Artigo publicado em 17 jan 2015 | Este artigo tem 3 Comentários

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Inseguro e infeliz, supersensível e irritadiço, minunciosamente observador até o desespero, sempre alerta e detetivesco, amargo e sarcástico, superior quando na realidade se sente inferiorizado, o indivíduo ciumento é, para si e para os outros, uma pesada carga que termina por afugentar todo o mundo de seu convívio. (MIELNIK, 1920, p. 128). 

O ciúme em muitos momentos toma conta da vida das pessoas. É um sentimento vivido por casais, que ao ser levado a extremos se torna patológico, desencadeando intenso sofrimento emocional/psíquico e, eventualmente, o desgaste do relacionamento.

O ciúme possessivo leva a repressão do companheiro, promovendo uma relação deficitária no amor. Surge daí a infelicidade derivado da ação que vai levar à insatisfação -, levando a relação ao limite do insuportável, podendo chegar a violência. Pessoas que constroem um relacionamento carcereiro têm um índice elevado a tornar-se prisioneiro em seu próprio cárcere.

A possessividade advém da dificuldade que muitas pessoas têm para admitir seus próprios desejos e controlá-los. Acaba por projetar o desejo que têm de trair, promovendo um cárcere para ambos. Na verdade, não podendo preencher esse desejo escuso: manipula o relacionamento – desencadeando não somente infelicidade, mas, muitas vezes, gerando violência. A violência não somente física, mas muito mais psíquica.

O desejo de controlar é um desejo inerente a condição humana, encontra-se em todos os meios das relações afetivas.

Nos relacionamentos entre casais, quando há possessividade e desconfiança de uma pessoa em relação à outra; pode ocorrer pelo desejo de novas experiências do ciumento -, muitas vezes camuflada e inconsciente, colocando à prova àquele que sente demasiado ciúme. Pelo receio de que o outro o traia, o que pode estar relacionado com o desejo próprio de trair. A pessoa projeta o desejo no parceiro e, dessa maneira, cria um cárcere para si próprio. O desejo de controlar o outro vem do temor de trair. Consequentemente, o sujeito ciumento atribui ao parceiro a própria infidelidade e/ou os próprios impulsos reprimidos.

A pessoa que aceita o seu desejo passa a confiar mais em si mesma, no parceiro e temer menos a relação. Dessa maneira, há mais possibilidades do sujeito iniciar um trabalho de auto-análise com seus sentimentos para que o ciúme e a necessidade de controle sejam deslocados para sentimentos positivos. Sim, não é fácil, é mais fácil projetar no outro as suas insatisfações do que admitir as suas faltas. Mas quando a pessoa toma consciência e assume seus temores, responsabiliza-se pelos seus sentimentos. Toma uma postura com novas atitudes, restabelece um vínculo de qualidade da sua vida afetiva para si mesma e para o relacionamento. Contudo, essa tomada de decisão é de fórum peculiar. Somente a pessoa pode tomar suas decisões. Passando por uma mudança árdua interiormente, reconhecendo suas mazelas, pondo fim, ao cárcere afetivo.

Referente o tratamento do ciúme, Freud ([1920] 2006, p. 238) postula: “No tratamento de uma pessoa assim, ciumenta, temos de abster-nos de discutir com ela o material em que baseia suas suspeitas; pode-se apenas visar a levá-la a encarar o assunto sob uma luz diferente”. Freud aqui quer dizer: que não é necessário tentar provar e/ou mostrar à pessoa que seus pensamentos e delírios de ciúmes são ilusórios e/ou estúpidos, não raro será uma tentativa sem sucesso; o mais correto seria oferecer a ela maneiras de encarar a realidade de formas diferentes.

“Na visão psicanalítica, é possível afirmar que o ciúme se inicia cedo em nossas vidas, segundo Freud, na escolha do objeto, onde a menina sente ciúme do pai e o menino da mãe. A partir daí, percebemos que ele nunca mais deixará nossas vidas, estando presente em todos os posteriores relacionamentos, de forma saudável ou doentia.”

Conclusão: 

É essencial que exista uma reflexão por parte do casal em relação ao ciúme, pois muitas vezes em nossa cultura, o ciúme é visto como essencial para relação, ou seja, se não houver ciúme não há amor, quando na verdade, pode ser o início de uma patologia, causadora de forte sofrimento psíquico dentro dos relacionamentos.

Referências:

FREUD, S. [1920]. Obras Completas. Além do princípio do prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos. vol. XVIII Rio de Janeiro: Imago, 2006.

SANTOS, E. F. Ciúme, o medo da perda. 4. ed. São Paulo: Ática, 1998.