Artigo publicado em 31 mar 2019 | Este artigo tem 0 Comentário

INTRODUÇÃO

Doença mental e criatividade não são categorias mutuamente excludentes; ao contrário, freqüentemente estão associadas. Afinal, criar significa escapar de padrões habituais, inovar, surpreender. Ora, essas características podem muito bem ser aplicadas à doença mental, a tal ponto que, para alguns artistas, são inseparáveis. O grande pintor norueguês Edvard Munch (autor do famoso O grito) era psicótico; admitia-o, mas temia que o tratamento pudesse reduzir ou suprimir seu potencial. A pergunta, pois, se impõe: existe um denominador comum entre criatividade e doença mental? A dúvida não é de hoje. Já havia sido formulada por Aristóteles, no famoso Problema XXX: “Por que razão todos os que foram homens de exceção no que concerne à filosofia, à poesia ou às artes são manifestamente melancólicos?”.

Duas doenças têm sido associadas ao processo de criação artística: a esquizofrenia e a doença bipolar. No caso específico da literatura, contudo, a conexão parece se limitar aos bipolares. O processo de elaboração mental de esquizofrênicos, com freqüência manifesto nas artes plásticas, como mostra a notável coleção de obras de pacientes reunida por Nise da Silveira, parece ser alheio ao da criação literária, já que implica uma dificuldade de interação com o mundo. Diferentemente do jornalismo, a essência da literatura não reside na comunicação, mas é preciso um mínimo de diálogo entre escritor e leitor. No caso do bipolar essa comunicação atende a uma necessidade. Como diz o psiquiatra inglês Anthony Storr em The dynamics of creation (A dinâmica da criação), os bipolares precisam de atenção e de aprovação, como os escritores.“Read me, do not let me die”(“Leia-me, não me deixe morrer”), implora a poeta americana Edna St.Vincent Milay (1892-1950). O reconhecimento de leitores, mesmo que poucos – Gustave Flaubert dizia que 100 leitores eram para ele mais que suficientes –, representa um reforço na auto-estima.
As fases da doença bipolar favoreceriam o processo de criação literária, uma vez que correspondem à alternância característica da atividade do escritor: um período de “recolhimento”, de elaboração de idéias, seguido de um período de produção (inspiração e transpiração). É claro que isso só funciona nos casos mais moderados, em que a mania não é acompanhada de manifestações agressivas, mas é, antes, aquilo que se conhece como hipomania, um estado no qual a pessoa se sente “energizada” e pode trabalhar com entusiasmo.

Honoré de Balzac, para Storr, era um bipolar típico. Nas fases mais produtivas, o escritor jantava às 6 da tarde, dormia até a 1 da manhã, levantava, trabalhava durante toda a madrugada, parando para tomar café, descansar e receber visitas. Não é de admirar que tenha escrito a gigantesca obra que é a Comédia humana. Nos períodos depressivos, contudo, pensava em suicídio, fim de escritores como Virginia Woolf e Ernest Hemingway.

A escritora inglesa teve uma vida atormentada por surtos depressivos que pareciam não afetar sua criatividade mas a levaram a entrar no rio Ouse com pedras nos bolsos de seu casacão para se afogar. Já Hemingway viveu numerosas aventuras pelo mundo, escreveu obras de enorme sucesso, mas tinha de lutar sempre contra a depressão, que também o levou à morte. E eles não foram os únicos. Entre os escritores diagnosticados – em geral depois de mortos – como bipolares estão Hans Christian Andersen, F. Scott Fitzgerald, Nicolai Gógol, Graham Greene, Henrik Ibsen, Joseph Conrad, Herman Melville, Mary Shelley e Robert L. Stevenson. A pergunta de Aristóteles não foi ainda plenamente respondida. Mas aceitar que doença mental e talento são compatíveis já é um grande progresso.

REFERÊNCIAS

Site Institucional: Editora Segmento
Grupo Conhecimento: SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL MENTE & CÉREBRO
2016 Site Scientific American Brasil – Mente Cérebro – Editora Segmento

Artigo publicado em 27 fev 2019 | Este artigo tem 0 Comentário


Depressão, euforia

Este artigo aborda, da euforia a melancolia. Tipos de estados diferentes, porém, pode aparecer de forma isolada um sintoma do outro e/ou ambos associados.

