Artigo publicado em 26 nov 2013 | Este artigo tem 7 Comentários

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“Tentamos achar nas coisas, que por isso nos são preciosas, o reflexo que nossa Alma projetou sobre elas.” Marcel Proust.

O consumismo desenfreado tem sido confundido com boa qualidade de vida. Uma química inigualável, que sobrecarrega mais que sustenta – esterilizando a flora natural da vida de qualquer um.

O consumidor da atualidade com a onipotência e a onipresença da mídia ditam o que se come, onde se divertir, o que se vestir, o que se ler, onde se deve viver e/ou morar. A mídia é aquilo que vemos e sentimos no dia a dia. É uma apelação psico-hipnótica às milhares de aparências, tons, aromas, imagens e sons que passam a ter mais poder que às palavras do nosso psiquismo. Em plena era da cultura do consumismo – o reforço diário e erotizante pode atrair cada vez mais à nossa vontade de possuir – erotizando nossos desejos. Nós podemos ser enganados por nosso próprio psiquismo. E isso, pode ser o cultivo das doenças psicossomáticas.

O consumo dá a nova ordem e a nova lei que eternizam o bem descartável, no seu tempo voraz… “Mas que seja infinito enquanto dure”, assim, diz o poeta Vinícius de Moraes.

O consumismo cria necessidades artificiais com tal força e apelo que há um esvaziamento, ou uma perversão do senso crítico, a ponto de que ao se possuir um objeto que não seja o último lançamento do momento, pode se enfrentar constrangimentos. Um exemplo comum, na atualidade são os celulares, pois é exibicionista de se ver que de um instante para outro, aparecem novos modelos, com opções das mais variadas, que, não se relacionam com sua finalidade básica. O novo aparelho é o que se vende, é o que está na moda, é o que se apresenta para garantir aceitação, haja vista é chic/glamouroso ter um desses. Enquanto não chega a nova tendência, ditada pelos interesses econômicos que tornam tudo substituível e superado para garantia de novos lucros.

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Na era globalizada tudo pode se tornar descartável e rápido demais em nossas vidas. Nem sempre podemos comprar, ter, desejar e até satisfazer-nos de todos os desejos/coisas. No entanto, algumas coisas são ilusoriamente nos dada gratuitamente: o “oferecimento” do prazer de ver e desejar em um primeiro momento – sendo que para a realização se têm um custo muitas vezes, além de nossa realidade de poder aquisitivo.

Ora, podemos Ser e Ter tudo que nos apresentam?

Tendo em vista que este estigma é possível – até ter um “ganho” ou um “aumento” hipnoticamente repetitivo – é como se existisse sutilmente uma técnica psico-hipnótica que nos instigue a ter uma alucinação, aumentando cada vez mais o desejo de possuir… O que pode fazer com que a neurose da “caixa preta” possa se desencadear.

Sendo assim, o acompanhamento terapêutico pode ser algumas das saídas para o sofrimento. É preciso a busca de equilíbrio para lidar com o sintoma do consumo, em que todos nós estamos inseridos. Nesse momento o psicanalista e o saber psicanalítico colocam-se como uma das opções na pós-modernidade – para desfazer a alienação do próprio desejo – que escraviza ao desejo do outro. Resta ao analista, analisando e a instituição o desafio de descobrir parceiros, como e por onde construir a alternativa da oportunidade, da elaboração psíquica, dos insigts, para os analisandos/pacientes que não podem consumir uma Psicanálise. Há um campo novo para esse saber na contemporaneidade, um campo que surgi de outras demandas com valores mais acessíveis, como o atendimento psicanalítico on-line, que muitos colegas ainda, denunciam como não produtivo a psique da era consumista.

Por fim, aliviar a pressão interna, alivia também o sintoma psicossomático. Mas, sobretudo, o acompanhamento terapêutico não deve ser desprezado. Reestruturar o prazer pela vida com o essencial para se viver, com a satisfação de Ser EU e não em Ter EU.

Artigo publicado em 28 out 2013 | Este artigo tem 3 Comentários

INTRODUÇÃO

Este artigo reporta a eterna insatisfação do ser humano. Não há bem que satisfaça a condição humana. Portanto, sabemos que, inegavelmente, as pessoas passarão a vida em busca da satisfação. 

“Lacan dizia que a única coisa da qual se pode ser culpado, pelo menos da perspectiva analítica, é de ter cedido do seu desejo (LACAN, 1991, p. 385). Mas que desejo é esse de que falava Lacan? Será o desejo sexual de que também falava Freud em nossos sonhos, mesmo de maneira camuflada?”

