Artigo publicado em 27 maio 2017 | Este artigo tem 2 Comentários

 

O presente artigo tem por objetivo tratar as diferenças entre os transtornos: Borderline versus Bipolar, bem como os dois transtornos juntos em uma mesma mente.

O Transtorno de Personalidade Borderline e o Transtorno Bipolar se assemelham em muitos sintomas, os mais evidentes sendo o humor instável e atitudes impulsivas.

Devido algumas semelhanças o Transtorno Borderline e o Transtorno Bipolar são confundidos frequentemente. Alguns portadores desses transtornos perambulam por longo tempo até serem diagnosticados corretamente. O risco de tratamento errado não é incomum, pelas estatísticas conjecturadas perante tratamentos com diagnósticos errados.

Como são distintos, os métodos de terapia se diversificam. A Bipolaridade responde bem aos antidepressivos ao passo que o Borderline é tratado com terapias que tem possibilidades de atuar com eficácia, como é o caso da Terapia Dialética Comportamental.

Em um artigo publicado pelo U.S. National Library of Medicine, Joel Paris, M.D., escreve: “Estudos de tratamentos que falharam em mostrar que os estabilizadores de humor têm em qualquer ponto a mesma eficácia no Transtorno de Personalidade Borderline do que eles têm no tratamento do Transtorno Bipolar”.

Apesar das variações de humor os sintomas predominantes nesses dois tipos de transtornos, cada um possui características que requerem acompanhamentos diferentes.
A primeira grande diferença está na velocidade da mudança de humor. O paciente Borderline apresenta variações de sentimentos dentro de segundos, minutos e/ou horas, enquanto o Bipolar, comumente, leva no mínimo uma semana do estado de euforia até o estado de depressão. Além disso, no Transtorno Borderline, a variação de humor depende de fatores externos, enquanto o Transtorno Bipolar alterna o seu comportamento segundo estímulos internos.

ALGUNS TRAÇOS QUE DIFERENCIAM AMBOS OS TRANSTORNOS: BORDERLINE VERSUS BIPOLAR:

Transtorno de Personalidade Borderline em meados do século 20 foi descrito como um distúrbio psiquiátrico por está relacionado entre as estruturas: psicose e neurose. Por isso, é também chamado de comportamento limítrofe, bem como tem sido chamado de Síndrome Borderline.
No Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais que se encontra atualmente no [DSM 5] no âmbito do diagnóstico de “Personalidade Emocionalmente Instável.” O termo Borderline (“limítrofe”) permanece – apesar de algumas pesquisas discordarem que o Borderline está na fronteira de um distúrbio neurótico versus psicótico. No entanto, comumente associam e/ou confundem Transtorno de Personalidade Borderline com Transtorno de Personalidade Bipolar.
Mesmo o Bipolar misto que alterna rapidamente entre euforia e depressão não é tão inconstante como quem sofre de Transtorno Borderline.
Uma das diferenças bem demarcadas é que pacientes Borderlines não têm uma personalidade definida, incluindo a sexualidade. É mais provável encontrar um bissexual entre Borderlines do que entre Bipolares. Embora muitos Bipolares possam cogitar pessoas do mesmo sexo, a escolha dos parceiros é muito clara.
Sobre depressão, algo que afeta tanto o Borderline como o Bipolar, pode-se afirmar que mesmo a depressão do Borderline, intermitente, é diferente daquela do Bipolar, contínua. Conclui-se que instabilidade emocional não é Transtorno Bipolar, mas pode ser Borderline.

AlGUMAS CARACTERÍSTICAS DO TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE:

Relacionamentos instáveis;
Humor e pensamentos instáveis;
Lutas com um senso de self;
Possível paranoia e/ou psicose;
Sexo promíscuo.

Algumas dessas características também aparecem em Transtorno Bipolar, por isso, é possível confundir um para o outro.

ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DO TRANSTORNO BIPOLAR:

No Transtorno Bipolar, o humor varia dentro de um tempo maior (dias, semanas, meses), obedecendo a ciclos.

O Bipolar tem um humor que obedece a fatores internos.

O Bipolar mantém o humor maníaco enquanto durar a fase de mania (uma semana no mínimo); e mantém o humor depressivo enquanto durar a fase depressiva (dois meses no mínimo). Mesmo aquele Bipolar misto que alterna rapidamente momentos de euforia e de depressão não é tão inconstante como quem sofre de Transtorno de Personalidade Borderline. A diferença, nesse caso, pode ser pequena; mas existe.

