Artigo publicado em 16 abr 2013 | Este artigo tem 4 Comentários

Casamento busca solidez e estabilidade 1
“Quanto maior for a extensão da inconsciência, tanto menor se tratará de uma escolha livre no casamento; de modo subjetivo isto se faz notar pela coação do destino, claramente perceptível em toda pessoa apaixonada” Jung.

A união entre duas pessoas é um acontecimento que, por mais antigo que seja ainda provoca um “estremecer” pelo fato de demandar questionamentos que homem e mulher nunca antes haviam feito. A estabilidade amorosa, reproduzida por uma união, muitas vezes unida pelo sacramento matrimonial diante do altar, já não é mais a mesma para a era contemporânea. Diante de novos perfis de relacionamentos, já não têm mais o mesmo sentido de antes. Pensar que a paixão e o amor são adjetivos de união eterna é uma ilusão que os parceiros já não se submetem a fantasiar. Para alguns especialistas em comportamento humano, o casamento é um exemplo de construção a dois, de um novo modelo, que não pode ser nem de um, nem do outro. De maneira mais específica: é um momento de adaptação de expectativas a um ponto de racionalização entre o irreal e o possível, onde ambos os parceiros deverão aprender a conviver com os pequenos problemas do cotidiano, para viver a realidade do possível.

O articulista Paulo Rebêlo relata em um artigo que, “adultos são tão ou mais crianças do que os próprios filhos”. Segundo Rebêlo é uma verdade tão factual que chega a ser embaraçosa, pois muita gente, quando sai de um relacionamento, mira-se no espelho e percebe o quanto atitudes infantis podem ter influenciado de forma negativa na união.

Homens e mulheres não permanecem mais em um casamento com tanta dependência. Estão mais libertos disto, ou seja, se desvincularam de ter de ficar com o outro mesmo com tantas inseguranças. Já não se sacrificam para permanecer com o parceiro. A mulher está mais segura, e quer um parceiro que a respeite e apoie. Já o homem não aceita uma mulher que não compartilhe com ele suas conquistas. Os dois mantêm-se juntos pela parceria da construção de uma família, que é um relacionamento sustentado em projetos comuns, respeito e um bom relacionamento afetivo.

Gikovate afirma: “Outro fator de peso está nas diferenças de temperamento (generosos e egoístas são bastante diferentes), de gosto e interesses. Na vida prática, no dia a dia, as divergências de opinião e a falta de um projeto comum provocam irritação permanente. E isso não vale só para as grandes diferenças. (…) E assim por diante. São justamente estas pequenas contradições que provocam a irritação, a raiva e, portanto, a maioria das brigas”.

Mas, nos melindres da relação, às mulheres, às vezes, são mais atentas que os homens, numa tentativa de constatar se fizeram realmente a escolha certa. “Quem quer casar-se pode chegar numa terapia de casais, mesmo no caso de namorados. O que é uma decisão muito saudável” – avalia Luiza Ricotta – psicóloga e escritora. O psicanalista carioca Paulo Sternick afirma que é muito comum encontrar dois extremos: os que decidem rápido, com segurança suspeita, como se nada estivesse ocorrendo, negando as preocupações; e aqueles que não conseguem decidir, tomados por incerteza e medo, incapazes de afastar as dúvidas diante do altar. Ele diz, porém, que nenhuma escolha é cem por cento certa. E as pessoas vivem, hoje, numa cultura indeterminista, e, portanto, é preciso adequar o pensamento à situação. O psicanalista Paulo Sternick – recorre à definição dada pelo filósofo Jean Baudrillard – para esclarecer que o ser humano jamais foi exemplo de estabilidade. No passado é que houve, isto sim, um modo de moldá-lo e descrevê-lo como se pudesse ser lógico, coerente e estável.

Em suma, é necessário ter em mente que se valer a pena ficar com o Outro, é importante ser capaz de tolerar as diferenças.

 

Artigo publicado em 10 abr 2013 | Este artigo tem 2 Comentários

sadomasoquismo-3

Nesse artigo o objetivo é articular a noção de sadismo e masoquismo. Parte-se da hipótese de que as noções de sadismo e masoquismo presentes nos primórdios da obra freudiana indicam uma intuição de Freud a respeito da pulsão de morte, anterior à formulação desse conceito. Psicanálise & Barroco em revista v.9, n.2 : 161-177, dez.2011.

Pontos de vista tradicionais comumente definem que Sadismo e Masoquismo é uma “perversão” onde pessoas têm prazer em atividades sexuais que inflijam dor e/ou humilhação. A pessoa que se excita sexualmente por infligir dor/humilhação é chamada de “sádico”. A pessoa que se excita sexualmente por receber estímulos dolorosos/humilhantes é chamada de “masoquista”. A palavra “perversão” foi originalmente usada dentro da terminologia legal, o equivalente psiquiátrico mais moderno seria “parafilia” ou “desvio sexual” (DSM-IV, ICD-10).