A beleza, por exemplo, está inteiramente ligada à sexualidade. Desde a teoria do recalque, Freud mostra que os humanos não acham belos seus órgãos sexuais, pois a excitação sexual se o põe à finitude e à delimitação da beleza. Por outro lado, sendo a Psicanálise a teoria sobre a sexualidade e o prazer, Freud se viu obrigado a refletir sobre o Belo determinado pelas “qualidades do sentir”, ocupando-se, assim, não apenas com o agradável e prazeroso, mas com o desagradável e aflitivo. Desde o chamado da clínica, Freud se viu levado, como nenhum outro pensador, a confrontar-se com o medo, com a repulsa e com o horror.

DO DESEJO

No desejo contemporâneo, estabeleceu-se uma norma de sucesso que inclui o Belo em seu aspecto imediato. A sociedade contemporânea com tecnologias de ponta e tantas outras ofertas, tem a intenção de evitar dores e desprazer, bem como o desagradável e o repulsivo de envelhecer. Assim, desencadeia-se uma psicopatologia de “ser proibido envelhecer”, considerado não apenas inútil, como nocivo.

Nessa arte de compor o Belo, no qual o corpo aparece cada vez mais insignificante e instável, coloca-se o Belo ao lado do prazeroso, e envelhecer é visto como o indesejável e eliminável. Daí os esforços sem medida para modificar os aspectos feios dos corpos e da aparência que vão se modificando ao longo dos anos.

Envelhecer com dignidade é o mínimo que podemos conceber… Atividades físicas, bem como o cuidado com a saúde física e mental faz parte de envelhecer saudável. Mas parece-nos que a aparência e, também, a correção plástica imediata é tão grave e importante para o humano como tratar de uma dor de cabeça crônica!

Freud destacou – a teoria das pulsões e a produção do desejo –, há que se pensar o que são para nós: o Belo, o Feio, o Sublime, mas também o Caricato e, especialmente, a Repulsa…

Os psicanalistas podem ajudar o outro (analisando) encontrar a causa dos seus sintomas, que causam repulsa, ódio, mágoas, etc. O sujeito que passa pelo processo de análise – adentra os meandros da sua psique – desse modo, o sujeito passa a ter ciência da sua subjetividade, que causam conflitos inconscientes. Mas que fique claro: não existe cura para todas as mazelas, mas sim, uma experiência emocional corretiva, que levará o sujeito à viver de forma consciente e menos dolorosa.

DO IMEDIATISMO

Em uma época, que se experimenta cortar e eliminar imediatamente o que não é prazeroso de se ver, para as normas da sociedade contemporânea, cheias de técnicas e resultados imediatos que se situam também diante do que é instável, repulsivo e inútil. Assim, o prazer de ser Belo e das aparências, rodeiam-nos, incansavelmente, as sombras que constituem o mal-estar dos humanos.

CONCLUSÃO

Em suma, para além da dimensão inconsciente de nosso desejo que não nos tira a responsabilidade dele, a questão que nos coloca Lacan, “Agiste conforme teu desejo?”, também nos coloca diante da responsabilidade pelo mal estar que advém da falta/incompletude, a qual nenhum, bem, posse, ou realização humana será capaz de eliminar, pois é a partir dela mesma que nos tornamos humanos.

Autora Luzziane Soprani                                              

Artigo publicado em 23 set 2013 | Este artigo tem 5 Comentários

INTRODUÇÃO

 “O instinto de amar um objeto demanda a destreza em obtê-lo, e se uma pessoa pensar que não consegue controlar o objeto e se sentir ameaçado por ele, ela age contra ele”. Freud.

Amar é um estado que povoa o centro cardíaco – nos levando em muitas dimensões prazerosas, mas, também, pode nos confrontar com desespero profundo, quando perdemos o objeto amado.

Talvez não haja maior encanto do que aquele proporcionado pelo estado do amor idealizado. Em contrapartida, a desilusão amorosa é dilacerante.

AMOR, CULTURA E SINGULARIDADES

Amar alicerça a existência humana e compõe de certa maneira o sangue da vida. Amar verdadeiramente o outro é uma das mais complexas de nossas capacidades. Também é inerente a cada cultura e suas regras, haja vista às inúmeras culturas mundo afora.

A educação determinada por tal civilização pode nos parecer abissal e intolerante, mas pode ser perfeitamente normal para aqueles que são educados em determinada cultura.

“Amar talvez seja o trabalho para o qual todos os outros trabalhos não sejam mais do que a preparação”, diz Laing (1954, citado por Gans). No ensinamento bíblico do Velho e do Novo Testamento, aprendemos que temos que: “Amar o nosso próximo como a nós mesmos”. Isso não é de fato tarefa fácil. Nos mandamentos bíblicos temos o maior de todos e o que complementa todos os demais mandamentos: “Ama o próximo como a ti mesmo”.