DOS TRANSTORNOS BORDERLINE E BIPOLAR JUNTOS:

É evidentemente difícil, distinguir entre os dois quando há coocorrência. Não é incomum um paciente ter vários distúrbios psicológicos simultaneamente. Essa simultaneidade de transtornos pode vir de várias partes, incluindo alguns:

Transtornos de ansiedade;

Transtornos de Abuso de Substâncias;

Transtornos de Humor e Transtornos Afetivos.

Cerca de 20% têm uma combinação de Transtornos de Personalidade Borderline e Transtorno Bipolar.
É motivo de discussão se os dois simultaneamente ocorrem dentro do mesmo corpo e mente e/ou se eles se fundem basicamente em um quadro mais complexo. As consequências de ter ambos os transtornos é excessivamente pior. A probabilidade de tentativa de suicídio é maior.

Todavia, em função dessa complexa relação entre as duas doenças que os investigadores Joanna McDermid e Robert McDermid sugerem em Janeiro de 2016 na edição da revista Current Opinion in Psychiatry que os dois transtornos somados devem ser considerados sob o termo “fragilidade emocional”.
McDermid & McDermid propõe que, da mesma forma, a instância de comorbidades de Transtorno Bipolar e Transtorno de Personalidade Borderline exige mais do que um tratamento individual para cada um.

O Transtorno Bipolar é tratado principalmente com medicação. Estabilizadores de humor são usados para ajudar a afastar a depressão e antipsicóticos atípicos são usados para tratar mania. Há outros medicamentos disponíveis e, na maior parte dos casos, uma combinação de medicamentos é necessária para alcançar o resultado necessário.

Atualmente não há medicamentos aprovados pelo FDA (órgão regulador de medicamentos e alimentos nos EUA) para o tratamento de Transtorno de Personalidade Borderline. O tratamento primário é a terapia. Existem diferentes tipos de terapia utilizados com foco em resultados diferentes: terapia cognitivo-comportamental, terapia comportamental dialética e terapia focada no esquema.

AINDA HÁ O QUE SE DIZER SOBRE AS DIFERENÇAS DE CADA TRANSTORNO:

As histórias de amor interrompidas, vividas por Bipolares, por exemplo, se diferenciam muito em relação às histórias de amor vividas por Borderlines. Obviamente, os Bipolares não estão isentos de serem traídos, humilhados, maltratados, etc., como qualquer pessoa normal para as leis da sociedade. Mas veja que muitos Bipolares ainda pensam em seus ex-parceiros e desejam reatar com eles um dia, ainda que agora vejam neles defeitos que antes eles não viam. Enquanto um Borderline veria o ex-parceiro que o traiu e/ou humilhou como um verdadeiro demônio, que só tem defeitos; e se o Borderline antes o queria, agora já não o quer. Os sentimentos do Borderline são volúveis. Instabilidade emocional (mudar de humor a cada segundo, a cada minuto), não saber direito o que quer – isso agora é bom! – isso agora é ruim! Ou seja, achar uma pessoa perfeita e depois a pior das pessoas, passando de Anjo a Demônio, sem haver meio-termo, sem haver transição, essas são características que dizem respeito essencialmente ao Borderline, ainda que possam nos lembrar bastante um Bipolar.

O Bipolar ainda pode amar o ex-parceiro que o traiu e/ou o abandonou – demostrando que, apesar das suas variações de humor, o Bipolar ainda sabe o quer e percebe que, se àquela pessoa não era perfeita, pelo menos não era tão mau assim… Já o Borderline agiria de outro modo.

Desse modo, já podemos imaginar que a identidade e o humor do Bipolar são diferentes do Borderline; e que o Borderline tem aquele pensamento extremista que divide as pessoas em dois tipos bem restritos. Para o Borderline a pessoa só continuará sendo boa se essa eternamente lhe servir.

“Não se odeia quando pouco se preza, odeia-se só o que está à nossa altura ou é superior a nós”. Friedrich Nietzsche

Diante as diferenças entre ambos os transtornos um médico qualificado precisará investigar para determinar o diagnóstico correto. Uma delas é o ciclo dessas mudanças de humor, mencionadas acima.

