Artigo publicado em 23 fev 2015 | Este artigo tem 0 Comentário

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“Quando somos capazes de ajudar os pais a ajudarem aos filhos, o que fazemos na realidade é ajudá-los a eles mesmos”.
[D. Winnicott]

Em momentos e lugares diversos da história a criança foi concebida e tratada de diferentes maneiras. A psicanálise evidencia que a criança vem ao mundo como objeto e, portanto, ela é falada pelo Outro (parental-social-cultural). Não somente objeto do discurso familiar, a criança também o é dos discursos jurídico, médico, científico, pedagógico e etc. Sabendo que cada caso propõe respostas ideais e universais que visam à regulação dos sintomas (hiperatividade, inibição intelectual, depressão, agressividade, dentre outros) que a criança apresenta.

E o que Freud encontrou nesta observação foi uma íntima articulação entre a criança e sexualidade. A criança freudiana tem um mal-estar particular em relação à sexualidade. O interesse intelectual da criança pelos enigmas do sexo, o seu desejo de conhecimento sexual, revela-se numa idade surpreendentemente tenra (Freud, 1907/1996, p. 125). Na realidade o recém-nascido já vem ao mundo com sua sexualidade (ibid, p.124), é o que conclui Freud já em 1907, em seu artigo O esclarecimento sexual das crianças.

Então, há uma reviravolta criada por Freud. Ele retira a criança do lugar de pureza e ingenuidade em que fora colocada pela sociedade de sua época ao revelar a sexualidade infantil. Freud, ao escutar seus analisandos adultos e os relatos sobre crianças, conclui que a infância era carregada de acontecimentos e fatores de cunho sexual. A princípio, ele ouviu tais lembranças tomando-as como verdadeiras, mas logo percebeu que muitas das vezes se tratava, sim, de fantasias. E, mais ainda, fantasias carregadas de desejo. É isto que escandalizou a sua época, a revelação da existência do desejo sexual desde a mais “tenra” infância.

Na realidade o recém-nascido já vem ao mundo com sua sexualidade… (Freud 1907/1996, p. 124).

O caráter primitivo do psiquismo infantil requer uma técnica analítica especialmente adaptada à criança, e vamos encontrá-la na análise lúdica. A diferença, porém, entre os nossos métodos analíticos e a análise de adultos é puramente técnica e não de princípios. A análise da situação transferencial e das resistências, a remoção das amnésias infantis e dos efeitos de repressão (sic), assim como a revelação da cena primária, fazem parte da análise lúdica. Portanto, ela não somente está em conformidade com as normas do método de psicanálise com adultos, como também leva aos mesmos resultados. A única diferença é que adaptamos o processo ao psiquismo da criança (Klein, 1932/1975, p. 39).

Abordaremos de forma concisa a história do pequeno Hans, que é um marco na psicanálise infantil. Quando Hans se mostra à mãe, durante seu banho diário, como de hábito, secando-o e aplicando-lhe talco. Quando a mãe lhe passava talco em volta do seu pênis, tomando cuidado para não tocá-lo, Hans lhe disse: “Por que é que você não põe seu dedo aí?” ao que a mãe responde: “Porque seria porcaria.” (Freud, 1909/1996, p. 26). Hans, ao tentar seduzir a mãe, ou seja, fazer com que se interesse por ele pela via de seu pênis, escuta dela que este é para ela uma porcaria. A emergência de seu pênis como algo real, que se agita, que se intumesce, que desperta prazer, considerado pela sua mãe como porcaria, somado ao nascimento de sua irmã tempos mais tarde, retira Hans deste paraíso de engodo, desencadeando a fobia. É o início, segundo Freud, da fase edipiana de Hans por meio do complexo de castração.

Hans se percebe como diferente do que é desejado e se vê imaginariamente rejeitado do lugar que ocupava para a mãe. Ele se vê desamparado por não bastar à sua mãe, abrindo-se diante desta relação uma hiância. Deste estado de coisas nasce o medo de ser “devorado pela mãe” (Lacan, 1956-1957/1995).

