Artigo publicado em 24 out 2015 | Este artigo tem 68 Comentários

image

“Se eu pudesse, pegava a dor; colocava a dor dentro de um envelope e devolvia ao remetente.” Mario Quintana

RESUMO

O presente artigo tem como objetivo abordar o conceito de fibromialgia, bem como a sintomatologia dolorosa, destacando a relevância desta alteração no campo da saúde. Trata-se de uma revisão, realizada por meio de consulta a artigos científicos. A fibromialgia se caracteriza como uma síndrome que possui como principal sintoma a dor sem causa orgânica especifica. Para um tratamento adequado deve-se buscar um médico especialista. A forma de avaliação da patologia, ocorre através de exames clínicos no consultório médico. Portanto, as pesquisas relacionadas à fibromialgia buscam o entendimento e aprofundamento desta patologia, para que se possa traçar o entendimento mais adequado, a fim de proporcionar qualidade de vida.

“A dor parece uma ofensa à nossa integridade física.” Clarice Lispector

Um corpo sempre será para o sujeito uma “coisa” sua. Assim, para viver cada ser depende habitar um corpo. Desse modo, as paixões, afetos, ideias, são consideradas pelo princípio da filosofia clássica, a localização das mazelas humanas – mencionadas a partir de um corpo – como função de suporte necessário. A análise do corpo constitui uma relação de pertinência entre o existir e sua materialidade. Esse é o âmago de grandes questões que ultrapassam o tempo, a cultura, à vida, o nascimento, à morte e, também, um tema intrínseco à psicanálise: a sexualidade.

Neste artigo abordaremos a dor física e psíquica sem causa orgânica. Enunciaremos aqui, uma síndrome que não se encontra causa orgânica específica – e, assim, a chamaremos de “a doença da alma”. A síndrome cuja as dores crônicas sem causalidade orgânica constatável, são fonte de sofrimento para pacientes e um desafio para os profissionais da medicina. Esta síndrome está localizada na fronteira entre a reumatologia e a patologia psicossomática, com comorbidade de transtornos e uma degradação da qualidade de vida no plano profissional, social e familiar.

“O umbral de estimulação requerido para transformar um estímulo sensorial em uma possível ameaça está significativamente rebaixado na Fibromialgia, sendo uma das características principais do processo neurobiológico, que afeta de forma extensa todo sistema e pode converter informações subclínicas em sensações desagradáveis em diferentes partes corporais.” (Collado, A., 2008, p. 517-518).

A fibromialgia é uma síndrome clínica que se manifesta com dor no corpo todo, principalmente, na musculatura. A síndrome cursa com sintomas de fadiga, intolerância ao exercício e sono não repousante – a pessoa acorda sempre cansada. Os médicos classificam a fibromialgia como uma síndrome, porque caracteriza um grupo de sintomas sem que seja identificada uma causa específica.

Não existe uma causa única conhecida para a fibromialgia, mas existem alguns sinais para identificá-la. Os estudos mais recentes mostram que pacientes com fibromialgia apresentam maior sensibilidade a dor do que outros que não têm a doença. Isso não está relacionado com o fato de se ser “forte” ou “fraco” com relação a dor. Na realidade, funciona como se o cérebro dos fibromiálgicos fosse uma bússola desregulada em que ativasse todo o sistema nervoso para fazer a pessoa sentir mais dor. Sendo assim: nervos, medula e cérebro estariam fazendo que qualquer estímulo doloroso seja aumentado de intensidade.

A dor da fibromialgia é real. Existem estudos experimentais avançados mostrando o cérebro funcionando e os pacientes com fibromialgia sentindo dor. Também foram feitos estudos com o líquido que banha a medula e o cérebro (líquor) e foi visto que as substâncias que levam a sensação de dor para o cérebro estão de três a quatro vezes aumentadas em pacientes fibromiálgicos em comparação com pessoas sem o problema.

Tanto pacientes quanto médicos parecem entender melhor as causas de dor quando existe uma inflamação, um machucado, um tumor, que estão ali, visíveis, causando a dor. Na fibromialgia é diferente; se tirarmos um pedaço do músculo que está doendo e olharmos no microscópio, não encontraremos nada – porque o problema está somente na percepção da dor.