Embora os resultados diagnosticados exijam atenção para um tratamento adequado, quando esses dois transtornos atuam juntos em um mesmo individuo, tendem a ser excessivamente pior numa comparação do que com apenas um dos transtornos.
O uso de medicações que estabilizam o humor é imprescindível nesses casos. Diferentemente do que muitos pensam a instabilidade emocional não é somente do Transtorno Bipolar, mas de outros transtornos também, bem como nesse caso, onde os transtornos estão associados. Portanto, todo tratamento deve ser acompanhado por um profissional clínico, sendo indicado o psiquiatra, que é o profissional que tem autoridade para dar um diagnostico preciso.

 

REFERÊNCIAS:

Manual Diagnóstico Estatístico Transtornos Mentais DSM-5

A screening measure for BPD: The McLean screening instrument for Borderline Personality Disorder (MSI-BPD)

Vivendo a Vida com Borderline – Editora Fontanar

Temperamento Forte e Bipolaridade – 10ª Ed. Lara, Diogo Rizzato – Saraiva

Citações do artigo de Walmir Lelis Assunção

CORAÇÕES DESCONTROLADOS: Ciúmes, raiva, impulsividade – o jeito Borderline de ser

Artigo publicado em 25 abr 2017 | Este artigo tem 0 Comentário

 

Abordaremos nesse artigo, o tão debatido assunto: o mundo das aparências diante à realidade virtual. Uma trilogia sob o olhar dos três ilustres pensadores: Bauman, Nietzsche e Shakespeare.

O mundo contemporâneo é regido pelo estratagema da comunicação, provavelmente este seja o maior pilar erguido pela era da informação. Bauman, contextualizando Descartes, versa que para que haja existência – neste mundo tenebroso – é preciso, sobretudo, aparecer; propagandear-se, por assim dizer. ”Apareço, logo existo”. Quem não está presente nas Redes Sociais é como uma esponja, um sujeito paupérrimo, possivelmente um eremita. É preciso que se diga: o Facebook, muito mais do que refletir a nossa imagem, cria outro ser, indiferente ao que somos geralmente na vida tangível. A internet é um paraíso digital no qual podemos selecionar um mundo só nosso: somos mais bonitos, mais pacientes e mais inteligentes. Para fugir do inferno dantesco que é a realidade, basta uma espaçonave para o mundo digital. Quem topa a viagem?

Hamlet talvez seja o Personagem que mais ojerizaria ”o mundo contemporâneo das aparências”, afinal, como asseverou o Historiador Leandro Karnal, Hamlet é o anti-facebook. O personagem de Shakespeare odeia o mundo dos seres falastrões, indivíduos que se regozijam com o personagem que eles mesmo criam e chamam de ”eu”; a prova disso era o seu desprezo ao personagem mais falso da peça: Polônio. Nietzsche, também um assíduo leitor de Shakespeare, chama atenção para o descaso que nós temos com nós mesmos, a recusa que temos em conhecer o nosso interior, de tal maneira que não suportamos mais ficar sozinhos e erigimos, dessa forma, um cárcere sobre nós mesmos.

O falso amor de si mesmo transforma a solidão em prisão. Friedrich Nietzsche

O filósofo Esloveno Slavoj Zizek entende que cada vez mais a modernidade alimenta o mundo das aparências, de tal maneira que hoje não basta irmos a casa da vizinha que odiamos e dizer bom dia, é preciso pairar uma aparência de jubilo e felicidade . Não basta sorrirmos para uma foto em um dia em que preferimos ter uma corda pra se enforcar, é indubitavelmente importante que seja um sorriso sincero. A vida nos prepara para sermos atores em um mundo sem roteiro, em que tudo que sabemos é que precisamos Comprar e Sorrir. A frase trágica de Macbeth, personagem mais trágico de Shakespeare, traduz essa inconstância :

“A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre cômico que se empavona e agita por uma hora no palco, sem que seja, após, ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muita barulheira, que nada significa.”

Faríamos qualquer coisa para conseguir a aceitação dos outros? Um pacto com o demônio, um ”eu te amo” dissimulado, uma foto mostrando uma vida totalmente diversa da nossa? As perguntas são flechas certeiras que acertam o nosso peito. E se a psicanálise estiver certa e formos mesmo ”seres da falta”, então, porventura estamos perdidos? Não podemos viver sem ter que penhorar as nossas vidas à igreja, às drogas , à hipocrisia. Precisamos mesmo de um mecanismo de fuga, para que não lembremos de nossa limitação e da morte que nos persegue a cada dia? Cada um com a sua caverna escura e sombria.