Aqueles que sofreram algum tipo de dor ou frustração e foram submetidos muito cedo, mais provavelmente na infância, se protegem um ferindo e o outro, aceitando o sofrimento que lhe é imposto. Com desprezo ou ameaça, o sádico não consegue amar e é difícil tirá-lo dessa condição. Já o masoquista pode mudar com maior facilidade. Mas é preciso muito empenho para se conscientizar e ter a mesma consideração por si como tem pelo outro.

Quando entre um casal prevalece a dinâmica masoquista e, no outro, a sádica, forma utopicamente, o par perfeito. A questão é que eles não podem celebrar essa perfeição, uma vez que estão aprisionados a seus respectivos sofrimentos.

Vale ressaltar que o que caracteriza o masoquista não é gostar de sofrer. O masoquista escolhe o sofrimento que prefere ter, ou seja, ampara-se no abrigo de um sofrimento conhecido, temeroso de ser dominado por uma dor ainda maior, porém desconhecida. Suas fantasias desastrosas a respeito do outro, da vida e do destino o levam a exercer algum controle sobre essas repetições, mostrando-se inevitavelmente, capaz de suportar frustrações. Com esse movimento, o “outro malvado que infunde medo” é coberto pelo alucinógeno do masoquista, com o qual ele imagina mantê-lo refém.

Na visão psicanalítica o “sadismo” é quase sempre entendido como reação primária e o “masoquismo” como reação secundária ao trauma. O “masoquismo” é secundário no sentido de que o “sadismo” é dirigido para dentro, contra si mesmo. Se a criança tem uma mãe que nega satisfazer suas necessidades, ela pode, quando adulta, procurar vingança em fantasias sádicas e possivelmente realizá-las sexualmente contra mulheres. Sadismo “oral”, “anal” e “fálico” foram postulados. Dessa forma, a vingança pode vir como resultado da angústia de castração na fase edípica (“fálica”). O conflito edípico pode, alternativamente, resultar diretamente em submissão (sendo assim, em masoquismo), como estratégia de fuga. Ele “deixa estar” por desistência.

A compulsão à repetição é notável no pensamento psicanalítico. “Pessoas sádicas” precisam recriar um velho cenário traumático na tentativa e resolver, aqui e agora, o que foi impossível de resolver no passado. Se, por exemplo, a criança foi espancada pela mãe, ela pode precisar repetir esse cenário tendo uma namorada (o) fazendo o mesmo quando adulto. Ou ele pode reverter essa situação espancando e/ou humilhando à sua namorada (o).

Percebemos, portanto, algumas diferenças importantes. O masoquista ao doar-se declara a existência do outro. Esse jeito demonstra sua natureza e sua índole ética e generosa, mesmo quando se considera que ele desonera da reciprocidade e parece sobreviver sem ela. O sádico, ao contrário, não vê o outro como existente, uma vez que de tudo faz para impedi-lo de todo e qualquer tipo de recompensa. O masoquista pode desenvolver por si mesmo consideração semelhante à que ele tem pelo outro. O sádico, excessivamente, não pode desenvolver pelo outro qualquer consideração, porque com isso afirmaria o valor de um objeto prognosticado como muito ameaçador.

 

 

 

 

 

Artigo publicado em 06 abr 2013 | Este artigo tem 0 Comentário

Abuso Sexual. Um trauma que pode se tornar um fantasma por toda vida.

Penso nos frutos que ficam maduros rápido demais,
e saborosos, quando o bico de um pássaro os feriu,
e na maturidade precoce de um fruto bichado. S. Ferenczi

A questão dos maus-tratos na infância, dentre eles o abuso sexual, em função da frequência de casos e das consequências negativas tanto para o sujeito vitimado quanto para a sua família, foi considerada como um grave problema de saúde pública (OMS, 1999). Assim sendo, o abuso sexual é uma temática complexa que perpassa diversas dimensões, desde situações específicas, envolvendo perpetradores e vítimas, a questões familiares, sociais e culturais (Amazarray & Koller, 1998; Avery, Hutchinson, & Whitaker, 2002). Além disso, há consequências sérias que são resultantes das experiências traumáticas de tal evento e que afetam diversos aspectos do desenvolvimento cognitivo e emocional de crianças e adolescentes vítimas de tal violência (Pfeiffer & Salvagni, 2005; Prado & Féres-Carneiro, 2005).