O próprio complexo de Édipo, coluna vertebral da psicanálise, é a história de como cada um de nós aprendeu a amar e a desejar. Não há dúvidas para a humanidade, que a maioria das pessoas, já se sentiram em êxtase com o amor.

AMOR X IDEALIZAÇÃO

Existe um tipo de amor que é carregado de idealização –, que perpassa o tempo e a transcendência entre os amantes, que faz crer que os dois se fundirão num só. Há também, a idealização de que andamos sempre atrás da cara-metade que irá nos complementar. Na realidade, isso vive no imaginário coletivo.

Mas, para amar, é preciso compreender que o amor é desconstrução. É a desconstrução do que havia antes, a idealização, para a construção da realidade.
Amar, então, começa com a perda do ideal de amor. Nesse sentido, amar é perder.
Lacan diz que “é preciso perder para poder falar. Amar está ligado à castração.”

Todavia, quando os amantes despertam dos sonhos de um amor idealizado, são compelidos a encarar aquele o qual idealizaram, com características que os desagradam. Portanto, quando o entorpecimento da idealização evapora, é quando a verdade sobre a convivência começa e, nos deparamos com os fantasmas reais, pois a idealização que um dia fizemos do outro, não era a verdade do outro, mas tão somente o nosso desejo.

AMOR X CULPABILIDADE DO OUTRO

Muito embora, há quem culpe o outro pelo amor que idealizou. Possivelmente, são indivíduos que ficaram regressos nas fases primárias, (a primeira infância). Esses serão sempre vítimas da vida. E, acredite, conseguem fazer com que o mundo à sua volta, os veja como vítimas dos seus parceiros amorosos. Há que se questionar aquele que se apresenta repetidamente de forma ingênua. Muitos são indivíduos extremamente sedutores e encenam como verdadeiros atores – tal é a credibilidade que conseguem, fazendo com que todos à sua volta os apoiem, diante do discurso da vítima. Desconfie de perfis que estão sempre na posição de vítima. Há que analisar, antes de um julgamento absoluto.

ESCRAVIDÃO DOS SENTIMENTOS

“A pior escravidão é aquela que acontece em função dos apegos, em que a pessoa tem a ilusão que precisa necessariamente de coisas e pessoas para ser feliz”.

Ressaltando o tema deste artigo: quando o amor vira entulho. Certamente, muitos de nós, bem como pessoas próximas a nós, já viveram relacionamentos que amargaram anos e anos de entulhos. Culminando assim, em mazelas que transbordam e desencadeiam doenças, inclusive, cardíaca, para retomarmos o início do nosso discurso, quando falamos que o amor povoa o centro cardíaco, bem como o amor idealizado e projetado subjetivamente – entulha um coração e tantos outros órgãos do corpo humano. “O coração de um homem é o melhor afrodisíaco que existe!”

AMOR E EVOLUÇÃO

Quando em um relacionamento os dois evoluem juntos, o amor prevalece, pois há o fortalecimento do vínculo afetivo através de bases sólidas como a tolerância e o respeito. Não há espaço para disputas porque se compreende e se aceita o outro exatamente como ele é. Certamente, os amantes fizeram a escolha de ficarem juntos pela liberdade de ambos – onde não deixaram espaços para entulhos que apareceram ao longo da convivência intoxicar a relação.

CONCLUSÃO

O amor que perdura além do tempo, é a forte crença de que a tal perfeição não existe, mas que o lindo e maravilhoso do início da relação se transforma e se reinventa. O amor maduro dispensa o comportamento impositivo, o orgulho e a arrogância, alimentando-se de empenho mútuo. É uma porta aberta para o que podemos chamar de plenitude.

REFERÊNCIAS

Autora, Luzziane Soprani

Laing, R. (1954). Reflexions on the ontology of human relation. Glasgow. Não publicado.

J. psicanal. v.42 n.77 São Paulo dez. 2009

Artigo publicado em 12 set 2013 | Este artigo tem 3 Comentários

 

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Você não pode ensinar nada a um homem; você pode apenas ajudá-lo a encontrar a resposta dentro dele mesmo. (Galileu Galilei).

O enunciado deste artigo é “conhece-te a ti mesmo, ou seja, nossa condição: quem somos, através de uma conexão evolutiva entre o pensamento, a busca da razão e o conhecimento abordado pela psicanálise, considerando o homem inserido na sociedade e na cultura”.

O fato é que nunca evoluí. Sempre fui eu mesmo. Mario Quintana, poeta (1906-1994).