Dados epidemiológicos apontam uma maior incidência dessa entidade clínica em mulheres jovens, mas, não podemos deixar de abordar os homens, com muita sensibilidade a dor. A sociedade e muitos estudiosos insistem em proclamar que às mulheres são mais sofríveis que os homens, no entanto, sob o olhar de uma psicanalista, que acompanha o caso, o sexo masculino sofre tanto como apontam o sofrimento do sexo feminino. Não podemos generalizar e racionalizar que o sexo feminino é mais suscetível do que o sexo masculino. Os homens ainda hoje, precisam omitir os seus sentimentos para não se mostrarem fracos. Isso é uma condição precária da observação humana.

Independente do sexo, existe nesta síndrome uma ausência de evidências na materialidade do corpo e a presença de fatores psicopatológicos que, dificulta o diagnóstico e tratamento. Face à diversidade e dos fatores envolvidos em determinadas síndromes. Faz-se necessário a indicação de uma abordagem multidisciplinar para um tratamento com resultados mais eficazes.

Neste aspecto, ao mesmo tempo em que os profissionais buscam uma cura para as dores de seus pacientes – os pacientes clamam pelo reconhecimento desta síndrome que causa tanto sofrimento.

DA PSICANÁLISE:

A sugestão é considerar a eventual função da fibromialgia na estruturação psíquica como solução subjetiva. Para o referencial teórico-clínico da psicanálise. A psicanálise fornece elementos para reflexões sobre a dor no corpo e seu lugar na psique.

A partir do estado atual das pesquisas sobre o tema – considerando a escassez de estudos no campo da psicanálise, o ponto nevrálgico para o psicanalista, é poder contribuir para uma abordagem da fibromialgia que sustente o relato da experiência de dor. A psicanálise não tem a pretensão de pôr a fibromialgia a qualquer quadro psicopatológico, como a histeria e/ou a depressão – o foco da psicanálise é sublinhar a posição subjetiva – do sujeito que sofre em seu corpo essa dor “insuportável” para então, termos um diagnóstico junto aos profissionais médicos no tratamento da fibromialgia.

O que a fibromialgia pode ensinar ao psicanalista? Acreditamos que, para além da doença, há um sujeito em questão e que o diagnóstico em psicanálise se produz a partir da posição que este ocupa frente ao seu sintoma. O que, para além da dor, do que o sujeito diz, comporta um falar singular. Se na medicina o diagnóstico se alicerça nos fenômenos comprovados e numa probabilidade estatística, a psicanálise avança, para além dos fenômenos, os modos de enfrentar a singularidade do sofrimento. Da forma como a dor psíquica, implicada na dor física, faz com que a psicanálise avance na subjetividade dos casos sob o olhar clínico. A fibromialgia não pode ser igual para todos, mesmo que haja uma tipologia, uma peculiaridade sintomatológica na doença, o traço único dirá mais sobre aquele que sofre e sobre o uso que faz de sua dor.

DO TRATAMENTO DA FIBROMIALGIA NA TERAPIA:

É importante ressaltar, que nós enquanto psicanalistas e/ou psicólogos não podemos diagnosticar nenhum tipo de doença e/ou patologia. O diagnóstico de qualquer doença é exclusivamente do médico. Psicanalistas e/ou psicólogos não são profissionais da medicina. Portanto, o diagnóstico da fibromialgia está exclusivamente sob o olhar do profissional da medicina. A especialidade mais indicada para o diagnóstico da fibromialgia é a reumatologia. A terapia é eficaz para ajudar o paciente fibromiálgico a se autoconhecer e compreender a condição que está enfrentando.

