Artigo publicado em 24 jul 2013 | Este artigo tem 7 Comentários

Canalha

Nós nos achamos sujeitos formidáveis, mas realmente o ser humano só se salva quando chega a conhecer a própria hedionez. É isso que eu procuro quando escrevo: reconhecer a hedionez do ser humano. Para que se desenvolva nele uma série de competências psicológicas e sentimentais que fiquem trabalhando, elaborando dentro do leitor um processo.

(Nelson Rodrigues, Pouco amor não é amor, 2002).

O canalha é o intérprete parasita, o magistrado da fala alheia, o patrão das enunciações, especialista na gestão da impostura e na arte de colocar sua própria enunciação como Outro do Outro. Não é possível dizer a verdade sobre o Real porque neste caso teríamos que estabelecer uma correspondência biunívoca entre a linguagem (dizer) e o mundo (real), bem como localizar um sujeito fora do mundo, lugar de onde ele poderia enunciar a verdade da relação entre o que se diz e o que é.

O canalha é o perverso do amor. Inspira confiança e expira mentiras. O cinismo do canalha introjeta no outro esse poder de sedução e atração fatal. A presa do canalha sempre acha que pode fazer com que ele mude de postura. Devaneio, pois a pessoa apaixonada não consegue encontrar o antídoto para o canalha que é o desprezo. Ele dissimula que não é um canalha/cínico. Esse perfil atua como: o bom homem, carente, atencioso, apaixonado e infeliz. Senão infeliz no aqui e agora, mas na nostalgia do passado. Ele age por instinto, não sabe ser de outra maneira. A sedução faz parte da sua sobrevivência emocional. Ele é um lobo – o outro o cordeiro.

Amigos, cada obra de arte devia trazer a seguinte advertência da censura: – “Imprópria para os canalhas de todas as idades”. Nelson Rodrigues.

O canalha não necessariamente, tem uma beleza atrativa, mas tem um poder de sedução-cinismo que desafia e descontrola corações.

O canalha ardilosamente seduz – e a presa do canalha se encanta – para depois odiar. Ele tem uma imensa falta de escrúpulos. O canalha/perverso não nega a sua ação, mas se considera isento no que tange às consequências. Ele não se sente responsável e nessa conduta chega a se justificar.

Por fim, o canalha é um cínico deslavado. A sua forma de viver funciona como uma agressão. Uma agressão afetuosa. Uma provocação.

Artigo publicado em 17 jul 2013 | Este artigo tem 4 Comentários

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“O gozo fálico é o obstáculo pelo qual o homem não chega, eu diria, a gozar do corpo da mulher, precisamente porque o de que ele goza é do gozo do órgão.” (1972-73, p. 15) Lacan.

A globalização estabeleceu valores, até então intocáveis. Chegou com uma mudança brusca, dos novos padrões a serem seguidos todos estão sujeitos a se igualarem, pois antes só os adolescentes faziam suas proezas que é inerente a sua condição: o imediatismo, pois esses estão em um mundo a ser descoberto – sujeitos em formação que no seu desenvolvimento afetivo/sexual, não namoram, mas saem ficando.

Ficar: termo ambíguo que é usado não no sentido de permanecer.  Mas é a maneira superficial e breve dos jovens se relacionarem.

E os adultos? O que levou os indivíduos adultos, maduros cronologicamente agirem de ponta-cabeça?

O mundo virtual disponibilizou o poder. E ter poder é estar em uma posição superior – é uma vantagem que todos nós desejamos, pois dá uma sensação de segurança inatingível – de que se pode impor o próprio jeito de ser. E nesse jogo ninguém quer perder. Por isso, algumas pessoas reprimem o impulso de procurar o parceiro. Não querem ficar “por baixo”. Pensamentos como “eu não vou procurar.” Afinal, a virtualidade os faz acreditar nas tantas opções, que faz parte dessa síndrome de poder imaginário. Muitas vezes uma relação auspiciosa não vai à frente em função dessa espécie de orgulho e competição que não leva a lugar nenhum.