Conhece-te a ti mesmo! É de se admirar: como um provérbio escrito há mais de dois mil anos pode ser tão contemporâneo. Mas, só podemos utilizá-lo, de forma apropriada, ao adquirirmos maior autoconhecimento e insights. Conhece-te a ti mesmo está dentro do reconhecimento do EU. Reconhecer qual é a “minha identidade”. Parece tarefa fácil –, mas não é bem assim, na verdade, nós estamos extremamente envolvidos uns com os outros – e este mix de envolvimento não é a nossa verdadeira identidade, entretanto, faz parte do nosso EU. O tempo todo estamos envolvidos com o desejo e a necessidade do outro. E ao pensar nesse envolvimento, percebemos que o medo faz parte do desejo, então, ocorre que, muitas vezes sentimos medo pelo o outro e, também, pelo que o outro representa em nós. Esse processo de reconhecer a própria identidade é permeado por crises. O caminho percorrido de (Conhecer a ti mesmo) é abastecido por crises. Estas crises  nos dão possibilidades de nos conhecer… E se, porventura, interrompermos esse fluxo de crises, a mente pode entrar em perigo; configurando assim, um xeque-mate. Isto é, o fim do jogo…

“O ar está tão carregado de espíritos que não sabemos como lhes escapar” Sigmund Freud, citando Goethe em Fausto.

É libertador descobrirmos que rejeição e desamor não são nem sequer análogos. Por exemplo: o relacionamento entre homem e mulher, quando ambos descobrem essa diferença dão a eles o poder do autoconhecimento. Dessa forma, aumentando o autoconhecimento, ocorre uma melhor qualidade nos relacionamentos. Na realidade, não rejeitamos o OUTRO; NOS rejeitamos no OUTRO. Mas à medida que aumenta o poder aumenta proporcionalmente a responsabilidade. É interessante analisar o que nós achamos. Geralmente, achamos que o defeito sempre está no outro. Mas qual é o poder que temos sobre o outro? O poder de mudança deve começar em nós. Quem deve mudar somos nós, não o outro, porque o rejeitamos por um problema nosso, não dele.

O reconhecimento da própria identidade é um processo árduo e em permanente construção, abastecido de crises existenciais, mas evitá-las pode colocar em xeque uma mente saudável. Prof. Renato Dias Martino.

Esse mecanismo acontece em todos os relacionamentos humanos. No terapêutico é bastante presente e comum e, por isso, deve ser sempre analisado. Por exemplo: se o terapeuta tem uma emoção reprimida nele e o analisando/paciente vive essa emoção que o terapeuta reprime nele mesmo, possivelmente, o terapeuta irá rejeitá-lo de alguma maneira – uma delas é sendo hostil em suas intervenções e/ou análises muito incisivas. Por isso, no meu ponto de vista, cada terapeuta tem seu próprio perfil no atendimento terapêutico, que entra no campo de suas vivências e emoções. Podendo haver empatia entre terapeuta/analisando ou não. Nesse caso, o feedback não será um depoimento sobre o comportamento dele, e sim um julgamento emocional, ou seja, vou condenar nele o que condeno em mim.

Só é possível aceitar o outro se eu me aceitar, e só posso me aceitar se me conhecer. Surgi desse ponto o provérbio socrático: “conhece-te a ti mesmo”.

Sócrates era o filósofo por excelência e sua atividade básica era questionar, perguntar, e assuntar, especialmente sobre o homem e o que ele sabia de si. Ele ia de pergunta em pergunta, nem tão interessado na resposta, mas na questão “conhecer-se”, chegando a dizer, de tão sábio, que “só sei que nada sei”… A importância de Sócrates criou inclusive “períodos” na história da filosofia: pré-socrático e pós-socrático. Assim, as questões sobre o homem em busca de si mesmo acompanham a história da cultura e da civilização desde os seus primórdios. Suas dúvidas são as minhas também, provavelmente não teremos “respostas”, mas necessitamos assuntar e indagar.

O pior de uma boa pergunta é uma resposta que pode acabar com a curiosidade de quem questiona; e mesmo porque nem sempre há resposta!  Na verdade, somente podemos nos conhecer parcialmente e de maneira muitas vezes enganosa. Entre outros fatos, porque nós somos indivíduos inseridos em um tempo: presente, passado e futuro; e quem fomos ontem, não somos hoje e quem somos hoje, não seremos amanhã.

Para concluir este artigo, vale ressaltar que os sonhos da humanidade, são seus mitos e os mitos dos homens são seus sonhos.

Como diz Caetano Veloso, “de perto ninguém é normal!”.