DA EXISTÊNCIA DE ESTADOS DOLOROSOS CRÔNICOS:

A existência de estados dolorosos crônicos sem substrato orgânico, doenças da dor, é assinalada desde o século XIX. Dentre elas, a fibromialgia (FM), conhecida como fibrosite desde 1904 (Gowers, 1904), tem denominação bastante recente (Smythe e Moldofsky, 1977). Reconhecida pela OMS em 1992, sob a identificação M 79.7 na classificação internacional das doenças (CID), essa síndrome é definida como composta de dores músculo-esquelético acompanhadas, frequentemente, de transtornos do sono e fadiga. A partir dessa classificação, que lhe confere um estatuto de doença, o aumento do interesse sobre a fibromialgia repercute em numerosos estudos (Kahn, 1989; Kochman, 2002; Heymann, 2006; Saltareli, Pedrosa, Hortense e Sousa, 2008). No entanto, sua etiologia permanece obscura e parece remeter a uma origem multifatorial, sem que nenhuma causalidade orgânica tenha sido detectada (Sordet-Guepet, 2004).
A maioria dos textos e estudos sobre o tema indica a possibilidade de uma comorbidades psiquiátrica no que concerne à presença de transtornos de ansiedade e depressão. Sendo assim, apontam a adequação do recurso a tratamentos medicamentosos conforme cada caso é suas comorbidades. Digno de nota, a indicação de tratamento psicoterápico é mencionada no recente estudo brasileiro sobre o tema ao mesmo tempo em que os exercícios de alongamento e assimilados (Heyman et al., Idem). De todo modo, a indicação de uma abordagem multidisciplinar para o tratamento dos casos de fibromialgia parece consenso na maioria dos trabalhos da área médica, figurando tanto no recente estudo Consenso brasileiro do tratamento da fibromialgia (Heyman et al., Ibid) quanto no relatório da Academie Française de Médecine (Menkès e Godeaul, 2007).

Numerosos autores reconhecem o importante e até mesmo preponderante papel dos fatores psíquicos no surgimento da fibromialgia. Ao mesmo tempo, a maior parte deles, rejeitam a assimilação desta a qualquer doença psiquiátrica e somente o componente psicossomático é, em certos casos, evocado. Uma vulnerabilidade psicológica marcada pelo stress (Boureau, 2000), a tendência ao “catastrofismo”, à “victimização”, por vezes uma hiperatividade prévia, um contexto de tensão emocional constante, ansiedade e afetos depressivos vêm esboçar um quadro psicológico do paciente fibromiálgico. Todavia, sublinha-se que as relações de causalidade entre os sintomas psiquiátricos e a fibromialgia são difíceis de confirmar. (Menkès, Godeaul, 2007).

É possível que os transtornos encontrados na fibromialgia (fadiga, transtornos do sono, dores de cabeça, diminuição da atividade cognitiva) faz observar os sinais de depressão, somando a uma síndrome dolorosa. Porém, não se encontram nem as ideias suicidas nem os elementos de desvalorização e autoacusações. Do mesmo modo, se os autores sublinham as relações inegáveis entre a fibromialgia e uma extensa lista de transtornos psicológicos, entre os quais a hipocondria, transtornos funcionais e somatoformes, o critério principal das dores difusas parece, entretanto, separá-los (Kochman, Hatron, 2003). Unicamente a comorbidades entre os estados de stress pós-traumático (SPT) e a fibromialgia, tanto em termos da expressão sintomática como no da anamnese (eventos traumáticos, violência, abusos sexuais etc.) parece confirmada no plano clínico. Geralmente, a fibromialgia inicia-se após um traumatismo psíquico (eventos recentes ou passados, situação prolongada de stress etc.) ou físico, por vezes mínimo (traumatismo, cirurgia, acidente de trabalho, de transito etc.).

Em muitos casos, as evidencias da doença através do diagnóstico pode permitir ao sujeito certo alívio. Na realidade, o reconhecimento da dor, abre a possibilidade de se ter à mão, como um prêt-à-porter, uma causa que fornece certo sentido aos males somáticos, mas também aos psíquicos. Graças a esta identidade adotada e caracterizada com o selo da fibromialgia, existe o desprazer de sentir dores corporais, mas, também, não há necessidade de ser escondida e/ou omitida.

CONCLUSÃO:

Todavia, às tentativas sempre sem definições e/ou de um diagnóstico exato para descrever um perfil típico do paciente fibromiálgico: correto será obter referências a uma psicopatologia sustentada na consideração do sujeito. Assim, não podemos proclamar que existe a “cura a qualquer preço”, mas pode-se, considerar a eventual função da fibromialgia na estruturação psíquica como solução subjetiva. Nessa ação “esperançosa,” (o médico especialista juntamente com outros profissionais) podem manter o dizer do sujeito em sua tentativa de esboçar uma teoria pessoal de sua doença. É um primeiro passo, uma via para permitir ao sujeito mudar ou, pelo menos, compreender sua posição face ao sofrimento e poder em tempo deixar o remédio . Em alguns casos, isso pode ser um caminho para uma verdadeira mudança subjetiva, uma abertura para a interrogação sobre a maneira de se colocar no mundo – a singularidade de sua relação ao saber da realidade e lidar com sua condição, buscando viver melhor, sem prostração para não se tornar uma vítima da doença.