Viver é ter de carregar nas costas os cadáveres de nosso passado: as inúmeras pessoas que já fomos e que hoje se perderam em uma memória cada vez mais escassa, aqueles amigos que foram e nunca mais voltaram, os que morreram biologicamente e os que morreram pra dar lugar a outro ser completamente diferente. Ficar sozinho é acender uma vela a cada um destes seres moribundos, que balbuciam em nossas costas, pedindo misericórdia e rezando para que tudo volte a ser como era antes. Não há mais volta, e nós dois sabemos disso, caro leitor. Mesmo que você remarque encontros com os amigos de infância, ao encontrá-los, você perceberá que não são mais os mesmos que brincavam com seus brinquedos no Jardim De Infância. Os desenhos não têm a mesma graça de quando éramos crianças.Talvez isso revele o porquê de querermos ficar sempre em multidões , temos medo do que podemos encontrar dentro de nós, medo desses cadáveres do passado. E, assim, nos tornamos uma presa fácil a um mundo de fingimento.

Falar muito de si mesmo também pode ser uma forma de ocultar-se, a frase é do Filósofo Bigodudo (Nietzsche), e ela revela a mais profunda ideia de manipulação, pois quando falamos de nós mesmos, também estamos selecionando o que falar, portanto, escondendo as margens diabólicas de nossas vidas, para evitar qualquer possível apedrejamento físico ou mental. Desconfie de pessoas que passam muito tempo falando de suas próprias vidas e de suas virtudes, elas provavelmente fazem isso por medo de que descubram a faca que as suas mãos seguram por detrás de suas costas. E voltando a peça de Shakespeare, Macbech, uma frase proferida por um de seus personagens é bastante elucidativa para concatenar os pontos, eis a frase:

“Não existe arte que ensine a ler no rosto as feições da alma.”

A menos que tenhamos habilidades similares as do Professor Xavier, não poderemos entender o que se passa na cabeça das pessoas. O que os olhares e sorrisos escondem por dentro – às vezes lágrimas, às vezes ódio – qualquer disfarce que nos furta o entendimento do que há por dentro das cascas sorridentes. Eu sugiro uma visita ao Oraculo de Delfos e uma leitura da frase pleonástica esculpida em sua entrada : “Conhece- te a ti mesmo”, frase socrática que nos convida a embarcar em um mundo perigoso, todavia, necessário – o mundo que há dentro de nós. E só depois tentar entender o significado dos sorrisos vazios.

Fonte:

Psicologia e Comportamento
Apareço, Logo Existo: O mundo das aparências por Bauman, Nietzsche e Shakespeare
Por Revista Pazes – Dezembro 19, 2016

Artigo publicado em 31 mar 2017 | Este artigo tem 0 Comentário

O presente artigo tem por objetivo abordar o Nascimento de um Psicopata.

“Eu não sabia o que fazia as pessoas quererem ser amigas. Eu não sabia o que as fazia querer ser atraentes umas para as outras. Eu não sabia o que eram interações sociais.”

“Eu não me sinto culpado por nada. Eu sinto pena de quem se sente culpado.”

“Eu sou o mais frio filho da puta no qual você já colocou seus malditos olhos. Eu não dou a mínima para aquelas pessoas.”

Essas assustadoras frases de Ted Bundy claramente resumem as principais características de um psicopata: uma pessoa insensível, manipuladora, sem empatia, impulsiva, e incapaz de sentir culpa ou remorso.

Quando falamos em criminosos psicopatas, logo nos vem a cabeça um sujeito completamente louco segurando uma moto-serra na mão. Filmes, séries e até reportagens de TV tendem a mostrar aos espectadores que toda pessoa que comete um crime hediondo é um psicopata. Mas muitas das vezes, o assassino tachado de psicopata pela sociedade cometeu seu crime durante um surto psicótico, e psicose e psicopatia são duas coisas completamente distintas. Psicose e psicopatia são diferentes tipos de transtornos mentais. Psicose é a completa perda do senso de realidade, já a psicopatia é um transtorno de personalidade, assim como o transtorno de personalidade narcisista. Os transtornos de personalidade são permanentes enquanto que as perturbações psicóticas podem ser controladas mediante administração correta de medicamentos neurolépticos.