É através do vínculo que todos os seres se comunicam, mas se a mesma está dissociada – existem duas formas de proceder: a conquista tem o potencial para o amor, enquanto que “Ficar” é pura estimulação da libido que encerra no descartável. Conquistar, enamorar são formas de manifestar a individualidade e de realizar a subjetividade, capaz de superar obstáculos. A natureza erótica não ama sempre, e nem a todos, mas na medida em que o faz inteiramente, consuma o sentido da vida.

O amor só tem sentido se recíproco; enquanto que a paixão pode nos colocar em um delírio paranoico. A depreciação cultural dos afetos faz o homem contemporâneo se perder dos sentimentos bem-intencionados e se tornar fútil, a ponto de partir para conquistas a partir da posição em que se encontra com a virtualização exposta – as vitrines virtuais.

O desejo amoroso não tem nada a ver com a bestialidade ou com problema dos desejos instintivos e vazios, e o amor não é um paradoxo à autonomia, do contrário é preciso dispor de autonomia para amar. E no oposto do amor está à paixão, que se caracteriza pelo exagero, entusiasmo, admiração e obsessão, enquanto que o amor mantém as referências, preserva limites e medidas da realidade. A ideologia aversiva ao amor contempla esta liquidez do vazio regida pelo imperativo do gozo.

Na obra de Zygmund Bauman: “Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos” – destacam comportamentos do nosso dia a dia, do que há de mais concreto na vida do homem moderno com suas relações de amor: seus acessórios tecnológicos – que alimenta a crença de um mundo melhor e tranquilo –, a crença no amor como oásis em um mundo trágico e violento, as relações como uma rede computacional, a imprevisibilidade das relações, a queda da distinção entre o regular e o contingente, a traição, os relacionamentos de bolso – que podem ser usados quando as partes bem entenderem. (…)

A relação ideal ocorre a partir do companheirismo, da compreensão, do respeito, da lealdade e do amor próprio; pois para sentirmos amor pelo o outro, é preciso sentir o amor em si mesmo. Ou seja, quando conhecemos e sentimos amor por nós; mas nunca usando para estabelecer uma relação de superioridade ou inferioridade. Só assim, o verdadeiro relacionamento acontece, pois  é necessário fazermos concessões, cada um doando um pouco de si, em busca do verdadeiro amor.

 

 

Referência:

Livro: Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos.

Autor:  Zygmund Bauman.

Artigo publicado em 13 jul 2013 | Este artigo tem 1 Comentário

Nosso Atos Falhos

Nunca reprove o ato falho. Ele é o caminho mais seguro ao inconsciente.
Cleber Martins.

Aqueles que conhecem um pouco de Freud, já ouviram falar nos atos falhos, que são, por definição: confessar em um “tropeço” aquilo que percorre o nosso inconsciente, e que muitas vezes tentamos ocultar. A partir do momento que passamos a compreender o real sentido dos atos falhos, podemos observar a maneira como o inconsciente de uma pessoa o trai e confessa suas reais intenções.

Foi a partir da psicanálise, que houve a descoberta dos atos falhos, haja vista até hoje, para aqueles que desconhecem a psicanálise e querem ocultar o real sentido dos supostos erros – os atos falhos eram tidos apenas como simples erros/trocadilhos, um ocorrido “sem querer”, que não tinha maior importância, que não possuíam nenhuma causa e eram atribuídos simplesmente a um “equívoco”. Freud, por sua vez, pôde mostrar no livro “sobre a Psicopatologia Da Vida Cotidiana” que até os erros/tropeços mais comuns teriam um sentido oculto que teria sido ressaltado em determinado erro.

DAS CARACTERÍSTICAS DOS ATOS FALHOS

Os atos falhos consistem em pequenos lapsos – esquecimentos de nomes, horários, datas, coisas a fazer e/ou algo dito que não era o que tinha sido intencionado a dizer – erros ao fazer alguma coisa, ou seja, todo processo em que ocorre alguma interferência no que foi planejado, na atitude “normal” esperada, assim acontecem os atos falhos.

