E ter poder é estar em uma posição superior – é uma vantagem que todos nós desejamos, pois dá uma sensação de segurança inatingível – de que se pode impor o próprio jeito de ser. E nesse jogo ninguém quer perder. Por isso, algumas pessoas reprimem o impulso de procurar o parceiro. Não querem ficar “por baixo”. Pensamentos como “eu não vou procurar.” Afinal, a virtualidade os faz acreditar nas tantas opções, que faz parte dessa síndrome de poder imaginário. Muitas vezes uma relação auspiciosa não vai à frente em função dessa espécie de orgulho e competição que não leva a lugar nenhum.

É através do vínculo que todos os seres se comunicam, mas se a mesma está dissociada – existem duas formas de proceder: a conquista tem o potencial para o amor, enquanto que “Ficar” é pura estimulação da libido que encerra no descartável. Conquistar, enamorar são formas de manifestar a individualidade e de realizar a subjetividade, capaz de superar obstáculos. A natureza erótica não ama sempre, e nem a todos, mas na medida em que o faz inteiramente, consuma o sentido da vida.

O amor só tem sentido se recíproco; enquanto que a paixão pode nos colocar em um delírio paranoico. A depreciação cultural dos afetos faz o homem contemporâneo se perder dos sentimentos bem-intencionados e se tornar fútil, a ponto de partir para conquistas a partir da posição em que se encontra com a virtualização exposta – as vitrines virtuais.

O desejo amoroso não tem nada a ver com a bestialidade ou com problema dos desejos instintivos e vazios, e o amor não é um paradoxo à autonomia, do contrário é preciso dispor de autonomia para amar. E no oposto do amor está à paixão, que se caracteriza pelo exagero, entusiasmo, admiração e obsessão, enquanto que o amor mantém as referências, preserva limites e medidas da realidade. A ideologia aversiva ao amor contempla esta liquidez do vazio regida pelo imperativo do gozo.

Na obra de Zygmund Bauman: “Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos” – destacam comportamentos do nosso dia a dia, do que há de mais concreto na vida do homem moderno com suas relações de amor: seus acessórios tecnológicos – que alimenta a crença de um mundo melhor e tranquilo –, a crença no amor como oásis em um mundo trágico e violento, as relações como uma rede computacional, a imprevisibilidade das relações, a queda da distinção entre o regular e o contingente, a traição, os relacionamentos de bolso – que podem ser usados quando as partes bem entenderem. (…)

A relação ideal ocorre a partir do companheirismo, da compreensão, do respeito, da lealdade e do amor próprio; pois para sentirmos amor pelo o outro, é preciso sentir o amor em si mesmo. Ou seja, quando conhecemos e sentimos amor por nós; mas nunca usando para estabelecer uma relação de superioridade ou inferioridade. Só assim, o verdadeiro relacionamento acontece, pois  é necessário fazermos concessões, cada um doando um pouco de si, em busca do verdadeiro amor.

 

 

Referência:

Livro: Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos.

Autor:  Zygmund Bauman.