Psicopatas são calculistas e manipuladores, mas diferentemente dos psicóticos, eles não sofrem de alucinações ou delírios. Eles não ouvem vozes de estranhos em suas cabeças dizendo sobre elaboradas teorias conspiratórias. Muitos assassinos em série tem como principal motivação para seus crimes os delírios, muitos bizarros, decorrentes de uma perturbação psicótica. O serial killer Carl Eugene Watts estrangulou várias mulheres porque ele viu o mal em seus olhos. Belle Sorenson Gunnes matou seus maridos porque ela acreditava que eles eram homens demoníacos. Ed Gein mutilou, esfolou e esviscerou corpos porque ele queria ser uma mulher e acreditava que ele precisava de partes de corpos femininos para ser uma (ou talvez para fazer uma réplica de sua mãe). Richard Trenton Chase bebia e se banhava no sangue de suas vítimas. Ele acreditava que tinha que fazer isso para evitar que os nazistas transformassem seu sangue em pó com um veneno que eles escondiam debaixo de uma saboneteira. Joseph Kallinger embarcou numa missão homicida após receber ordens de uma cabeça flutuante chamada Charlie.

Mais uma vez, psicose e psicopatia são dois transtornos mentais completamente diferentes, e saber diferenciá-los é importante para a não proliferação do falso conhecimento.

O Nascimento de um Psicopata
As causas da psicopatia permanecem um mistério. Nós não temos sequer uma resposta satisfatória para a questão: A psicopatia é um produto da mãe natureza ou da infância?

Uma tentativa de dar uma resposta a essas questões vem com a criminologia biossocial, uma perspectiva interdisciplinar emergente que procura explicar o crime e comportamentos anti-sociais através de múltiplos fatores, dentre eles: os fatores genéticos, neuropsicológicos, ambientais e evolutivos. Nos últimos anos houve, de certa forma, um renascimento dos estudos nessa área; estudos estes mais sofisticados e com capacidade de analisar o poliformismo genético e o funcionamento cerebral de psicopatas. Tais estudos tem como principio entender como os fatores biológicos e genéticos interagem com o ambiente e conduzem a diferentes propensões para o comportamento anti-social. A criminologia biossocial sustenta que os efeitos biológicos e genéticos são reduzidos, ou até mesmo inexistentes, a menos que estejam emparelhados com um ambiente criminogênico (ex.: disfuncionalidades familiares). Os genes, portanto, não seriam de todo deterministas, porém, indicariam a probabilidade do sujeito apresentar comportamentos anti-sociais.

Caminhando para a área da genética, existem três campos de estudos que visam investigar a relação da genética/ambiente na formação de uma mente psicopata: estudos com gêmeos, estudo com adotados e estudos em genética molecular. Tais estudos são ponderados com as influências do ambiente compartilhado (ambiente comum a todos os irmãos de uma família), do ambiente não compartilhado e da hereditariedade. Hoje, a principal conclusão desses estudos é de que a combinação entre predisposição genética + ambiente criminogênico teria como resultado o comportamento anti-social.

O “Estudo de Gêmeos Criados Separadamente de Minnesota” foi um projeto originalmente liderado pelo professor de psicologia Thomas Joseph Bouchard Jr. e mostrou que a psicopatia é 60% hereditária. Esse percentual indica que traços psicopáticos são mais associados ao DNA do que à criação.

Outros recentes estudos genéticos de gêmeos indicam que gêmeos idênticos podem não ser tão geneticamente similares, como até então acreditava-se. Apesar de apenas algumas centenas de mutações ocorrerem durante o desenvolvimento fetal, elas provavelmente se multiplicam ao longo dos anos, levando a enormes diferenças genéticas. Isso deixa aberta a possibilidade de que traços psicopáticos são, em grande parte, determinados geneticamente.

As Raízes da Psicopatia
Publicado em 2008, o estudo Criminals in the Making, dos criminólogos John Wright, Stephen Tibbetts e Leah Daigle, indicou que tanto a estrutura cerebral como o seu funcionamento estariam envolvidas na etiologia da violência, agressão, crime, e até mesmo da psicopatia. Em outras palavras, a estrutura e a forma como o cérebro de algumas pessoas funcionam seriam o segredo para entender o comportamento violento e até mesmo as origens da psicopatia.