 

REFERÊNCIAS:

Rev. Mal-Estar Subj. vol.10 no.4 Fortaleza dez. 2010.

Entrevista com Reumatologista Eduardo S. Paiva
Chefe do Ambulatório de Fibromialgia do HC-UFPR, Curitiba.

Fernandes, M. H. (2001). As formas corporais do sofrimento: A imagem da hipocondria. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 4 (4), 61-80.

Freud, S. (1986). La perturbación psicógena de la visión según el psicoanálisis (Obras Completas Sigmund Freud, Vol. 9). Buenos Aires, Argentina: Amorrortu. (Originalmente publicado em 1910).

Heymann, R. E. (2006). O papel do reumatologista frente à fibromialgia e à dor crônica musculoesquelética. Revista Brasileira de Reumatologia, 46 (1). Recuperado em 1 agosto 2010, da http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0482-50042006000100001&lang=pt

Heymann, R. E., Paiva E. S., Helfenstein, M., Jr. Pollak D. F., Martinez, J. E., Provenza, J. R. et al. (2010). Consenso brasileiro do tratamento da fibromialgia. Revista Brasileirade Reumatologia 50 (1), 56-66. Recuperado em 3 agosto= 2010, da http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0482-50042010000100006Não

 

 

 

 

 

 

Artigo publicado em 25 set 2015 | Este artigo tem 0 Comentário

image

Abordaremos nesse artigo um breve relato sobre o Consciente e o Inconsciente e suas diferenciações.

A psicanálise possui como característica inicial o determinismo psíquico, sua função é elucidar que nada acontece por acaso. Tendo em vista, que não há descontinuidade na vida mental. Cada acontecimento mental tem explicação consciente e inconsciente, mas esses eventos acontecem tão naturalmente, que Freud os relata vinculando um acontecimento consciente a outro.

A contribuição teórica mais especial de Freud é a de que o comportamento é governado por processos inconscientes e não somente pelos processos conscientes.

– Os níveis da consciência ou modelo topológico da mente.

– Para explicar esse fato, Freud descreve três níveis de consciência [1]:

  • O consciente (al. das Bewusste), que abarca todos os fenômenos que em determinado momento podem ser percebidos de maneira conscientes pelo indivíduo;
  • O pré-consciente (al. das Vorbewusste), refere-se aos fenômenos que não estão conscientes em determinado momento, mas podem tornar-se, se o indivíduo desejar se ocupar com eles;
  • O inconsciente (al. das Unbewusste), que diz respeito aos fenômenos e conteúdos que não são conscientes e somente sob circunstâncias muito especiais podem tornar-se. (O termo subconsciente é muitas vezes usado como sinônimo, apesar de ter sido abandonado pelo próprio Freud.)

 

O CONSCIENTE

A psique humana é observada por Freud como um icebergue, o qual apenas uma parte “minúscula” surge na superfície da água.

A parte que surge na superfície comunica o consciente. No consciente estão contidos: o raciocínio, o pensamento e as percepções que a pessoa é capaz voluntariamente de recordar e controlar segundo as suas necessidades e/ou desejos e interesses da sociedade.

O consciente é uma parte da mente que é possível chegar através da introspecção, ou, através da observação do que se passa no interior da mente humana, dos fenômenos psíquicos que acontecem na consciência. Em contrapartida, no inconsciente, é possível controlar voluntariamente o consciente dependendo das necessidades e exigências do ser humano. O ser humano era definido como um ser racional que controlava as suas ações através do seu desejo. Freud através dos seus estudos descobriu, que a existência apenas do consciente não explicava muitos dos comportamentos humanos, inclusive, muitas patologias, o que levou Freud afirmar a existência do inconsciente.

