Artigo publicado em 28 jun 2017 | Este artigo tem 1 Comentário

O presente artigo tem por objetivo nos levar ao conhecimento do tratamento terapêutico, onde nos utilizamos da própria fala como instrumento de cura.

O neurótico é um doente que se trata com a palavra, e acima de tudo, com a dele. Ele deve falar, contar, explicar-se a si próprio. Freud define a psicanálise como a assunção da parte do sujeito de sua própria história, na medida em que ela é constituída pela palavra endereçada a um outro. A psicanálise é a rainha da palavra, não há outro remédio. Freud explicava que o inconsciente não é tão profundo quanto inacessível ao aprofundamento consciente. E ele dizia que nesse inconsciente, aquele que fala é um sujeito dentro do sujeito, transcendendo o sujeito. A palavra é a grande força da psicanálise.

“A psicanálise é um método de cura escandaloso. Aquele que cura não dá remédios, não faz nada e nada manda fazer. No entanto, dessa situação inédita surge um efeito pouco mensurável, mas incontestável”. Laurent Danon Boileau

Falamos aqui, em cura pela palavra, pois em terapia a cura ocorre no diálogo entre duas psiques. A psicanálise nos leva a uma experiência emocional corretiva, ou seja, nos encaminha para cura das nossas vivências, desde à geração intra-uterina até o presente momento em que o sujeito se propõe abrir a sua “caixa de pandora”. Desse modo, a cada sessão, a cada encontro entre àquele que se põe a ser analisado e àquele que está analisando, percorrem juntos caminhos inusitados da psique. É uma experiência na qual analista e analisante são capazes de pensar, falar e descobrir o que fora antes interrompido. O que o analistante diz para o seu analista tem como propósito a elaboração daquilo que estava reprimido, interrompido, que sozinho o sujeito não conseguiu elaborar – para constituir à sua própria experiência, e, então, existir mais plenamente.

Àquele que consulta um analista o faz porque está sofrendo emocionalmente; e se sente incapaz de elaborar as suas mazelas psíquicas – sejam essas conscientes e/ou inconscientes. Em psicanálise, nós psicanalistas levamos em conta os sonhos. Os sonhos são materiais de grande valia para remontarmos juntos com o sonhador a sua vida psíquica. A maior parte dos sonhos não se manifestam claramente quando estamos em vigília, muitos desses sonhos podem ser perturbadores, por isso, o inconsciente interrompe o que o sonhador está sonhando. À medida que o sujeito é incapaz de elaborar sua experiência emocional, é incapaz de mudar, ou de crescer, ou de tornar-se diferente de quem ele tem sido. “Os transtornos desencadeados pelo impedimento da elaboração dos sonhos se caracterizam como: transtornos psicóticos, psicossomáticos, perversões graves, encapsulação autista em sensações sensoriais, estados de dês-afeto, nos quais os analisantes são incapazes de ler suas emoções e sensações corporais.”

Um tratamento analítico demanda do analisante como do analista, a realização de um trabalho persistente, que é realizado para levantar resistências internas. Mediante a superação dessas resistências, a vida psíquica do analisante será modificada, elevada a um nível superior de desenvolvimento. O sujeito que consegue remontar à sua história de vida e perpassar às suas mazelas: traumas e frustrações – saberá se proteger quando essas emoções reaparecerem, porque, em psicanálise sabemos que não existe cura, mas sim, uma experiência emocional corretiva. Por isso, que o analisante no processo de análise precisa: falar, pois quem fala se escuta – repetir, pois são nas repetições que conseguimos elaborar, para então, conhecer o âmago da sua condição humana. Para Lacan, o processo de cura em análise só acontece quando o tripé: falar, repetir e elaborar acontece.

Freud diz que a psicanálise se propõe fortalecer o ego, ampliar seu campo de percepção e aumentar sua organização. É necessário discordar, isto é, negar a dor, levando ao instinto de destruição interna, para depois reconstruir um novo sujeito. Trata-se de duas forças ou dois movimentos psíquicos: pulsão de morte (destruição) e pulsão de vida (reconstrução).

A compulsão à repetição é um movimento importante na análise, pois na medida em que o analisante se repete, o leva inicialmente ao enfrentamento da própria violência interna, ou seja, repetimos não para paralisar, mas para gerar novas situações, revisões, reformulações e, no entanto, possibilitar a criatividade da reconstrução.

Nós psicanalistas entendemos que a repetição no processo de análise traz novas possibilidades de simbolizar aquilo que o analisante não entendia – como a possibilidade de decodificar os enigmas inconscientes das suas vivências. Assim, sabemos que o mais importante não é necessariamente a busca da solução dos conflitos a qualquer custo, mas a identificação dos mesmos para, o viver criativo que permitirá o indivíduo a capacidade de identificar os fenômenos curativos, a partir dos movimentos vividos em análise.

A genialidade de Freud atravessou séculos e comprovou que a cura pela palavra é de fato o melhor antídoto de cura, pois a palavra tem o poder de adentrar a causa, onde os remédios, geralmente, só mascaram os sintomas. O pai da psicanálise em sua genialidade não estava em “inventar” esses conceitos e sim, na sua capacidade de dar voz aos distúrbios emocionais e psíquicos que ficavam escondidos sob forma de sintoma de seus pacientes. Casos clássicos ficaram conhecidos, entre eles estão: Schereber, Leonardo Da Vinci, O homem dos lobos, Caso Hans.

Freud pôde propor a todos nós, a cura pela palavra, muito embora a medicina e a farmacologia há duas décadas venham tentando dissuadir leigos de que esta forma de tratamento está ultrapassada e que a psicanálise não cabe mais em uma cultura do espetáculo, da imagem e do consumo, que não tem muito tempo a perder para mergulhar em si mesmo buscando o autoconhecimento.

Muito embora, a mesma ciência médica, agora sob forma das tecnologias de visualização de imagens cerebrais vem confirmando aquilo que Freud já vinha defendendo desde o início do século passado: a palavra não só tem força performática como tem poder de cura. Na atualidade, isso pode ser mostrado “in loco” através das mudanças no córtex cerebral de todo aquele que já se submeteu a um tratamento psicanalítico e/ou psicoterápico. Nada mais gratificante para um homem que tinha apenas a palavra como ferramenta de trabalho.

 

REFERÊNCIA:

Freud, S. (1937) Análise Terminável e Interminável – In Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v.19.
Cura em Psicanálise (Trabalho apresentado no XXIV Congresso Brasileiro de Psicanálise e na V Jornada do GPC) Edna Wallbach.
Cura pela Palavra – Sergio Gomes – psicólogo, Publicado em Dez/2010
Lacan em entrevista a Emilio Granzotto, Publicada por Magazine Littéraire, Paris, n.428, fev/2004.

 

1 Comentario Quero comentar!

  • Realmente ineressante e muito esclarecedor.
    Sempre acreditei na Palavra como poderosa ferramenta para mudanças comportamentais, antes mesmo de ser grande ferramenta de comunicação. Nela encontro o inicio, o meio e o fim de tudo.
    Seu didático artigo veio confirmar minhas crenças.
    Parabéns!
    Ja sentia falta dos seus ricos textos.
    Beijos!

    Comentário by Mel — 24 de julho de 2017 @ 1:29

Leave a comment