O exemplo a seguir, revela muito sobre os atos falhos: um senhor estava conversando com uma jovem sobre como a cidade estava bonita com os preparativos para o Natal, e disse: “viu a loja tal? Está toda DECOTADA, oh, quis dizer DECORADA!”. Esse é um exemplo bastante simples, mas é intrigante, pois comumente as pessoas têm a tendência a atribuir um erro como esse simplesmente ao acaso, e não procuram investigar o que o ocasionou. O locutor diria “oh, quis dizer DECORADA!” e a coisa ficaria por aí mesmo. A outra pessoa da conversa geralmente tende a não dar atenção ao ato falho. Já Freud interpreta esse pequeno erro como uma interferência de um pensamento inconsciente do senhor a respeito do decote da roupa da jovem senhora. Em todos os casos analisados, Freud consegue mostrar que os atos falhos, dos mais simples aos mais complexos, são frutos de um processo inconsciente suprimido e que sua causa pode ser descoberta.

Outro fator importante – são as investigações policiais – em que um indivíduo precisa depor várias vezes, em um desses depoimentos, o indivíduo pode falar de maneira “inconsciente” e revelar a verdade em um ato falho.

No entanto, pode-se ter em mente que quase todo erro cometido tem um significado oculto. Pode-se dizer quase todo erro cometido, porque às vezes erros são ocasionados pelo alto investimento psíquico em outros acontecimentos. Citaremos outro exemplo: “uma pessoa extremamente preocupada com problemas no trabalho, pode vir a esquecer do amigo, do filho, por exemplo, em determinado local já esperado. Esses acontecimentos são frutos da preocupação exagerada.

Quando alguém busca o psicanalista, às vezes passa horas, dias, meses, anos, tentando explicar o que pensa e o que sente. Discurso controlado, consciente – e que na maioria das vezes oculta a verdade. Se todo efeito tem por trás uma causa, todo “ato humano” tem por trás um motivo, tem um desejo. O que a psicanálise revela é que há muito mais entre nosso inconsciente/consciente do que podemos supor.

Um ato falho, que o analisando deixe escapar em meio às diversas sessões, às vezes dá uma pista mais importante para o psicanalista do que horas e horas de escuta atenta. O ato falho revela o que está reprimido, e pode desencadear o longo e por vezes árduo caminho da cura – embora a busca da cura, não necessariamente – seja a felicidade absoluta, mas a infelicidade suportável.

“Nossos atos falhos são atos que são bem sucedidos, nossas palavras que tropeçam são palavras que confessam. Eles revelam uma verdade por detrás. (…) Se a descoberta de Freud tem um sentido é este – a verdade pega o erro pelo cangote, na equivocação”. (LACAN, 1954/1986, p. 302).

Artigo publicado em 06 jun 2013 | Este artigo tem 1 Comentário

Melancolia. Uma linha tenuê do existir.

“O sofrimento sempre acompanha uma inteligência elevada e um coração profundo. Os homens verdadeiramente grandes experimentam uma grande tristeza, acometido de uma melancolia súbita.” Fiódor Dostoiévski

O presente artigo consiste em uma breve revisão teórica de como a psicanálise explica a melancolia.

A melancolia é uma dor de existir. A melancolia é uma dor que não se descreve. Geralmente, a melancolia é vista como depressão, e não é só depressão. Faz parte da natureza humana essa dor. Desde Freud, a “dor de existir” vem sendo observada e, atualmente, seu conceito parece confundir-se com a depressão. A pessoa que se encontra na depressão pode sair da depressão. Portanto, esta condição abre um espaço de interpretação singular.

Não é de hoje que a Psiquiatria biológica tenta inutilmente ignorar a subjetividade da dor e da existência humana, buscando respostas dentro do contexto biológico e sonha com o dia – que nunca virá – em que um comprimido irá curar todos os males do mundo. Segundo Estevão (1997) apud Moreira 2001.

DA FARMACOLOGIA:

Não raro, esses acontecimentos se resumem em interesses oculto-suspeitos e nada éticos em que grandes laboratórios estão por detrás e compulsivamente procuram explicar a busca da solução para as angústias humanas numa pílula mágica. O poder e o interesse econômico entram num campo limítrofe e delicado com a fantasia onipotente, com falsas promessas e muitos lucros.

