Artigo publicado em 17 dez 2014 | Este artigo tem 1 Comentário

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“A personalidade começa quando a comparação acaba.” (Karl Lagerfeld)

O presente artigo tem por objetivo discorrer sobre o vazio sentimental do neonarcisismo. Ou seja, o sujeito da era contemporânea.
Vivemos um tempo, onde as pessoas vivem sob um narcisismo compulsivo – , porque, as pessoas não são consumidas somente pela massa que nos oferta tudo desde: roupas, sapatos, bolsas, jóias, aparelhos eletrônicos, e, assim, sucessivamente; mas de um consumo da sua própria identidade – de um Eu sádico. Percebesse que pessoas atuam o tempo todo. Por isso, o desejo é sempre o desejo do desejo do outro, que transmuta para o vazio.

O Narciso, ou a estratégia do vazio, aprofunda a descrição do processo de personificação, a partir da figura de Narciso. Não propriamente o Narciso freudiano, estamos vivendo um neonarcisismo, de exaltação do eu e da resignação da vida social. Extravia-se, o caráter progressista e a ideia de compartilhar ideais. Certamente, o individualismo está envolto pelo véu do coletivismo, onde atuam poderosamente as redes sociais.

A sedução de desejar o outro, não se trata de uma superestrutura, de uma ideologia, mas sim, de um espetáculo, que desencadeia em metamorfoses. Todavia, o real tem representação desleal. A sedução não trabalha em função do mistério, mas funciona em função da informação, do feedback, como se fosse um strip-tease integral e difuso.

O neonarcisismo leva ao vazio sentimental: “se pelo menos o sujeito contemporâneo pudesse sentir alguma coisa (…)”. “As perturbações narcisistas do caráter não são mais fixas e de sintomas neuróticos”. O grande barato hoje está certamente em não demonstrar sentimentos reais. Fuga de qualquer vestígio sentimental.

O narcisismo pós-moderno traz o desafeto social. Parece-nos possível viver sem ideais, sem objetivos vitais – viver o presente e centra-se em si mesmo. O sujeito vive de acordo com Lasch: uma “perda do sentido da continuidade histórica”.

O sujeito consome a si mesmo e/ou a própria existência, onde a atitude calorosa é substituída pela atitude fria. Desse modo, ocorre uma valorização do narcisismo, que vai ser chamado por Lipovetsky de neonarcisismo. (…) Estamos longe da estética monadológica, o neonarcisismo é psicologia popular.

As relações são líquidas, precárias, passageiras, onde o neonarcisista não suporta por muito tempo uma forma de viver em coerência com o outro. Mas, se porventura, sentir e/ou pensar que o outro está sendo mais importante do que a si mesmo, logo, encontra-se uma maneira de se desfazer dessa relação, pois, o que conta é a sedução – caso o novo narciso se sentir ameaçado, ele se desfaz de forma indiferente daquele que fora tão instigante outrora para o seu jogo sedutor.

Portanto, o fenômeno não se trata de um niilismo “passivo”, é o niilismo da indiferença. Deparamo-nos com sujeitos frios/intocáveis. Desse modo, podemos pensar que esteticamente os neonarcisistas precisam manter distância do mundo exterior, ou seja, viver apenas pelo prazer do espetáculo, sem finalidade e sentido, em sequências instantâneas. Estão todos a vista dos espetáculos intocáveis, a partir das suas telas mecânicas, tudo pode aparecer e, frequentemente, desaparecer.

“O desejo de morte é também uma das faces do neonarcisismo, da desestruturação do Eu. O indivíduo pós-moderno tenta se matar sem querer morrer.”

A solidão se tornou uma realidade. Após o abandono social dos valores e das instituições, é a relação com o Outro que, segundo o mesmo método, rende-se ao peso no processo de desafeição.

O capitalismo foi espedaçado pelo contemporâneo, ocorreu um rompimento. O primeiro a observar isso foi Baudelaire: “o belo é inseparável da modernidade do contingente. Surge o ódio da tradição e obsessão pela renovação total.”.

“A nova guerra não é apenas mais sanguinária e mais destrutiva do que qualquer outra guerra de outras eras, devido à perfeição enormemente aumentada das armas de ataque e defesa; é, pelo menos, tão cruel, tão encarniçada, tão implacável quanto qualquer outra que a tenha precedido.” (Freud, 1915/1976: 280).

O narciso da modernidade alimenta uma ilusão, ele acredita que entende a realidade dos fatos da sociedade contemporânea. No entanto, não é difícil entender essa modernidade liquida do neonarciso: somos filhos de uma cultura na qual o indivíduo capitalista vale mais que a comunidade e suas regras. E com isso ele consome para não ser consumido. A realidade contemporânea é sádica e consumidora para se manter no exercício da pulsão de vida, quando na verdade, há no interior desses sujeitos uma imbatível pulsão de morte.

No consumo das necessidades afetivas e narcisistas, a busca é pela satisfação dos desejos desse sujeito contemporâneo – lotado de fantásticas fantasias! No mundo contemporâneo, a compulsividade incessante, segue o modelo dos vícios da compulsão a repetição. O sujeito busca a satisfação de suas peculiares fantasias, que, nada mais é, do que uma sensação passageira. Por isso, existe a necessidade de retroalimentação imediata, porque, se depara novamente com o vazio e para manter-se em algum lugar, seu vício necessita da repetição. E, isto, só faz com que se aumente a velocidade de produzir novos cenários para atuação do sujeito esperando tirar dessa condição algo como uma realização. Concluímos, com essa linha de pensamento, que não existe realização, pois realização é o grand finale, que só será atingido no gozo final, com a morte.

 

Referências:

– LIPOVETSKY, Gilles. A Era do Vazio. Barueri, SP: Manole, 2005a.

– A Sociedade Pós Moralista: O crepúsculo do Dever e a Etica Indolor

dos Novos Tempos Democráticos. Barueri: Manole, 2005b.

– LASCH, C. A cultura do narcisismo. Rio de Janeiro: Imago, 1983.

– FREUD, S. Além do princípio do prazer. Edição standard brasileira das

obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1999.

– Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. CAMPBELL, C. A ética romântica e o espírito do consumismo moder-no. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.

– ARENDT, H. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense, 2005.