Nesse sentido, e tomando outros estudos como referência, duas áreas cerebrais parecem estar consistentemente envolvidas quando pronunciamos o nome psicopata: o sistema límbico (composto pela amígdala, hipocampo e tálamo) e o córtex pré-frontal.

O córtex pré-frontal e o sistema límbico.
O córtex pré-frontal e o sistema límbico. Foto: guia.heu.nom.br

O sistema límbico é essencial para a regulação de nossas emoções mais complexas e de nossos estados afetivos e motivacionais. Ele estaria relacionado à psicopatia através da criação de certos impulsos, como por exemplo, a raiva e o ciúme, que são facilitadores para a prática de atos violentos.

O córtex pré-frontal, uma região cortical na parte frontal do cérebro, é o responsável pelas funções de ordem superior executivas, como por exemplo, a capacidade de adiar a gratificação e controlar os impulsos. Ele é uma estrutura interligada com o sistema límbico, sendo o córtex pré-frontal o responsável por reprimir os impulsos gerados a partir das estruturas límbicas.

Segundo alguns estudos, um sistema límbico hiperativo mais um córtex pré-frontal hipoativo seria a combinação perfeita para o desenvolvimento da psicopatia.

Esta anormalidade foi identificada em um estudo da Universidade de Wisconsin. Scans cerebrais revelaram que a psicopatia em criminosos estava associada a uma diminuição da conectividade entre a amígdala, uma estrutura subcortical do sistema límbico que processa estímulos nocivos, e o córtex pré-frontal, que interpreta a resposta da amígdala. Quando a conectividade entre essas duas regiões é baixa, o processamento de estímulos nocivos na amígdala não se traduz em nenhuma emoção negativa sentida. E isso se encaixaria muito bem na imagem que temos de psicopatas. Eles não se sentem ansiosos ou envergonhados quando são pegos fazendo algo ruim. Eles não ficam tristes quando outras pessoas sofrem. Apesar de sentir dor física, eles não estão numa posição de se machucarem emocionalmente.

O estudo da Universidade de Wisconsin mostra uma correlação entre psicopatia criminal e anormalidade no cérebro. Como essa anormalidade cerebral, na maioria dos casos de criminosos psicopatas, não é adquirida, há uma boa razão para pensar que ela está fundamentada no DNA do indivíduo.

À mesma conclusão já havia chegado o neurocientista norte-americano Jim Fallon, que nos anos 90 conduziu estudos com psicopatas assassinos.

“Um certo grupo [assassinos] tinha sempre uma lesão no córtex orbitofrontal, acima dos olhos. Outra parte que parecia não funcionar bem era a parte frontal do lobo temporal que abriga a amígdala, o local onde nossas reações se tornam diferentes das dos animais”, disse Fallon no documentário What Make Us Good or Evil, da rede britânica BBC.

Cada vez mais surgem evidências de que o cérebro dos psicopatas apresentam alterações, sobretudo no que remete ao córtex pré-frontal. Algumas pesquisas com ressonância magnética trouxeram resultados incríveis, que mostram que indivíduos com transtornos de personalidade anti-social apresentam redução de 11% (em média) da massa cinzenta pré-frontal, e isso é significativo já que o córtex pré frontal é uma área associada a sentimentos de vergonha, culpa, constrangimento (uma adequação social). Como demonstrado nessas pesquisas, os psicopatas apresentam uma menor quantidade de matéria cinzenta no córtex pré-frontal e por consequência as respostas sociais não podem ser iguais das pessoas com o córtex pré-frontal “normal”. Isso não pode ser levado como uma verdade absoluta, mas de acordo com essa perspectiva um psicopata apresentaria menor resposta autonômica a um estressor social por ter menor quantidade de matéria cinzenta no córtex pré-frontal.

Em assassinos foi verificado que existe uma redução no metabolismo da glicose no córtex pré-frontal, isso indica que essa estrutura cerebral atua como “freio” para os impulsos gerados no sistema límbico.