DOS ANTIDEPRESSIVOS:

“Os antidepressivos são ministrados de forma abusiva. Não é só psiquiatra que prescreve. Em alguns locais do mundo, como Estados Unidos e Inglaterra, cerca de 60% das prescrições de antidepressivos são feitas por clínicos gerais, ginecologistas, cardiologistas, entre outros. No Brasil, provavelmente, é parecido porque não há estatística confiável que eu conheça a esse respeito aqui. Quais são os efeitos nocivos dos antidepressivos? O paciente fica como se fosse uma outra pessoa porque o antidepressivo induz a um contentamento que não depende dos fatos da vida. Ele não fica contente porque conseguiu se formar na faculdade, porque teve um bom resultado no trabalho ou porque a família vai indo bem. Não fica feliz porque conquistou coisas, que é o natural. Ele se contenta por ação química. Os fatos da vida dele são os mesmos. E também não houve um amadurecimento emocional para aceitação de eventuais fatos nocivos e desagradáveis. Está tudo igual. O medicamento induz ao contentamento indiscriminadamente. Por isso que digo que é a ação do antidepressivo. Qual o outro efeito nocivo? Ele se dá como se apenas uma parte da pessoa reagisse de forma não depressiva. Em psicanálise nós falamos que na depressão existe uma fúria sádica do sujeito contra ele mesmo, que o faz querer se autodestruir. O antidepressivo pode agir somente numa parte disso. Ou seja, a pessoa sai daquele estado triste, mas permanece a fúria sádica, só que não mais contra si, mas contra alguém próximo. Ele culpa alguém pelos males do mundo. É como se outra pessoa, e não mais ele, tivesse de ser punida. Mas ele não fala isso claramente.” Segundo o psiquiatra e psicanalista Rubens Hazov Coura.

DA ANGÚSTIA, TRISTEZA E A DOR DE EXISTIR:

Em tempo algum podemos esquecer que a tristeza, a dor e a angústia fazem parte da natureza humana – o ato de existir nos expõe a essas sensações no decorrer da vida. Ninguém está isento disso. Exceto os sujeitos que nascem com uma deformação em sua conduta, que é o caso do perverso – esses não sentem angústia, não sentem a dor de existir – eles apenas coexistem. A dor tem sido condição para o desenvolvimento na natureza humana. Sem dor não há crescimento. A evolução humana é com dor, o aprender é com dor. Todo nosso processo de nascer, viver e morrer são perpassados pela dor e angústia. A tristeza, a dor e a angústia fazem parte da natureza humana e o fato de existirmos nos expõe a essas sensações.

DA DEPRESSÃO E A MELANCOLIA:

A depressão e a melancolia para a psicanálise são distintas não só quantitativa como qualitativamente: a primeira é um sinal clínico e a segunda uma categoria diagnóstica, não justificando seu agrupamento num quadro único como pretende a psiquiatria atualmente com a criação do conceito de “Transtornos do Humor.”
Mas, o acompanhamento de um profissional da condição humana é necessário, quando o sujeito está acometido da depressão e comorbidades. O tratamento deverá ser acompanhado por um psiquiatra e psicoterapeuta. Trabalhar o desenvolvimento emocional para que o paciente-analisante reflita e traduza seus pensamentos, criando condições para contornar sentimentos que julga insuportável.

A depressão é, portanto, um problema de saúde e necessita de atenção. Se ela anda sufocando-o, chega de sofrer em silêncio. O melhor remédio que um analista pode oferecer é a oferta da escuta que promove o bem dizer sobre o saber recalcado e proibido, que vai de encontro ao dever ético de orientar-se no inconsciente-consciente.

A partir do que foi exposto pôde-se ter uma noção a respeito da melancolia. Ficam alguns questionamentos a serem ainda investigados e estudados, para um posterior artigo em discussão.

 

Referencias:

Revista ISTOÉ Independente. Edição: 1563.

 

 

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