A melancolia é um estado de tristeza vaga, de desgosto da vida, de propensão habitual ao pessimismo. É um estado psíquico de depressão sem causa específica que tem por característica a falta de entusiasmo e de predisposição para atividades em geral. Como todos os estados depressivos a melancoliapode e deve ser diagnosticada por psiquiatras e psicólogos para tratamento correto.

Segundo o DSM IV para diagnosticar a melancolia são necessários:

a) Pelo menos um dos dois sintomas: 1- Falta de prazer nas atividades diárias; 2- Desânimo como reação a um estimulo agradável que em geral causaria prazer.

b) Pelo menos três dos seguintes: 1- A falta de prazer e desanimo não estão relacionadas a um fato real que causaria tristeza natural (como no caso da morte de um próximo); 2- A depressão é agravada na parte da manhã; 3-. O despertar é adiantado pelo menos em duas horas em comparação ao usual; 4- Profunda agitação psicomotora ou languidez intensa; 5- Perda de peso significante ou anorexia; 6- Sentimento de culpa constante e inapropriado.

A euforia, ao contrário, é uma sensação de alegria intensa, agitada, exagerada, expansiva, contagiante.

Uma pessoa eufórica é muito ativa e entusiasmada, ficando sempre ansiosa quando nesse estado.

Podemos mudar instantaneamente de uma sensação, normal, de alegria para uma sensação, normal, de tristeza, e vice-versa. Não acontece o mesmo, porém, quando se trata de um estado típico de melancolia para um estado típico de euforia.Da melancolia à euforia há uma grande distância que implica em fatores e fundamentos complexos, muitos dos quais ainda não explicados cientificamente: a natureza da pessoa, sua formação educacional, seu estilo de vida, suas convicções, relacionamentos, etc.Podemos considerar que: tanto a melancolia como a euforia podem afetar o nosso equilíbrio emocional e prejudicar o nosso bem viver; a superação de uma e de outra depende muito da conscientização a respeito do problema, além de um tratamento adequado.

REFERÊNCIAS

Autora, Luzziane Soprani

FERREIRA, Luiz Gonzaga S.  – Melancolia e Euforia 

DEPRESSÃO, MELANCOLIA E MANIA SOB A ÓPTICA PSICANALÍTICA

Artigo publicado em 31 jan 2019 | Este artigo tem 0 Comentário

INTRODUÇÃO

Este artigo aborda o fim da vida humana, bem como o luto, inerente à condição humana. “A morte em nossa cultura simboliza a perda e a dor. Mas em culturas orientais, e mesmo latinas e ancestrais, como no México, a morte é celebrada, ritualizada, apesar de dolorosa. Ela é, simultaneamente, um tempo e espaço caracterizado por demonstrações de solidariedade e carinho, além de reafirmação de laços entre as pessoas e da coletividade. O luto consegue, dessa forma, cumprir seu papel e seu tempo.”

“Não há problema que uma falta de solução não resolva”. Se para tudo houvesse remédio, seria possível traduzir completamente a essência de cada um no outro, num remédio, numa bula que nos decifrasse perfeitamente, numa tecnologia. A posição psicanalítica é de que a vida não tem remédio para a dor psíquica”. (Jorge Forbes). Isto implica dizer que diante a perda daquele que nos afeta de afeto, não há solução de representação material e/ou física. Assim, nos resta vivenciar a dor do luto pelo tempo que for necessário.

O processo de luto está, inegavelmente, presente na dinâmica entre os dois polos da existência humana: a vida e a morte.
O luto é caracterizado como uma perda de um elo significativo entre uma pessoa e seu objeto, no entanto, é um processo mental natural e constante durante a existência humana.
“O luto é o preço que se paga pelo amor”, está frase esclarece muito bem esse processo de dor do ser humano. Essa dor não deve ser negligenciada, ao contrário, ela precisa ser elaborada para que a pessoa possa atravessar o luto, ressignificar e voltar a investir em sua vida.