Há, no entanto, algumas limitações nesses estudos. Eles foram realizados com psicopatas que cometeram crimes de assassinato, e sabemos muito bem que a maioria dos psicopatas não são assassinos. Sabemos que psicopatas são manipuladores, agressivos, impulsivos, e que não sentem empatia por outras pessoas, entretanto, tais características estão longe de conduzí-los ao assassinato. Nesse sentido, e quando pronunciamos a palavra psicopata, temos níveis de atuação criminal extremamente diversificados. Psicopatas podem não matar (diretamente), mas podem desviar dinheiro de hospitais públicos, praticar o crime de burla… E isso faz surgir uma pergunta: Os psicopatas com manifestação mais tênue da perturbação teriam também essa atividade entre a amígdala e o córtex pré-frontal reduzida? Não há resposta. Outra limitação do estudo é que ele não mostra se a redução da interatividade entre a amígdala e o córtex pré-frontal é uma deficiência especificamente ligada à psicopatia. E as condições mentais que têm sido associadas a crimes graves, como a esquizofrenia paranóide e os fetiches sexuais extremos?

Embora os estudos, como o de Wisconsin, lancem alguma luz sobre as origens da psicopatia, ela permanece intrigante.

Indo ao outro extremo, alguns especialistas tem discutido formas de ensinar psicopatas a, digamos, ser mais humanos.

Elsa Ermer e Kent Kiehl, da Universidade do Novo México, em Albuquerque, descobriram que psicopatas têm dificuldades em seguir regras baseadas na sensibilidade moral, apesar de compreendê-las perfeitamente. As emoções reprimidas de psicopatas parecem desempenhar um papel que os impede de seguir regras. Mas essa deficiência, possivelmente, é corrigível. Sabemos que pessoas com transtorno do espectro autista têm dificuldades em captar regras sociais ou fazê-las da maneira correta em determinados contextos sociais. Mas eles podem aprender. Por exemplo, eles podem aprender a fazer contato olho no olho, aprender a realizar contatos de forma indireta, podendo assim aprender a manifestar interesse em outras pessoas. Às vezes, isso requer anos de treinamento com um terapeuta ou profissional da saúde. Eles têm que aprender a fazer o que os outros sabem instintivamente pela interação com membros da família e colegas. Se as pessoas com alto grau de autismo, uma doença hereditária, podem aprender os sinais sociais, então, presumivelmente, alguns psicopatas poderiam aprender a seguir regras morais, passando por um treinamento intensivo. Um tipo de experimentação poderiam ser programas de treinamentos que aumentassem artificialmente o processamento de emoções negativas e, em seguida, ensiná-los a associar essas emoções negativas com más ações, moralmente inaceitáveis. Para isso, alguns especialistas já sugeriram o uso de alucinógenos, como o psilocybin.

Genes do Mal e o Fator Ambiente
Estudos de terceira geração em genética levantam a questão de quais genes poderiam estar envolvidos na predisposição do comportamento anti-social. Algumas respostas começaram a surgir através da genética molecular. Quando realizado o knockout do gene da monoamina-oxidase A (MAO-A) em ratos, esses tornaram-se potencialmente agressivos. O knockout, em termos de genética, significa desativar um gene para observar que tipo de alterações isso pode acarretar e, consequentemente, determinar a nível de genótipo qual a designação daquele gene. Pesquisas da área retratam a ligação do gene MAO-A com a agressividade, e nas experiencias com ratos, quando o gene MAO-A é desativado, ele se torna mais agressivo. Quando voltam a reativar o gene, o ratinho passa a ter novamente um comportamento normal. Isso significa que esse gene tem relação direta com a agressividade, e uma variação dele poderia ocasionar o aumento de agressividade. Um dos estudos que previu essa ligação foi o “Monoamine oxidase gene A (MAOA) prevê comportamento agressivo diante de provocação”. Segundo os autores do estudo, a baixa atividade do gene MAO-A poderia levar a uma pré-disposição para um comportamento agressivo e desproporcional diante de situações onde o indivíduo é provocado.

Entretanto, o desafio maior da terceira geração de estudos genéticos não é apenas identificar quais os genes envolvidos na psicopatia, e sim como esses genes codificam os transtornos cerebrais nos grupos de anti-sociais. Sujeitos com polimorfismo comum no gene MAO-A apresentam 8% de redução no volume da amígdala, no giro do cíngulo anterior (região do sistema límbico) e no córtex pré frontal, estruturas envolvidas nas emoções e que em sujeitos anti-sociais estão comprometidas. A hipótese é a de que anormalidades genéticas também desencadeiam anormalidades a nível cerebral.

