Artigo publicado em 12 dez 2015 | Este artigo tem 1 Comentário

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“Ser homem não é uma questão tão natural como usualmente se supõe”. Assinala Badinter (1992/1993) que para chegar a ser homem é necessário empreender toda uma tarefa. “A virilidade não é algo concedido, deve ser construída, fabricada” (p.17).

Enfatizaremos, o cenário do sujeito Desbussolado. A expressão “Desbussolado” é uma referência ao sujeito dessa época em que vivemos: contemporânea. Não existe um termo e/ou definição esclarecedora para nomear o termo Desbussolado – termo esse que poderá causar surpresa aos leitores.

O objetivo desse artigo não será dissipar todas as peculiaridades do sujeito Desbussolado em benefício de uma normalidade. Vivemos em uma época onde impera a vaidade. Podemos observar que muitos desses que são bons samaritanos, geralmente, são extremamente vaidosos – quiçá, necessitam se sacrificar, pois no seu modo de pensar, só vale o que oferta.

Parece irresistível a inclinação que o Desbussolado possue para estar sempre voltado para o seu exterior, fugindo àquilo que tem de mais inerente, que é o seu interior.

Do ponto de vista psicanalítico, o Desbussolamento de gênero, a dependência, a submissão é a dor do sujeito diante das suas tomadas de decisões. Considerando o Édipo, que Freud proclamou no sujeito, isto é, a sua inveja primária que tanto teme no que o cerca. Geralmente, esse perfil se envolve com parceiros dominadores, assim, fica vulnerável, posto que as culpas sejam expiadas não necessariamente pelo o outro, mas por si mesmos.

O poder do Desbussolado poderia estar no “falo” mesmo que inconsciente, entretanto, o sujeito do falo pode ser representado por inúmeros objetos, inclusive pelo poder material.

A palavra “falo” derivada do latim, designa o membro masculino em ereção, simboliza potência e está ligada a religiões pagãs e/ou orientais. O termo raramente surge em Freud. O que encontramos é o adjetivo “falico” ligado à diferenciação sexual e à teoria da sexualidade feminina (ROUDINESCO, 1998).

No lugar de suprimir sintomas, a psicanálise se serve deles como uma via de entrada indireta, a fim de trabalhar para dissipar a dor penosa e inconsciente. A busca da cura é tortuosa, oferece ao desejo o deslizamento de seus nós, trabalho feito no avesso das representações, por isso o desejo resiste. Avaliamos que a análise caminha no sentido da cura. É que cura significa cuidado. Se o objetivo da cura analítica é cuidar do desejo, há um sentido geral no tratamento: o de tratar do desejo, o que se cumpre de diferentes maneiras, de acordo com as diferentes formas de ser de cada paciente (Herrmann, 1991).

O pensamento do sujeito Desbussolado, surge afetado por uma negação. Desse modo, o sujeito pode ser negativo, melancólico, sofredor, mas em contrapartida pode ser extremamente fantasioso, na busca de um meio de sobreviver. Mas é a negatividade que comanda o devir criativo do sujeito.

Esse perfil busca uma completude imaginária na tentativa de abolir a divisão – mediante essa busca Desebussolada – sendo assim, tende repetir sua história de sofrimento, pois se de um lado estão todas as fantasias e imaginações a respeito do futuro em si, por outro, a realidade lhe para diante do acesso a esse objeto desejado.

E é assim que, o sujeito Desbussolado passa a vida – procurando a felicidade, mas ele a coloca em um objeto que muitas vezes está fora do seu alcance, às vezes sob ilusões, deslumbramentos e fantasias, sendo que isso tosa a sua energia e expectativa – acaba frustrando-o, angustiando-o. Desencadeando mazelas psíquicas e físicas. Se pudesse tomar consciência que só depende dele a felicidade que vem fortuitamente, não precisaria jamais buscá-la fora de si, pois está dentro de si – assim, abandonaria esse ideal imaginário.

É possível que os perfis Desbussolados dessa época vivam peregrinando pela aprovação do outro – como se o outro soubesse quem ele é; porém, tentar se esconder não apagaria a imagem do espelho de nós mesmos: a fragmentação é inerente à condição humana. O que importa é juntar seus fragmentos e tentar enxergar além do visível.

CONCLUSÃO:

Finalizamos com o seguinte pensamento: sempre é doloroso renascer. Citaremos o exemplo da borboleta – para se tornar borboleta esta passa por várias fases para, então, chegar ao casulo e se tornar borboleta – o casulo, então, é a fase final para a metamorfose e a libertação do voo da borboleta. Mas volte o olhar para trás e pergunte a si mesmo: foi tão penoso o caminho? É possível que sim. Mas se não atravessar a sua dor de existir – não terá sido tão bela a sua história de reconhecimento para, enfim, ter o renascimento.

 

Referências:

FLEIG, M. O dizer poético e a clínica psicanalítica. Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre: Psicanálise e Literatura. Porto Alegre, 1998.
FREUD, S. (1914) – Sobre o narcisismo. In: _____. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. XIV.
FREUD, S. (1932) Conferência XXXI: a dissecção da personalidade psíquica. In: _____. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. XXII.
NÁSIO, J. D. A criança magnífica da psicanálise, o conceito de sujeito e o objeto na teoria de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
Freud, S.(1980d). Escritores criativos e devaneio. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. (J. Salomão, trad., Vol. 9, pp. 149-158). Rio de Janeiro:Imago. (Trabalho original publicado em 1908)
(ROUDINESCO, 1998).
Lacan, J. (1998). O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada. In J. Lacan, Escritos (pp. 197-213). Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Herrmann, F. (1991). Andaimes do real: o método da psicanálise. São Paulo: Brasiliense.