 

O INCONSCIENTE

Aquilo que se refere à parte submersa é atribuída ao inconsciente, constituído por instintos, pulsões e desejos.  No inconsciente temos o ID como um dos principais mecanismos. O ID é prazer puro – ocorre que para a sociedade muitos dos mecanismos inconscientes são inaceitáveis. O inconsciente é como um vasto contentor, onde estão depositados impulsos e motivos de base biológica. As duas categorias de instintos existentes no inconsciente humano são Eros (deus grego do amor) e Thanatos (deus grego da morte). Eros simboliza o instinto de vida que assegura as necessidades básicas: alimento, bebida, sexo; Thanatos representa o instinto de morte que está presente em todos os comportamentos agressivos e destrutivos.

O conjunto de pulsões e desejos inconscientes, essencialmente os de natureza sexual, possui um dinamismo próprio cujo papel na determinação do comportamento humano é superior aos dos fenômenos conscientes.“Só há inconsciente no ser falante. […] O inconsciente isso fala.” Jacques Lacan (1901 – 1981) Outros escritos, 1969/2003, p.510

A maior parte dos nossos costumes cotidianos é inconsciente, ainda que sejam iniciados de maneira voluntária. Assim, uma vez que tenhamos aprendido a andar, condicionamos esse conhecimento e não necessitamos pensar sobre ele a cada vez que caminhamos. Outras lembranças ficam no nível do inconsciente, porque não julgamos que sejam tão relevantes. Em última análise, observamos que residem no inconsciente memórias de experiências que vivemos, mas, por algum motivo, insistimos em reprimir.

Uma das principais funções do inconsciente é manter o equilíbrio da nossa psique. “É praticamente impossível guardar todas as nossas experiências e ainda ter plena consciência delas. Por isso, existe o inconsciente”. Temos o inconsciente como bagagem de memórias, um depósito que nos alimenta continuamente de imagens e símbolos. O inconsciente interage com a consciência – dependendo de como lidamos com os resultados que essa ação nos traz – pode nos afetar de forma positiva ou negativa.

Segundo Sidarta Ribeiro, quando uma associação entre memórias é muito forte, mas reprimida conscientemente, ela pode escapar ou vazar por meio de um ato falho ou mesmo de um sonho que expressa aquele conteúdo de forma direta ou indireta. E é exatamente por esse fenômeno que os falsos relatos podem não se sustentar por longo tempo. Uma inverdade relatada inúmeras vezes pode se tornar uma verdade, mas na realidade, os fatos da vida cotidiana não são tão simples assim. Um falso relato comentado inúmeras vezes pode vir à tona emergindo o inconsciente, o que fará recair toda a verdade.

Por fim, pode-se afirmar que o consciente não existe sem o inconsciente.

 

Referências:

Psicanálise – Wikipédia, a enciclopédia livre

Freud e o Inconsciente

O Inconsciente 1915

Artigo publicado em 30 ago 2015 | Este artigo tem 4 Comentários

image

O presente artigo tem como objeto de análise o filme iniciado com o livro que se consagrou como best-seller (Cinquenta Tons de Cinza), escrito por E. L. James e lançado em 2011.

“Christian tem uma aversão mórbida por si mesmo.”
E. L. JAMES

No Filme “Cinquenta Tons de Cinza” são exibidas cenas de perversão que surgem com as transformações reveladas no imaginário de Christian Grey a respeito da paixão e sexualidade.

Esta é uma análise contundente sob o olhar de uma psicanalista. A história refere-se à uma “patologia”, sendo esta, a perversão do protagonista: Christian Grey que seduz e leva sua parceira Anastacia  aceitar às suas regras na forma de leis imposta por ele.

Uma das grandes inovações trazidas por Freud (1905) na compreensão da sexualidade é apresentada no clássico “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”: as pessoas vista pela sociedade como “normais” não estariam tão longe assim dos perversos. De modo geral, o neurótico reprime os mesmos desejos e fantasias que movem os perversos. Portanto, algo de fluído surge nesses atos, como prazer ao olhar, ao ser visto, ao sentir e/ou provocar uma pequena dose de dor numa carícia. Dessa forma, os perversos obtém o prazer do orgasmo quase que unicamente olhando, sendo vistos, sentindo e/ou causando dor. Mas, o neurótico também, pode ser acometido desses mesmos atos nas preliminares de uma relação sexual ou, ainda, ao atingirem dessa forma o orgasmo, podendo ser acometido por um certo mal-estar, que procede a culpa (associada à ação do superego). Porém, o superego nesse caso é que leva o sujeito neurótico se sentir culpado.

