Artigo publicado em 25 nov 2014 | Este artigo tem 1 Comentário

 

 

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“Basta compreender o estádio do espelho como uma identificação, no sentido pleno que a análise atribui a esse termo, ou seja, é a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem” (Lacan, 1998).

Abordaremos nesse artigo o estádio e/ou estágio do espelho – vamos tentar compreender de que forma Lacan utiliza a metáfora do espelho. Para isso, implica inicialmente identificar os elementos contidos na imagem que servem de campo para a articulação do estágio do espelho e, argumentar,  estes elementos.

Iniciemos, então, o elemento principal: a criança ou o bebê:

“O bebê, objeto de amor, é um ser visto no espelho do mundo imaginário do olhar da mãe, do desejo dela. A relação com o objeto define o sujeito. Assim, pode-se afirmar que ocorre o seguinte processo de identificação: “é com o meu Outro (minha imagem) que eu me identifico, copio e desejo.” Essa imagem especular é pouco fiel ao real que ela representa, pois implica todas as possibilidades de deformação: do grandioso ao diminuto. O jogo com a imagem ou imagens da superfície refletora é o jogo das relações humanas. É necessário que haja um espaço entre o corpo real e asua imagem para que possa haver reconhecimento e identificação com a própria imagem. A partir disso, a posição do EU diante da superfície refletora do espelho é de fundamental importância na reprodução da imagem. Essa posição é definida pela história familiar e pelo lugar ocupado pelo sujeito nessa história.”

Assim como o bebê, pouco consciente de si, já se reconhece no espelho, Lacan se refere a um eu anterior à linguagem, um eu ainda não simbolizado, mas que já está captado em uma imagem. Mas que imagem é esta?

Na formação do eu, há um primeiro momento em que este é tomado como uma imagem e – imagem especular –, tal como a criança que reconhece sua própria imagem no espelho. Esta imagem especular do eu é mediadora entre o interno e o externo e fundamental para que o interno seja vivido como próprio. Trata-se de, inicialmente, um eu imagem que, será melhor desenvolvido, quando Lacan articula os três registros: real, simbólico e imaginário.

A criança reconhece sua imagem no espelho com uma manifestação de jú- bilo e com a efetuação de uma operação de identificação entendida como “[…] a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem […]”(LACAN, 1966, p. 94). Segundo Jacques Lacan, ocorre um processo chamado “estágio de espelho” que se inicia aos seis meses de idade até aos dois anos.

Portanto, como acontece esse processo? Em um primeiro momento a criança não teria a vivência do seu corpo como sendo uma parte integrada – ao contrário ela percebe seu corpo como uma dispersão de partes separadas – por falta de coordenação e imaturidade de como ela vem ao mundo. Dessa maneira acorre no sujeito uma vivência de despedaçamento. De início a criança começa a conquistar a totalidade de seu corpo por meio do “espelho”, que representa uma metáfora do vínculo entre mãe e bebê – do olhar da mãe e do bebê – essa metáfora traz uma dimensão imaginária, na qual permitirá uma ilusão de completude do bebê. É nesse “espelho” que a criança irá antecipar a totalidade de seu corpo, por meio dessa imagem no espelho.

O espelho é, portanto, o ponto de partida da subjetividade humana, já que a imagem do corpo próprio é uma espécie de “matriz simbólica” do sujeito, proto-símbolo de sua presença no mundo. Nesse instante de ver, a presença do Outro vem marcar indelevelmente o sujeito pelo significante – descorporificando o eu − ou eu (moi) −, que entra no discurso como forma de dar substância ao sujeito − ou Eu (je).

Na experiência do espelho o sujeito se identifica com algo que não é; ele acredita ser o que o espelho lhe reflete, acaba se identificando com um fantasma, é uma ilusão da qual procurará se aproximar.

A criança reage diante dessa imagem como sendo a de um outro e depois vai descobrir que esse outro é ela própria. A mãe seria o espelho da criança e é ela que contribuirá para visão desse outro. Porém, é do lado de fora que a criança se descobre. Quando a criança descobre que esse outro é ela mesma reagirá com jú- bilo diante dessa imago, o ego ideal, portanto, é nessa imagem do outro que a criança irá se alienar. É esse outro que irá assumir o lugar da criança, esse é o Estágio/Estádio do Imaginário, o tempo narcisista.

Para Lacan o estágio do espelho não é apenas um momento no desenvolvimento do ser humano; é uma estrutura, um modelo de vínculo que operará durante toda a vida.

O espelho situa a instância do eu, ainda antes de sua determinação social, em uma linha de ficção. O Eu aí constituído é o ego ideal, diferente do ideal de ego. O ego ideal é uma imano (imagem) antecipatória prévia, o que o sujeito não é, mas deseja ser. É uma imagem mítica, narcisista, incessantemente perseguida pelo homem (Bleichmar e Bleichmar, 1992).

Essa transformação do objeto, de reconhecível e intercambiável, para um objeto privado e incomunicável que pode dominar dismorficamente o sujeito em suas fantasias, é o que marca o que Lacan chamou de “initium, aura, aurora” de um sentimento de estranheza, que é a porta aberta para a angústia.