As consequências dos maus-tratos são devastadoras, ocasionando sequelas físicas e psicológicas, afetando, também, o desenvolvimento cognitivo das vítimas (Benetti, 2002). Além disso, os efeitos do abuso e a respectiva severidade variam de acordo com alguns pontos, tais como a idade da vítima, a duração do abuso, o grau de violência, a diferença de idade entre perpetrador e vítima, o relacionamento entre eles, a ausência ou não de figuras parentais protetoras e, finalmente, o grau do segredo e de ameaças que a vítima sofreu (Amazarray & Koller, 1998). Neste sentido, em 1985, Finkelhor e Browne (1985) organizaram um modelo compreensivo das consequências e do impacto do abuso sexual a partir de fatores característicos das experiências traumáticas. Estes fatores determinantes definem o que os autores denominaram a dinâmica traumática e são baseados nas experiências de sexualidade traumática, traição, submissão ao poder e estigma. Ainda que estes elementos possam estar presentes na experiência de diversas situações traumáticas, a conjunção dos fatores nas situações de abuso sexual determina uma especificidade do abuso sexual no impacto do desenvolvimento geral das vítimas. As experiências de sexualidade traumática dizem respeito aos sentimentos e às atitudes resultantes das vivências sexuais inapropriadas ao momento evolutivo do sujeito e das relações interpessoais disfuncionais que se estabelecem com o abusador. Portanto, dependendo do tipo da experiência sexual vivida pela criança, seja colocada numa posição passiva, seja envolvida em sedução e prazer, além da força e do poder exercidos pelo abusador, serão determinadas diferentes consequências no desenvolvimento emocional e cognitivo do abusado.

Muitas vezes, o senso de traição ocorre igualmente em relação a outros adultos, em quem a criança confia e que não conseguem exercer uma ação protetora, tal como a mãe ou irmãos mais velhos. Assim, a experiência de submissão ao poder do adulto gera uma experiência ainda mais traumática e invasiva, pois a vítima não consegue visualizar meios de reverter à situação do abuso na qual está envolvida. Por último, há o estigma gerado por ter sido vítima e as crenças de por qual razão o abusador a escolheu, além das percepções dos demais acerca do papel da criança no evento. Finkelhor e Browne (1985) colocam estes fatores como critérios que podem ser utilizados para o diagnóstico do impacto do abuso no desenvolvimento infantil e adolescente, já que fornecem dimensões de análise complementares do fenômeno.

Um caso de ficção, mas que acontece com frequência. Na novela Passione – que foi exibida pela Rede Globo de Televisão em 2010 – “vimos” um caso que nos revela situações vivenciadas por crianças, adolescentes deixando traumas os quais podem acompanhá-los por toda vida.

O personagem depois de muito resistir, consegue resolver o que o incomodava, quando se determina fazer terapia.

Gerson (Marcello Antony) vivia no computador vidrado na tela, o piloto acabou com seu casamento por causa do vício e sofreu cada vez mais com a repulsa que sentia por si mesmo.

Em consulta com o doutor Flávio Gikovate, ele diz que não aguenta mais guardar o segredo e que precisa “tirar isso de dentro de mim, senão vou ficar louco”. Angustiado, Gerson começa o desabafo contando que foi iniciado no sexo ainda muito cedo, possivelmente por ter sido abusado pela empregada, quando criança. Ainda adolescente, ele passou a frequentar inferninhos, locais muito pobres e sujos, e aquilo lhe causava um fascínio. Depois, descobriu as revistas proibidas, com imagens explícitas que o excitavam e causavam prazer por ser proibido. Passou a assistir a homossexuais fazendo sexo em banheiros públicos, sentindo excitação com o cheiro fétido do local. Porém, o rumo do vício mudou numa noite em que ele pagou para uma mulher muito maquiada, volumosa e de seios grandes para fazer sexo e foram para um bairro deserto. A polícia chegou e o achacou, roubando seus documentos e causando muito medo.

A partir daí, Gerson ficou acuado para sair de casa e descobriu uma forma de fazê-lo pelo computador. Entrou em muitos sites, que as pessoas contavam histórias e erotizavam explicitamente. No dia em que Diana (a esposa) descobriu o segredo, o piloto revela que “quando ela começou a gritar e eu tapei à sua boca, eu senti um prazer tão perverso com aquela situação. (Há muito tempo que eu não sentia desejo por ela, mas, naquela hora, eu quase a violentei”).

Por fim, ele desabafou que “eu tenho muita vergonha. Eu não sei como parar com isso. Eu quero ser um cara limpo. Não quero mais me excitar com isso, não quero mais ter vergonha de mim. Eu quero poder amar de verdade, não quero enganar mais ninguém”. O drama do personagem Gerson é diagnosticado pelo doutor Gikovate como “algo que povoa o pensamento de muitos outros homens, mas, por forças de violência e de abuso, ele vincula a temas vulgares, sujos. Não há nada do que se envergonhar”.