DO TEMPO: TRISTEZA X DEPRESSÃO

Não é verdade que “tristeza não tem fim”. Não há vida sem tristeza, porque não vivemos sem perder. Aquilo que gostaríamos de guardar perto de nós ou ter sob nosso controle para sempre! Quando perdemos àquele que nos importa somos tomados pela tristeza – entramos no processo de luto, sentimos falta, lamentamos a ausência, ficamos com um vazio, um aperto no coração, uma dor dilacerante que marca no peito.
Não existe um tempo necessário para cumprir o luto. Cada pessoa reage de maneira diversa. A reação ao luto é subjetiva e cada pessoa vai precisar de um tempo diferente para elaborar sua perda. Podemos pensar que há tantos tipos de luto quanto o número de pessoas no planeta. Para o reconhecimento de uma depressão no luto o mais importante é a apresentação psicopatológica, a intensidade dos sintomas e comprometimento da vida pessoal e funcional do enlutado.
Nesse contexto, por se tratar de um evento constante, acaba implicando diretamente no trabalho de profissionais da saúde, tomando-se um conhecimento necessário para o amparo adequado àqueles que sofrem a perda.

O luto é um processo lento e doloroso, que tem como características uma tristeza profunda, afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre o objeto perdido, a perda de interesse no mundo externo e a incapacidade de substituição com a adoção de um novo objeto de amor (FREUD, 1915).

O LUTO NA CRIANÇA

O luto na criança pode ser bem diferente. Pode acontecer mudança de comportamento, atitude de oposição, sintomas físicos diversos e fantasias com questões de morte e ideia de abandono, por exemplo. Em hipótese alguma podemos afirmar que a criança atravessa o luto melhor que o adulto, pois isso não é uma verdade absoluta. Geralmente, muito se ouve falar que a criança atravessa mais facilmente o processo de luto em função da idade, e que logo esquecerá, mas isso é um erro grave. As crianças sofrem muito com a perda de um ente querido, muitas vezes silenciadas. A criança enlutada sofre complicações psíquicas com o luto familiar, tornando-se mais intenso quando é de um membro da família, como o pai, a mãe e/ou irmãos. É importante conscientizar o cuidador a relevância de sua mediação para o enfrentamento do luto pela criança. Pois, quando do elo cortado com seu ente querido, há que se observar para não se tornar um adulto melancólico e/ou eufórico, dentre outros sintomas.

CONCLUSÃO

Algumas pessoas reagem melhor que outras, algumas têm um luto muito prolongado, e algumas desenvolvem um luto tardio, desenvolvendo sintomas muito tempo após a perda, e não no início do processo. A dor da despedida inevitavelmente terá que ser vivida durante o processo de luto para que, no decorrer do tempo, a pessoa se reencontre novamente consigo, com a vida e retome a sua história. Mas não podemos esquecer que cada um tem seu tempo.

REFERÊNCIAS

Autora, Luzziane Soprani

FRANCO, José Anibal Torri – A dor do luto não deve ser camuflada, O Globo,
O conceito psicanalítico do luto: uma perspectiva a partir de Freud e Klein – Psicol inf. vol.17 no.17 São Paulo dez. 2013

Artigo publicado em 23 dez 2018 | Este artigo tem 0 Comentário

INTRODUÇÃO

Este artigo, retrata a eterna insatisfação do ser humano. Não há bem que satisfaça a condição humana. Portanto, sabemos que, inegavelmente, as pessoas passarão a vida retroalimentando o que não conseguirão preencher e/ou satisfazer, haja vista todos os dias, gradativamente, estamos envelhecendo e em constante mutação. 

“Lacan dizia que a única coisa da qual se pode ser culpado, pelo menos da perspectiva analítica, é de ter cedido do seu desejo (LACAN, 1991, p. 385). Mas que desejo é esse de que falava Lacan? Será o desejo sexual de que também falava Freud em nossos sonhos, mesmo de maneira camuflada?”

A beleza, por exemplo, está inteiramente ligada à sexualidade. Desde a teoria do recalque, Freud mostra que os humanos não acham belos seus órgãos sexuais, pois a excitação sexual se opõe à finitude e à delimitação da beleza. Por outro lado, sendo a Psicanálise a teoria sobre a sexualidade e o prazer, Freud se viu obrigado a refletir sobre o Belo determinado pelas “qualidades do sentir”, ocupando-se, assim, não apenas com o agradável e prazeroso, mas com o desagradável e aflitivo. Desde o chamado da clínica, Freud se viu levado, como nenhum outro pensador, a confrontar-se com o medo, com a repulsa e com o horror.