Dentre outras publicações de Freud, há um avanço ao publicar “Fetichismo” (1927), demonstrando como haveria um mecanismo denominado “renegação” nas perversões, pelo qual haveria a convivência simultânea do contato com a castração e a renegação da mesma.

“A psicanálise nos ensina que, o “EU” não é Senhor nem mesmo dentro do seu próprio reduto.”

O livro que se transformou em filme: “Cinquenta Tons de Cinza”, de E. L. James, causou uma enorme comoção mundial e fascínio pela história – que mexeu com o inconsciente e consciente das pessoas – levando seus leitores e telespectadores a ter seus subjetivos insights.

Um ponto importante no filme é que entre Anastacia e Christian não se sustenta, o sadismo politicamente correto – o sadismo entre o casal não foi convincente nessa relação.
Se a história do livro não tivesse ficado tão famosa em um primeiro momento, podíamos até imaginar que estávamos assistindo, ao um clássico filme de um príncipe que aparece na vida da Cinderela, para salvá-la e fazê-la muito feliz!

Anastacia é uma ninfeta que sonhava com seu “príncipe,” e este se manifesta com traços de personalidade de um homem bonito, sedutor, bem-sucedido profissionalmente, mas, muito mais, ele é um milionário com todos os objetos de conquista à sua mão, haja vista Christian Grey tem todos os  atributos para facilmente seduzir, fascinar e instigar, a ninfeta Anastacia. Dessa forma, ficou fácil cair de paixão por esse homem.

Nessa relação, o dominador parece não sentir prazer no controle do outro. Entre uma chicotada e outra, ele pergunta se Anastacia gostou. O que para um sádico é muita cerimônia, e para uma masoquista, ela apenas cede aos desejos dele por estar perdidamente apaixonada e encantada com um mundo de conto de fadas. Mas ela não demostra sentir-se à vontade nos momentos em que Grey satisfaz suas fantasias, pelo contrário, Anastacia se sente acuada na viagem sadica de Christian.

Mas em um desses encontros Anastacia desafia Christian e o deixa torturá-la, para ver até onde ele podia chegar, porque se interessa veementemente pelos segredos ocultos de Christian, porém, ele não consegue dizer sua verdadeira história.

Christian Grey é um sádico, narcisista, triste, lotado de fetiches e mal resolvido emocionalmente. Os traumas de infância o torturam. Na psique regressa de Christian habita uma criança carente e frágil emocionante – não conseguindo elaborar a sua dolorosa infância – traz suas mazelas para à vida adulta. Grey habita um mundo interior sofrível. Mesmo à vida lhe dando uma grande oportunidade. Afinal, ele aparentemente tem tudo, inclusive uma família que o ama.

O filme conseguiu a proeza de não rechaçar a temática da submissão. Anastasia aceita e se abre para tomar contato com o que lhe surge como diferente: a sexualidade de Christian Grey. Por outro lado, ela não conseguiu adentrar o mundo obscuro dele. Os desejos de Christian Grey são associados as “patologias” provocadas por um adulto anormal, e não como uma sexualidade livre dos transtornos e problemas emocionais.

E é assim, que o belo e poderoso príncipe encantado, seduz a gata borralheira e a faz se sentir a Cinderela escolhida pelo seu príncipe. Anastacia se deixa levar por essa paixão sem limites, e se depara com essa fera que habita em Christian Grey e o tortura.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Todavia, o que Christian Grey sentia por Anatascia no início da relação – não era amor – o que ele sentia era fixação pelo objeto do desejo. Isso é sequestro emocional, sequestro de identidade e sequestro da alma. Mas, essa não é apenas uma história de ficção que prendeu a atenção de milhões de pessoas, pois, existem milhões de Christians e milhões de Anastacias mundo afora. Por fim, nesse enredo, é explícito o apaixonamento de Christian Grey por Anastacia.

image
REFERÊNCIAS:

Os Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade (1905), vol. VII.

