Artigo publicado em 24 mar 2016 | Este artigo tem 1 Comentário

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“Uma satisfação irrestrita de todas as necessidades apresenta-se como o método mais tentador de conduzir nossas vidas; isso, porém, significa colocar o gozo antes da cautela, acarretando logo o seu próprio castigo” (Freud, 1929) [1]

Na sociedade contemporânea, há uma intensificação do culto ao corpo, onde o sujeito experimenta uma preocupação exagerada com a imagem e a plasticidade. O consumo cultural da mídia, a prática do culto ao corpo –  expõe uma preocupação -, que perpassa todas as classes sociais e faixas etárias, apoiada em um discurso que ora lança mão da questão estética, ora da preocupação com a saúde.

Diante de inúmeras formas de gozo ofertadas ao sujeito nos dias atuais, há que se interrogar e discutir nesse artigo, a estética e, particularmente, a perfeição.

A discussão deve-se a preocupação com os excessos que a mídia nos traz, bem como os meios de comunicação de tão fácil acesso. Existe um abismo entre a facilidade de acesso e o gozo dessa realização. Está cada dia mais evidente, a demanda da mulher por um corpo perfeito e um rosto jovem, sem rugas e/ou qualquer sinal de expressão – o que leva às mulheres a buscar inúmeras cirurgias e tratamentos. Pessoas que se entregam na esperança de ter um corpo perfeito esculpido a bisturi. Na contramão disso, observamos que essa demanda não tem trazido satisfação, o que leva o sujeito a fazer mais e mais exigências.

Nessa busca incessante de um corpo perfeito e um rosto jovem, o que muitas encontram é a devastação. Muito se discute, sobre os perigos e desencantos com o tão sonhado corpo e rosto perfeito. Muitas que se submeteram a cirurgias plásticas estão desiludidas com os resultados. Outras ainda: estão psicologicamente deprimidas, devido as mutilações feitas por falsos cirurgiões, que veem nessa ilusão de completude da mulher uma oportunidade de arrecadar grandes lucros, atendendo assim, ao imperativo da lei da mídia, que, as coloca no lugar de objetos de consumo, anulando a sua subjetividade.

Diante de um psicológico desestabilizado, onde não há mais lugar que possa ser restaurado, o analista é convocado, pois se trata da subjetividade do sujeito. As dificuldades psíquicas não podem ser sanadas pelo discurso da ciência objetiva, Já que estamos no campo do desejo que, por sua vez, está sempre presente nas manifestações da linguagem.

Percebe-se que o problema não é a cirurgia plástica, o botox, o preenchimento, e, sim, o fato dessa prática estar aliada ao capitalismo que a oferece como mais um objeto para imaginariamente termos a ilusão de sermos seres sem falta. Além disso, é próprio do ser humano, a tendência em querer anular as diferenças, na tentativa de com isso neutralizar o mal estar. Observamos como a vida vem sendo banalizada e, em uma total inversão de valores, a subjetividade é substituída por objetos de consumo. O sujeito é esse objeto que consume e se consome, quando não tem consciência dos seus limites.

“Deve-se deixar a vaidade aos que não têm outra coisa para exibir.” Honoré de Balzac

DA MÍDIA:

A mídia massacra, sobretudo, a mulher, pois para ser “aceita na sociedade” é preciso ter os padrões de beleza impostos por modelos que são produtos a serem vendidos, bem como: as roupas e acessórios da moda, criados pelos estilistas, para caber nos corpos impecáveis. Isto tem gerado diversas patologias com transtornos de todos os tipos. A psicanálise, paradoxalmente, trabalha para reintegrar na sociedade esse sujeito, que nos procura com diversas queixas relacionadas aos padrões de beleza, que, outrora, foi a realidade criada na psique do sujeito. É uma tarefa árdua reintegrar essas pessoas a vida juntamente com todos os outros – conduzindo-as à sua plena aceitação. Em muitos casos, mesmo essas pessoas estando belas, essas já não confiam mais em si. Cabe aos analistas guiarem-se por uma vertente ética e posicionarem-se frente a mais esse “mal estar” na civilização.

DA CASTRAÇÃO AO NARCISISMO:

Faz-se necessário ressaltar que para Freud (1923) [6], a mulher sente-se inferiorizada, pois entende a castração como ferida narcísica. Assim, diante do mito do corpo perfeito ela sente-se privada no real de algo a que teria direito, ou melhor, um corpo sem faltas, sem falhas, e assim, se rende aos sacrifícios para que esse sonho se realize. Para a psicanálise isso seria uma maneira do sujeito não se deparar com a realidade da falta.

Salientamos que as reflexões teóricas e as experiências clínicas, são incisivas em nos lembrar que no mundo contemporâneo um distanciamento social, isto é, a supremacia de uma solidão induzida, deixa o sujeito à mercê de uma idealização tirânica. E é nesse momento que o psicanalista se torna peça indispensável a intervir, quando não há quase mais nada a fazer.

Portanto, Lacan, nos ensina que o discurso psicanalítico pode fazer barreira ao gozo mortífero. Ao sugerir que o avesso da psicanálise é o discurso do mestre – Lacan nos indica duas vias: a primeira é atender os efeitos das perdas e danos no que diz respeito ao sujeito singular pelo caminho da análise individual; e o segundo é praticar a psicanálise em extensão, ou seja, dialogar com outros campos do conhecimento para remeter o sujeito ao seu próprio saber.

Evidentemente, os cuidados com o corpo não são exclusividade da era contemporânea. Deve-se ter uma atenção especial para uma boa saúde. Entretanto, os cuidados com o corpo não devem ser tão ditatorial como se tem apresentado nas últimas décadas. Precisamos de mais atenção aos limites do nosso corpo.

O dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues disse:  “Na “mulher interessante”, a beleza é secundária, irrelevante e, mesmo, indesejável. A beleza interessa nos primeiros quinze dias; e morre, em seguida, num insuportável tédio visual. Era preciso que alguém fosse, de mulher em mulher, anunciando: – “Ser bonita não interessa. Seja interessante!”

Em suma, queremos instigar o leitor para o modelo de relação que estamos construindo com nosso corpo, despertando um olhar que não ambiciona oferecer uma resposta absoluta sobre o corpo, mas um olhar que venha como raios de luz para seus caminhos. Caminhos questionadores, reflexivos e transformadores diante de nossas perspectivas sobre a questão do corpo na atualidade.

 

BIBLIOGRAFIA

FREUD, Sigmund. Edição Standart Brasileira das Obras Completas

Psicológicas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro, Imago, 1977.

(1914) Sobre o narcisismo: uma introdução, v. XIV

(1929) O mal estar na civilização, v. XXI

GROSRICHARD, Alain , “Formas do imaginário na atualidade”,