DO DESEJO

O desejo e o imediatismo da contemporaneidade, estabelece uma norma de sucesso que inclui o Belo em seu aspecto imediato. A sociedade contemporânea com tecnologias de ponta e tantas outras ofertas – têm a pretensão em evitar: o desprazer, as dores, bem como o desagradável e o repulsivo de envelhecer. Desencadeando uma psicopatologia de “ser proibido envelhecer” – considerado não apenas inútil, como nocivo.

Nessa arte de compor o Belo no qual o corpo aparece cada vez mais insignificante e instável, coloca-se o Belo ao lado do prazeroso – envelhecer, então, é visto como indesejável! – Com as propostas e ofertas midiáticas  pode ser eliminável. Daí os esforços sem medida para modificar os aspectos feios dos corpos e das aparências que vão se modificando ao longo dos anos.

ENVELHERCER DIGNINAMENTE

Envelhecer com dignidade é o mínimo que podemos conceber. Atividades físicas, bem como cuidados com a saúde faz parte de envelhecer saudável. Mas parece que a aparência, e, também, a correção plástica imediata é tão grave e importante para as pessoas como tratar de uma dor de cabeça crônica!

Freud destacou – a teoria das pulsões e a produção do desejo – desse modo, há que se pensar o que são para nós: o Belo, o Feio, o Sublime, mas também o Caricato e, especialmente, a Repulsa.

DA PSICANÁLISE

Os psicanalistas podem ajudar o analisando a encontrar a causa dos seus sintomas, que, causam repulsa, ódio, mágoas, dentre tantos outros sentimentos que os pune. Assim, podemos compreender que o sujeito que passa pelo processo de análise – adentra os meandros da sua psique – desse modo, passam a ter ciência do seu eu subjetivo, que causam os conflitos inconscientes. Entretanto, não existe cura para todas as mazelas humanas, mas no processo de análise as pessoas têm uma experiência emocional corretiva – o que os leva a compreender as suas dores e ressignificá-las.

Em uma sociedade, que se experimenta cortar e eliminar imediatamente o que não é prazeroso de se ver, quando se coloca a aparência à frente da essência – para que se possa acompanhar, sobretudo, a mídia contemporânea – cheias de técnicas e imediatismos – tem que se situar também diante do que é instável, repulsivo e inútil. Assim, o prazer de ser Belo e das aparências, rodeiam-nos, incansavelmente, as sombras que constituem o mal-estar dos humanos.

DO EROTISMO – “ERÓTICA É A ALMA”

“Todos vamos envelhecer… Querendo ou não, iremos todos envelhecer. As pernas irão pesar, a coluna doer, o colesterol aumentar. A imagem no espelho irá se alterar gradativamente e perderemos estatura, lábios e cabelos. A boa notícia é que a alma pode permanecer com o humor dos dez, o viço dos vinte e o erotismo dos trinta anos. O segredo não é reformar por fora. É, acima de tudo, renovar a mobília interior: tirar o pó, dar brilho, trocar o estofado, abrir as janelas, arejar o ambiente. Porque o tempo, invariavelmente, irá corroer o exterior. E, quando ocorrer, o alicerce precisa estar forte para suportar. Erótica é a alma que se diverte, que se perdoa, que ri de si mesma e faz as pazes com sua história. Que usa a espontaneidade pra ser sensual, que se despe de preconceitos, intolerâncias, desafetos. Erótica é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o bom humor apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima dos lábios. Erótica é a alma que não esconde seus defeitos, que não se culpa pela passagem do tempo. Erótica é a alma que aceita suas dores, atravessa seu deserto e ama sem pudores. Aprenda: bisturi algum vai dar conta do buraco de uma alma negligenciada anos a fio”

CONCLUSÃO

Em suma, para além da dimensão inconsciente de nosso desejo que não nos tira a responsabilidade dele, a questão que nos coloca Lacan, “Agiste conforme teu desejo?”, também nos coloca diante da responsabilidade pelo mal estar que advém da falta e/ou incompletude, a qual nenhum, bem, posse, ou realização humana será capaz de eliminar, pois é a partir dela mesma que nos tornamos humanos.

REFERÊNCIAS

Autora Luzziane Soprani 

Este artigo se trata de uma releitura do artigo publicado em 28 de outubro de 2013, com o tema: O Desejo e a Incompletude no Belo

Citação do livro (“Erótica é a Alma”) de Adélia Prado