História de uma Neurose Infantil (1918[1914]), vol. XVII.

O Filme é baseado no primeiro volume da trilogia erótica de E. L. James, “Cinquenta Tons de Cinza”.

(DIREÇÃO Sam Taylor-Johnson).

Artigo publicado em 16 ago 2015 | Este artigo tem 0 Comentário

image

“Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade. Carlos Drummond de Andrade

O presente artigo aborda a felicidade compartilhada. A busca pela felicidade é um desejo comum a todos os seres humanos, em todos os tempos da história, portanto, cada um escolhe o estilo de vida que interpreta ser o mais adequado para alcançá-la.

DO PONTO VISTA FREUDIANO:

Sigmund Freud (1856-1939), em “O Mal Estar na Civilização”, afirma que o homem anseia pela felicidade e que esta advém da satisfação de prazeres. Essas buscas pelas coisas que nos fazem bem ocorrem pela satisfação (de uma manifestação imediata) de necessidades represadas em alto grau. Ganhar na loteria diverge, por exemplo, para um indivíduo endividado e um milionário. Na contramão disso, um indivíduo doente aspira por algo que um indivíduo saudável nem imagina.

DA FELICIDADE DO CONSUMO:

O ser humano anda em busca da felicidade compulsiva e individualista. Existe um delírio coletivo pelo poder de uma felicidade do consumo. Se o indivíduo precisa “vender à sua essência” para chegar à felicidade, ele não será feliz, pois ser feliz implica a essência humana. Precisamos compreender que ser feliz não é ter poder, dinheiro, prestígio, status – felicidade não é isso.

Na sociedade do consumo, o prazer é vendido sob rótulos: desejo àquela bolsa da grife tal, o carro X, morar no País Y, e, assim serei feliz, mas isso não é felicidade – isso é bem-estar e prazer. As pessoas confundem prazer com felicidade. O prazer é efêmero por natureza. Por mais intenso que seja o prazer, o prazer é limitado. O ser humano precisa compreender que o caminho para a felicidade é o autoconhecimento.

FELICIDADE DEPENDE DE CADA INDIVÍDUO:

O indivíduo é por vezes muito passivo – espera que o outro lhe dê a direção. Ser feliz não é esperar pelo o outro, porque isso implica em frustração. O mundo não nos dá tudo àquilo que desejamos. Se a espera pela felicidade está ligada ao comodismo e a passividade – esse será o caminho mais rápido para a angústia e infelicidade. Felicidade implica: agir, atuar, errar, acertar, escolher, correr riscos, tomar decisões e encontrar com a felicidade fortuitamente. Mas para isso acontecer implica responsabilidade. Pois se nossos desejos pautam nossas vidas, momentos bons e momentos ruins acontecem fortuitamente também.

Portanto, viver é encarar os obstáculos, o medo, as frustrações, as crises, que são inerentes à nossa evolução. Por mais abissal que nos pareça, faz parte da vida passar por esses momentos – isso implica a evolução humana.

São curiosas as “lições da vida”, porque, por mais que o indivíduo se recuse aprender as “lições da vida”, mais a vida retorna uma situação de aprendizado para sua evolução.

FUNCIONA NESSE RITMO:

– “Você ainda não entendeu a mensagem?”

– “Certo.”

– “Você receberá novamente uma oportunidade para que possa conectar-se com seu caminho.”

E para esses acontecimentos, não temos uma explicação científica.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

O grande desafio é resgatar o autoamor e se apaixonar pelo que você é, pelas suas virtudes e pelas suas imperfeições também. É o autoconhecimento que nos capacidade colaborar com os indivíduos ao nosso redor. E quando se fala em colaboração não necessariamente falamos dos indivíduos ao nosso alcance: filhos, amigos, pai, mãe, irmãos, mas toda espécie humana. Independe de laços e ligação. A felicidade é poder se doar. Se não tivermos essa capacidade de colaboração e entendimento, a humanidade se extinguirá. “Felicidade compartilhada é felicidade redobrada.” Estamos todos interligamos e a humanidade depende de cada um de nós.

 

 

Página 10 de 32« Primeira...89101112...2030...Última »