É evidente que, muito embora já se consiga hoje relacionar o crime com predisposição genética, os processos psicossociais não podem ser desconsiderados. Fatores ambientais no inicio do desenvolvimento poderiam alterar de forma direta a expressão do gene, e com isso alterar também a estrutura cerebral, resultando assim no comportamento anti-social.

Em suma, o ambiente social pode interagir com os indicadores genéticos e biológicos, mas considera-se também que o comportamento violento e criminal aumenta significativamente quando combinado esses dois fatores, o risco biológico e o risco social.

Nós não podemos excluir que o abuso na infância ou negligência possam ser um fator desencadeador para a psicopatia, mas isso não é um fator que contribui para ser um psicopata. Além disso, apesar de criminosos como Charles Manson terem sido abusados e negligenciados quando crianças, a lista de psicopatas serial killers que tiveram uma infância normal é infinita. Serial killers famosos como Ted Bundy, Jeffrey Damer e Dennis Rader cresceram em famílias normais e com apoio.

A verdade é que ainda estamos longe de uma resposta definitiva sobre as origens da psicopatia, e no pior dos casos, o que leva um psicopata a se tornar um assassino e, indo mais a fundo, a resposta científica para a aberração mental chamada serial killer. Serial killers são casos tão extremos que é natural para nós perguntar se essas pessoas não possuem defeitos cerebrais. Sem uma resposta definitiva, nós podemos apenas supor, assim como fez Harold Schechter, em seu livro Serial Killers – Anatomia do Mal:

“Parece provável que tanto a educação como a natureza podem contribuir para a criação de serial killers”.

Fontes consultadas:
[1] Minnesota Center for Twin & Family Research;
[2] Psychology Today (Identical Twins are not Genetically Identical);
[3] Department Of Psychiatry, University of Wisconsin-Madison (Reduced prefrontal connectivity in psychopathy);
[4] What Make Us Good or Evil? (Documentário BBC);
[5] The Economist (Socially challenging);
[6] Crime biológico: Implicações para a sociedade e para o sistema de justiça criminal (Adrian Raine);
[7] Wright, J.P.& Tibbetts, S.G.& Daigle, L.E., “Criminals in the Making: Criminality across the Life Course”, 2008;
[8] Caspi A, McClay J, Moffitt TE, Mill J, Martin J, Craig IW, et al. Role of genotype in the cycle of violence in maltreated children. Science. 2002;
[9] Schmidek R. Werner, Cantos A. Geny. Evolução do Sistema Nervoso, Especialização Hemisférica e Plasticidade Cerebral: Um Caminho Ainda a Ser Percorrido. USP. 2008.
[10] Schechter, Harold. Serial Killers – Antomia do Mal. DarkSide Books. 2013.
[11] Patrick J., Christopher. Handbook of Psychopathy. The Guilford Press. 2007.
[12] McDermott R, Tingley D, Cowden J, Frazzetto G, Johnson DD. Monoamine oxidase A gene (MAOA) predicts behavioral aggression following provocation. 2009.

Artigo publicado em 26 fev 2017 | Este artigo tem 0 Comentário

 

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O presente artigo tem o propósito de elucidar o Transtorno de Despersonalização e Desrealização. Portanto, trataremos aqui de uma abordagem concisa do caso.

A despersonalização, ou sensação de estranhamento em relação a si mesmo, é um fenômeno intrigante e, até o momento, pouco investigado. Os sintomas de despersonalização – que incluem desrealização, deafetualização e alterações nas recordações subjetivas – podem se manifestar em forma de episódios transitórios, fazer parte da apresentação de transtornos neuropsiquiátricos ou ocorrer de forma primária, no transtorno de despersonalização e desrealização.

Pessoas com transtorno despersonalização descrevem um sentimento de desapego com a realidade, como se fossem robôs vivendo em “modo automático”, com ausência de emoções, boas ou más.

Nas áreas da psiquiatria e da psicologia, a despersonalização é entendida como uma desordem dissociativa, caracterizada por experiências de sentimentos de irrealidade, de ruptura com a personalidade, processos amnésicos e apatia. Pode ser um sintoma de outras desordens como transtorno bipolar, transtorno de personalidade borderline, depressão, esquizofrenia, estresse pós-traumático e ataques de pânico.

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