Artigo publicado em 23 dez 2018 | Este artigo tem 0 Comentário

INTRODUÇÃO

Este artigo, retrata a eterna insatisfação do ser humano. Não há bem que satisfaça a condição humana. Portanto, sabemos que, inegavelmente, as pessoas passarão a vida retroalimentando o que não conseguirão preencher e/ou satisfazer, haja vista todos os dias, gradativamente, estamos envelhecendo e em constante mutação. 

“Lacan dizia que a única coisa da qual se pode ser culpado, pelo menos da perspectiva analítica, é de ter cedido do seu desejo (LACAN, 1991, p. 385). Mas que desejo é esse de que falava Lacan? Será o desejo sexual de que também falava Freud em nossos sonhos, mesmo de maneira camuflada?”

A beleza, por exemplo, está inteiramente ligada à sexualidade. Desde a teoria do recalque, Freud mostra que os humanos não acham belos seus órgãos sexuais, pois a excitação sexual se opõe à finitude e à delimitação da beleza. Por outro lado, sendo a Psicanálise a teoria sobre a sexualidade e o prazer, Freud se viu obrigado a refletir sobre o Belo determinado pelas “qualidades do sentir”, ocupando-se, assim, não apenas com o agradável e prazeroso, mas com o desagradável e aflitivo. Desde o chamado da clínica, Freud se viu levado, como nenhum outro pensador, a confrontar-se com o medo, com a repulsa e com o horror.

DO DESEJO

O desejo e o imediatismo da contemporaneidade, estabelece uma norma de sucesso que inclui o Belo em seu aspecto imediato. A sociedade contemporânea com tecnologias de ponta e tantas outras ofertas – têm a pretensão em evitar: o desprazer, as dores, bem como o desagradável e o repulsivo de envelhecer. Desencadeando uma psicopatologia de “ser proibido envelhecer” – considerado não apenas inútil, como nocivo.

Nessa arte de compor o Belo no qual o corpo aparece cada vez mais insignificante e instável, coloca-se o Belo ao lado do prazeroso – envelhecer, então, é visto como indesejável! – Com as propostas e ofertas midiáticas  pode ser eliminável. Daí os esforços sem medida para modificar os aspectos feios dos corpos e das aparências que vão se modificando ao longo dos anos.

ENVELHERCER DIGNINAMENTE

Envelhecer com dignidade é o mínimo que podemos conceber. Atividades físicas, bem como cuidados com a saúde faz parte de envelhecer saudável. Mas parece que a aparência, e, também, a correção plástica imediata é tão grave e importante para as pessoas como tratar de uma dor de cabeça crônica!

Freud destacou – a teoria das pulsões e a produção do desejo – desse modo, há que se pensar o que são para nós: o Belo, o Feio, o Sublime, mas também o Caricato e, especialmente, a Repulsa.

DA PSICANÁLISE

Os psicanalistas podem ajudar o analisando a encontrar a causa dos seus sintomas, que, causam repulsa, ódio, mágoas, dentre tantos outros sentimentos que os pune. Assim, podemos compreender que o sujeito que passa pelo processo de análise – adentra os meandros da sua psique – desse modo, passam a ter ciência do seu eu subjetivo, que causam os conflitos inconscientes. Entretanto, não existe cura para todas as mazelas humanas, mas no processo de análise as pessoas têm uma experiência emocional corretiva – o que os leva a compreender as suas dores e ressignificá-las.

Em uma sociedade, que se experimenta cortar e eliminar imediatamente o que não é prazeroso de se ver, quando se coloca a aparência à frente da essência – para que se possa acompanhar, sobretudo, a mídia contemporânea – cheias de técnicas e imediatismos – tem que se situar também diante do que é instável, repulsivo e inútil. Assim, o prazer de ser Belo e das aparências, rodeiam-nos, incansavelmente, as sombras que constituem o mal-estar dos humanos.

DO EROTISMO – “ERÓTICA É A ALMA”

“Todos vamos envelhecer… Querendo ou não, iremos todos envelhecer. As pernas irão pesar, a coluna doer, o colesterol aumentar. A imagem no espelho irá se alterar gradativamente e perderemos estatura, lábios e cabelos. A boa notícia é que a alma pode permanecer com o humor dos dez, o viço dos vinte e o erotismo dos trinta anos. O segredo não é reformar por fora. É, acima de tudo, renovar a mobília interior: tirar o pó, dar brilho, trocar o estofado, abrir as janelas, arejar o ambiente. Porque o tempo, invariavelmente, irá corroer o exterior. E, quando ocorrer, o alicerce precisa estar forte para suportar. Erótica é a alma que se diverte, que se perdoa, que ri de si mesma e faz as pazes com sua história. Que usa a espontaneidade pra ser sensual, que se despe de preconceitos, intolerâncias, desafetos. Erótica é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o bom humor apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima dos lábios. Erótica é a alma que não esconde seus defeitos, que não se culpa pela passagem do tempo. Erótica é a alma que aceita suas dores, atravessa seu deserto e ama sem pudores. Aprenda: bisturi algum vai dar conta do buraco de uma alma negligenciada anos a fio”

CONCLUSÃO

Em suma, para além da dimensão inconsciente de nosso desejo que não nos tira a responsabilidade dele, a questão que nos coloca Lacan, “Agiste conforme teu desejo?”, também nos coloca diante da responsabilidade pelo mal estar que advém da falta e/ou incompletude, a qual nenhum, bem, posse, ou realização humana será capaz de eliminar, pois é a partir dela mesma que nos tornamos humanos.

REFERÊNCIAS

Autora Luzziane Soprani 

Este artigo se trata de uma releitura do artigo publicado em 28 de outubro de 2013, com o tema: O Desejo e a Incompletude no Belo

Citação do livro (“Erótica é a Alma”) de Adélia Prado