Neste momento, Hans percebe que não pode mais se manter nesta relação de engodo, seu sistema entra em desordem e ele se sente preso numa situação insustentável: não mais saber onde se situar. E todos os elementos de sua fobia, segundo Lacan, revelam que, faça o que se fizer não se consegue sair (Lacan, 1956-1957/1995, p. 320).

Portanto, diante da irrupção de seu falo, do nascimento de sua irmã, e ainda desse véu que está caindo e interrompendo seu jogo, é que surge a fobia de Hans. O que está em jogo na fobia, segundo Lacan (1956-1957/1995), é a privação fundamental com que é marcada a imagem da mãe, e o que esta privação revela à criança, a saber, que a própria criança está ameaçada da privação suprema: não poder satisfazer a mãe. A mãe insaciável e privada de modo insustentável, também pode mordê-lo (Lacan, 1956-1957/1995, p.337). Disto decorre a fantasia marcada pelo medo de ser devorado pela mãe. Assim, Hans desencadeia fobia por cavalos. Fantasia que os cavalos irão morde-lo. Hans foi tratado pela psicanálise com Freud. O caso Hans é um caso de histeria de conversão/castração. Daí percebemos como o adulto é responsável pelos problemas nas crianças. A criança não é a causa do problema, mas sim o sintoma dos pais.

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Uma das grandes virtudes da vida é, acima de tudo, procurar evoluir, porque tudo tem dois lados e um porquê! E a evolução dos seres humanos começa desde à infância.

“A cura da neurose infantil é a melhor profilaxia contra a neurose do adulto”.

Uma das muitas experiências interessantes e surpreendentes na análise com crianças é encontrar em crianças muito jovens a capacidade de percepção que, muitas vezes, é muito maior do que a dos adultos. Trabalhar com a criança é curioso e gratificante, porque a criança se envolve no trabalho analítico e adentra com maior percepção num mundo onde os fantasmas dela podem ser desligados da vida da criança, quando ela passa a compreender que tem o poder de se desligar e se despedir deles sem tantas dúvidas e temores como tem o adulto. Dessa maneira, a criança pode ir na causa dos seus sintomas com mais facilidade, o que o adulto não tem -, pois a criança não se opõe ao “novo mundo” que o analista a leva a conhecer – mostrando a ela por meio do trabalho lúdico, que ela tem o poder de se desligar dos seus fantasmas. O analista infantil tem que ter muita sensibilidade e carinho para acolher a criança, mas não como educador, e, sim, como aquele que a leva a se entender de uma maneira lúdica – levando-a num lugar seguro onde a criança se sente protegida das suas angústias. No entanto, um fator de desenvolvimento de importância básica é a capacidade do ego prematuro de tolerar a ansiedade. À medida que a relação com a realidade avança, a criança faz uso crescente das relações com seus objetos, e suas várias atividades. O mecanismo de sublimação é um auxílio contra o temor do superego e dos impulsos destrutivos. A partir dos 3, 4, 5 anos de idade, a criança começa a deslocar os seus interesses para outros objetos, como os coleguinhas, a escola, etc. Nesse ponto de vista, a ansiedade estimula o desenvolvimento do ego. Nesse caso, percebe-se que a experiência com a análise infantil, leva a criança a confiar nela a ponto de combater as suas angústias, e, logo, seus fantasmas, sem as neuroses sólidas do adulto.

Referências:

– Miller, J.A. (1998). A criança entre a mulher e a mãe. Opção Lacaniana. n 21. Edições Eolia, Abril, pp. 07-12.
– Segal, H. (1975). Introdução à obra de Melanie Klein. Rio de Janeiro: Imago.
– Vorcaro, A. (2004). A criança na clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.
– Freud, S. (1926/1996). Inibição, sintoma e ansiedade (sic). In Freud, S. (1925-1926/1996). Um estudo autobiográfico, Inibição, sintoma e ansiedade (sic), Análise leiga e outros trabalhos (Vol. XX, pp. 81-171) (2a. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud). Rio de Janeiro: Imago.