Como o próprio médico observa, a excitação de Gerson por sexo violento e atividades atípicas só era vista pelo piloto como algo sujo e vulgar por ele vincular com o abuso que sofreu no passado. Após conseguir contar o que esconde, parece que ele tira um peso dos ombros e se livra do que tanto o perturbava.

“Gerson não era gay, muito menos pedófilo. Ele precisava curar um problema que o impedia de ser feliz nos relacionamentos”.

É um caso da ficção, mas mostra como isso acontece e deixa traumas violentos, fazendo com que essas pessoas não sintam prazer numa relação sexual saudável. Podendo desencadear culpa, repulsa, ódio…

Freud em 1896, não usou termos como abuso (missbrauch), estupro (vergewaltigung), ataque (angriff), entre outros, para se referir às crianças que ele supunha terem sido seduzidas sexualmente por um adulto. Preferiu substituí-los por sedução (verführung), o que implicava, na visão de alguns autores, alguma forma de participação de um outro.

O trabalho de análise/terapia é fundamental. Realizado na clínica mostra que apesar da questão fundamental, o abuso, é importante preservar a singularidade de cada um, permitindo assim, que o processo terapeutico acompanhe o ritmo do analisando.

Artigo publicado em 19 mar 2013 | Este artigo tem 4 Comentários

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Muitas vezes as coisas que me pareceram verdadeiras quando comecei a concebê-las tornaram-se falsas quando quis colocá-las sobre o papel”. René Descartes.

A mente humana sofre a tendência de achar que está vendo e entendendo todas as situações e as pessoas à sua volta. Mas o que vemos são aparências. Elas são apenas – como o próprio nome revela aquilo que aparece aos sentidos. E eles só satisfazem a percepção sensorial superficial. Mas perceber o que está de fato diante de nós exige um esforço enorme, apenas iludido pela facilidade da percepção das aparências – ou das intuições precipitadas por elas não nos beneficia.

Esta facilidade que nos é concedida pelo sentido visual é percebida e, ligado à superfície da consciência, produz uma ilusória noção de controle da realidade e sentimento de onisciência.

As aparências enganam. Quando um homem ou uma mulher desejam enganar alguém, procuram não despertar dúvidas e desconfianças e fazem o possível para disfarçar suas intenções. Isso ocorre porque o critério de se valorizar alguém pelas aparências falha frequentemente.

Os acontecimentos são sempre mais complicados do que parecem quando queremos chegar a uma conclusão sobre eles. As nossas relações costumam ser construídas através da aparência. Devo ser amigo (a) daquela pessoa que se destaca, pois quero ser como ele (a). Quero me relacionar com aquele homem ou àquela mulher interessante, charmoso (a), educado (a), sensível, super popular e, assim, serei uma pessoa invejada e feliz. Meu alvo é aquele emprego, pois é de destaque e paga muito bem. Somos tentados a tudo isso. Pois vivemos na ilusão das aparências. Não significa que não devemos buscar o que é bom, ou que tenha a aparência de bom. Significa que não devemos nos impressionar com as aparências, e fazer às nossas decisões baseadas apenas nisso. Significa também que, devemos prestar mais atenção aos sinais e usar melhor à nossa percepção-razão-intuição. Diz o ditado: “Não vá com muita sede ao pote. Quem muito corre, acaba por não saciar a sua sede.” Tudo demasiadamente em excesso torna-se perigoso, e nos faz perder a moderação, até mesmo nossos maiores desejos.

O oráculo enganador tampouco é só externo, atua desde dentro, na mente de cada um, nos acometendo de equívocos, ilusões, distorções, fantasias. No entanto, a espécie humana prefere viver na ilusão, pois a verdade se acerca do desprazer. De maneira ideal, o oráculo enganador pode ser combatido pelo pensar crítico e lúcido, pela extensão da consciência.

Sabemos que para tudo nesta vida devemos nos empenhar, querer e lutar – e quanto mais nos empenharmos mais rápido e melhor poderão ser os resultados -, mas os resultados obtidos podem chegar pelas vias mais complicadas, dependendo de como cada um se posiciona. George Orwell dizia que enxergar o que está diante do nosso nariz exige um esforço enorme. Quando queremos muito algo e não temos a “paciência em esperar”, por assim dizer, racionalizar um pouco mais, sem perder a emoção e a motivação, acabamos por aceitar o que é talvez parecido ilusoriamente, mas não fosse totalmente o que desejávamos, simplesmente, para satisfazer o EGO – e quando se acorda logo vem à frustração – de não ser exatamente aquilo o tão sonhado querer.

Por fim, as aparências enganam, mas nem tanto. É preciso nos atentar aos sinais, pois os indivíduos sedutores, sempre deixam algum rastro. Portanto, quando tiver que fazer uma escolha, nunca faça movido só pelas emoções. 


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