No segundo momento do Estágio de Espelho, a criança alienada na imagem do outro, imagem dela mesma, e, do corpo e do olhar de sua mãe, ela irá se identificar com essa imagem e assim se identificando com o desejo desse outro, o da mãe, ela irá desejar o desejo da mãe, ou seja, irá desejar ser o desejo da mãe. A criança acredita que o desejo da mãe é possuir o falo, por isso, a criança irá desejar ser o falo da mãe, o falo aqui será entendido como sinônimo de poder.

Mas, no terceiro momento, do estágio de espelho, entra em cena o pai com a castração e como portador da Lei, então, é o momento do advento do Simbólico. Nesse momento o pai aparece com a sua função, o de portador da Lei, de interditar e normatizar os limites da relação diádico-simbiótica da mãe com o filho.

Lacan simboliza a função do pai, como sendo o significante do Nome-do-Pai, logo,  acontece um momento importante, que é o poder que a mãe dá ao pai da sua autoridade junto a criança, a um significante do pai, e será assim, que os limites a relação diádico-simbiótica mãe-filho irá ser imposta. É assim que o Nome-do-Pai será inscrito no inconsciente da criança e irá intervir no Complexo de Édipo, introduzindo dessa forma a norma fálica para a criança. É assim que irá se organizar a relação mítica e edipiana da família. Entende-se que o tripé: filho-mãe-pai é de grande relevância para o desenvolvimento da criança.

O significante Nome-do-Pai, segundo Lacan não é simplesmente o “não te deitarás com tua mãe”, mas direciona a criança a um “não reintegrarás o teu produto” que é dirigida a mãe, é essa a mensagem que introduzirá a Lei na relação mãe-bebê.

A aceitação, por parte do filho, dessa castração por parte da lei do pai irá constituir o registro Simbólico, o ingresso no triangulo egípcio. Para a criança isso reflete ao “ser o falo para alguém”, e irá fazer a criança ter um desejo próprio e ser guiado por esse desejo, embora não onipotente pela mediação da castração paterna.

“O eu poderia ser definido como o resumo do esforço de viver, trincheira de um desejo, no máximo, natural – o desejo de viver e manter-se vivo, campo natural da vida, conexo porém oposto ao sexual, este perverso – polimorfo, subversivo, voltado para o gozo e para o prazer, mais que para a vida”. (Elia, 1992, p. 117).

Segundo a Psicanálise Lacaniana, a compreensão dos diferentes lugares que a criança poderá ocupar na estrutura familiar, sendo, os diferentes lugares que ela ocupa no desejo do Outro, com as possíveis respostas que poderá dar a esse desejo, e quais serão as consequências disso na estruturação da criança como sujeito.

O estágio do espelho traz a reflexão sobre a intersubjetividade humana. O olhar do outro produz no sujeito sua identidade, por reflexo. Através do olhar do outro, o sujeito sabe quem ele é, e nesse jogo narcisista, se constitui a partir de fora.

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Para Klein no vínculo narcisista há uma identificação do ego com o objeto idealizado interno, o que permite dissociar e negar o objeto persecutório externo. A estrutura narcisista é instável, pois é produzida por uma desintegração ou dissociação do ego, e conserva o perigo diante da ameaça persecutória negada (Bleichmar e Bleichmar, 1992)

Lacan retoma a reflexão hegeliana da Fenomenologia do Espírito, especifica a Dialética do Senhor e do Escravo.“Nada irrita mais do que a intenção do outro de sair do jogo, pois tropeça no que sou”. Lacan considera a pulsão de morte como expressão do narcisismo.

Em tese, o narcisismo do sujeito começa no estágio do espelho, pois é o momento em que a criança descobre a sua imagem. O narcisismo pode ser desencadeado a partir do momento do descobrimento do imago. Sendo assim, o narcisismo no sujeito surge deslocado a esse novo ego ideal que está repleto de toda perfeição de valor. Segundo Freud, “renunciar à perfeição narcisista de sua infância, não é uma tarefa fácil. O sujeito ao crescer, se tomado pelo seu despertar do seu próprio julgamento crítico, de modo a não mais poder reter aquela perfeição, procura recuperá-la sob a nova forma de um ideal de ego. O que ele projeta diante de si como sendo seu ideal e seu substituto do narcisismo perdido de sua infância na qual ele era o seu próprio ideal.

 

Referências:

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1998.

Dor, J. (1989). Introdução. In: J. Dor, Introdução à leitura de Lacan: O inconsciente estruturado como linguagem. (C. E. Reis, trad.; pp. 7-10). Porto Alegre: Artes Médicas. (Original publicado em 1985).

Revista do Departamento de Psicologia – UFF, v. 17 – no 1, p. 113-127, Jan./Jun. 2005

Freud, S.- Sobre o Narcisimo: Uma Introdução (1914), S. E., Imago, R. J., 1969

Freud, S. (1914) Sobre a Introdução do Conceito de Narcisismo. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.