Artigo publicado em 28 set 2017 | Este artigo tem 0 Comentário

 

“A angústia surge do momento em que o sujeito está suspenso entre um tempo em que ele não sabe mais onde está, em direção a um tempo onde ele será alguma coisa na qual jamais se poderá reencontrar”. Jacques Lacan

O presente artigo apresenta o conceito de compulsão e busca abordar as manifestações de obsessão, compulsão, fobia e pânico enquanto categorias diagnósticas. Indica que a psicanálise e a psicoterapia psicanalítica são abordagens terapêuticas eficazes nessas categorias diagnósticas.

INTRODUÇÃO

Considerando que o artigo tem como tema a compulsão, iniciaremos abordando referido termo para, depois, desenvolver as especificidades propostas para o presente estudo.
Deve-se ter em conta a definição de compulsão como o tipo de comportamento que o indivíduo é levado a realizar por uma coação interna. Um pensamento obsessivo, uma ação, uma operação defensiva, mesmo uma sequência complexa de comportamentos, são qualificados de compulsivos quando a sua não realização acarreta aumento de angústia. (Laplanche & Pontalis, 1983).
Três termos traduzem a complexa noção freudiana de Zwang: a compulsão, para sublinhar a sua origem interior; o constrangimento, para especificar o seu efeito mais imediato; e a obsessão, para descrever uma de suas consequências mais sintomáticas na vida do sujeito.
Freud refere-se à ocorrência de atos compulsivos em dois tempos, sendo o primeiro anulado pelo segundo, e destaca a característica ambivalente presente nesses atos marcados, simultaneamente, por um constrangimento interior e uma luta contra esses impulsos (Freud, 1909/1962).
Após essa breve introdução do termo compulsão, devemos abordar especificamente a obsessão, a compulsão, a fobia e o pânico, que estão presentes no título deste texto. Entretanto, retomo essas noções enquanto categorias diagnósticas, iniciando pelo transtorno do pânico, depois passando aos transtornos fóbicos e finalizando com o transtorno obsessivocompulsivo.

DAS FOBIAS

Entre os transtornos de ansiedade, as fobias são os mais comuns. Elas são divididas em três categorias: 1) agorafobia sem história de transtorno de pânico, 2) fobia específica e 3) fobia social (DSM-IV-TR, 2002).
A compreensão psicanalítica das fobias ilustra o mecanismo neurótico da formação do sintoma. Quando pensamentos sexuais e agressivos proibidos, que podem levar à punição retaliadora, ameaçam emergir do inconsciente, a ansiedade sinal é ativada e leva ao desenvolvimento de três mecanismos de defesa: deslocamento, projeção e evitação (Nemiah, 1981). Tais defesas eliminam a ansiedade, reprimindo, mais uma vez, o desejo proibido. N o entanto, a ansiedade é controlada ao custo da produção da neurose fóbica.

Números exatos sobre fobia social são difíceis de serem determinados pelo fato de o diagnóstico ser frequentemente aplicado a padrões interpessoais gerais de vergonha e evitação do sexo oposto pelo medo da rejeição. O continuum varia de fobia social, em um extremo, a um estilo caracterológico generalizado de se relacionar, conhecido como transtorno da personalidade evitativa, no outro.
Os estressores como humilhação e crítica por parte de irmãos mais velhos, discussões entre os pais e morte ou separação de um dos pais provavelmente estão entre os principais fatores ambientais que contribuem para o desenvolvimento futuro de fobias. Uma interpretação possível é que as crianças com inibição que prosseguem e desenvolvem transtornos de ansiedade manifestos são aquelas expostas a pais com maior ansiedade, que podem transmitir para elas que o mundo é um lugar perigoso. Além disso, a crítica materna, em particular, parece mediar a relação entre transtorno de ansiedade da mãe e manifestação de inibição da criança, levando ao risco de psicopatologia (Hirshfeld, Biederman, Brody, Faraone & Rosenbaum, 1997).

A fobia social é uma condição com alta taxa de comorbidade. Os pesquisadores demonstraram que, na ausência de comorbidade, a fobia social é raramente tratada por profissionais de saúde mental.
O trabalho clínico com pacientes fóbicos revela que certas relações objetais características estão presentes. Os pacientes possuem representações internalizadas dos pais ou daqueles que exerceram tais papéis ou, ainda, dos irmãos, por quem são criticados, ridicularizados, humilhados, abandonados e constrangidos (Gabbard, 1992). Essas introjeções são estabelecidas cedo na vida e, repentinamente, são projetadas em pessoas do ambiente, que passam a ser evitadas.

Devido às altas taxas de comorbidade do transtorno, a fobia social pode ser identificada quando um paciente busca tratamento por outro problema. O embaraço e a vergonha são os estados afetivos principais. O psicanalista e o psicoterapeuta que se sintonizam com tais afetos podem ter melhor oportunidade de, nas primeiras entrevistas com o paciente, formar uma aliança terapêutica. Explorar as fantasias de como o psicanalista ou psicoterapeuta e outros podem reagir a eles também ajuda os pacientes a começar a perceber que o que acham que os outros sentem em relação a eles pode ser diferente de como os outros, na realidade, sentem-se em relação a eles. A resistência ao tratamento deve ser manejada de forma efetiva, pois sem tratamento os pacientes com frequência evitam a escola ou o trabalho e muitos terminam em benefício social ou incapacidade (Schneier, Johnson, Homig, Liebowitz & Weissman, 1992).

As relações interpessoais dos pacientes com fobias beneficiam-se de uma abordagem psicanalítica. Por estarem presos em casa, indivíduos com grave agorafobia, em geral, necessitam de cuidados de outra pessoa significativa, como um cônjuge ou um dos pais. A avaliação adequada e o tratamento das fobias devem incluir uma avaliação cuidadosa de como a fobia se adapta à rede de relacionamentos do paciente.

(Artigo em construção)