Artigo publicado em 30 out 2014 | Este artigo tem 0 Comentário

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“O sonho é a satisfação de que o desejo se realize” (FREUD)

A interpretação dos sonhos do qual Freud se dedicou a estudar nos diz que os sonhos são, “a principal estrada que leva ao conhecimento dos aspectos inconscientes de nossa vida psíquica” (FREUD, 1900, apud ESTEVAM, 1995, p. 44). Freud concebe a ideia de que um insight (intuição) de algo proibido (desejo inconsciente) só ocorre uma vez na vida.

Todos nós sonhamos. O sonhador pode sonhar com pessoas, coisas, sonhar sonhos que os parece absurdos. Mesmo àqueles que dizem não se lembrar dos seus sonhos e/ou que não sonha, mas sonha! Alguns sonhos são repetitivos, outros parecem absurdos para o sonhador e, outros, até parecem estar sendo vivenciado em vigília. Algumas pessoas têm facilidade em se lembrar dos seus sonhos, outras dizem não ter facilidade para se lembrar dos sonhos.

Segundo Silva e Sanches (2011), pode-se dizer que o marco da grande história de Sigmund Freud foi “A Interpretação dos Sonhos”, obra na qual antes não tinha grande importância para a ciência, e que logo após tal publicação ganhou de fato seu devido valor. Através destes estudos, foi possível trazer ao consciente os conteúdos inconscientes, onde o sonhar é um fenômeno regressivo; no qual nos devolve aos estados primitivos da infância.

Nós enquanto psicanalista, não temos dúvidas em dizer que o marco da grande história de Sigmund Freud foi “A Interpretação dos Sonhos”, essa obra grandiosa, ficou no anonimato por muito tempo, inclusive para ciência, mas, logo após, a publicação da sua mais importante obra, o livro ganhou o seu valor devido. Através desses estudos, foi possível trazer ao consciente os conteúdos inconscientes, no qual tal processo: o fenômeno sonhar, traz o inconsciente para o consciente de uma forma tão reveladora e atingível, que foi uma primazia para os estudos científicos. Freud diz: “o sonho é o caminho para uma estrada que leva aos recessos inconscientes e obscuros da mente”.

O livro “Interpretação dos Sonhos” demandou dois anos (1898 e 1899) para ser escrito e, a partir desse livro, Freud edificou o sustentáculo da teoria psicanalítica, passando a constituir a base de apoio para todo o desenvolvimento posterior da sua obra. Dessa maneira, Sigmund Freud conseguiu dar caráter científico ao assunto. A partir dessa obra tão polemizada, Freud faz novas abordagens, definindo o conteúdo do sonho, como a “realização de um desejo”.

“Os desejos que provocam os sonhos não são, frequentemente, desejos aceitos pelo consciente, ao contrário são desejos que ele combate, reprime e censura. Por conseguinte, o retorno desses desejos recalcados, embora seja uma causa de prazer para a parte inferior do homem, é uma causa de desprazer para a parte superior.” (FREUD, 1900 In. apud ESTEVAM, 1995, p. 62)

No Capitulo VI do livro ‘Interpretação dos Sonhos”, Freud desenvolve o primeiro modelo do aparelho psíquico. O psiquismo é composto por três grandes sistemas: inconsciente, pré-consciente e consciente e, são separados pela censura, que através do mecanismo do recalque, mantêm certas representações inaceitáveis fora do sistema consciente. No entanto, essas representações exercem uma pressão para tonar-se conscientes. Sobrevém uma ação de forças, entre os conteúdos reprimidos e os mecanismos repressores. Como consequência de tais conflitos há uma produção das formações do inconsciente: os sintomas, sonhos, lapsos e chistes. Abordaremos de forma concisa o significado de os sintomas, lapsos e chistes que fazem parte do processo dos sonhos.

– SINTOMA – é um sinal e um substituto de uma satisfação pulsional que permaneceu em estado adormecido ou não conhecido para o sujeito. Ex: Ficar toda hora se opondo a alguma coisa. Dá a entender que o sujeito quer combater seus fantasmas e, não necessariamente, seus supostos inimigos reais ou imaginários.

– LAPSO – é a troca de uma palavra por outra tanto na forma oral quanto na escrita, resultante de influências externas à palavra, frase ou contexto. O lapso provem de elementos que não se pretende enunciar e dos quais só se toma conhecimento justamente através da própria perturbação. Ex: Lapso da fala: falar “Poços de calças” [sem significado socialmente compartilhado] ao invés de “Poços de Caldas” [nome de uma cidade]. Lapso de escrita: escrever “caminhos do escrito” quando na verdade a escrita correta seria: “movimentos do escrito”.

– CHISTE – é o fenômeno comum da vida cotidiana, carregado de comicidade. Um jogo de palavras espirituoso ou tendencioso que, por meio da associação verbal, une palavras contrastantes entre o significativo e a falta de sentido, cuja finalidade é a de causar prazer no non sense. Ex: Os comediantes usam a todo o momento os chistes para falar de forma cômica, a realidade dos políticos, do País e imitar celebridades, etc.

Assim, o sonho, sucede de fatores diários psíquicos e do sono; que como expôs Freud, são os guardiões do sono. A partir da investigação, referente os sonhos como expressão simbólica do processo vital têm implicações profundas e elevadas para o físico e para o espiritual, para o corpo e para a psique. Ele pode ser um aliado valioso para a compreensão dessas ligações. Pode constituir, assim, uma chave preciosa para o nosso autoconhecimento e bem estar.

Como citado acima ao analisarmos o assunto sobre a interpretação dos sonhos vimos que tem sido demonstrado, por pesquisadores do sono e do sonho, que todas as pessoas sonham regularmente durante todo seu período de sono. Por isso, dizemos que “o sonho é o guardião do sono”. O sonho é o fiel guardião da nossa saúde psíquica. Mas a psicanálise, por sua vez, não aceita essa tese tão simplista, para a psicanálise, o sonho é um meio pelo qual o inconsciente procura alertar a consciência para o que ela não percebe e/ou não quer aceitar e para tentar equilibrar a psique.

O sonho é também chamado de onírico, tal conteúdo é fundamental para a psicanálise, pois é através dele que é feito grande parte da interpretação do “conflito” que o analisando traz como material para a terapia. Através da descoberta de Freud, de que os sonhos têm conteúdos fundamentais para análise do analisando, podemos concluir que, através dos sonhos podemos gozar pelos nossos verdadeiros prazeres, e nos ausentarmos de uma sociedade que censura e dita regras, tanto de caráter como de conduta. No sonho não temos censura da sociedade, assim, podemos vivenciar no sonho o que realmente gostaríamos de viver acordados.

Existem quatro tipos de mecanismos de defesa nos sonhos, que chamamos: condensação,  deslocamento, dramatização e simbolização. Esses mecanismos são formas com que os conteúdos latentes se transformam em manifestos. Comentaremos abaixo de forma concisa os principais mecanismos de defesa dos sonhos:

CONDENSAÇÃO – Na ânsia de exteriorizar-se, o impulso transforma-se, desloca-se. E também transfere-se, como vimos. E não é só. Transformado em imagens, pode dar-se a condensação de duas imagens que se transformam numa só, para melhor iludir a vigilância do “Super-ego”. Nos lapsos de linguagem é muito comum observarem-se esses erros, essas condensações.

SIMBOLIZÇÃO – O mecanismo de defesa da simbolização é a capacidade do Ego de usar símbolos que traduzam suas forças afetivas inconscientes, podendo ser símbolos universais, como por exemplo, folclore, lendas, mitos entre outros. Trata-se da manifestação do inconsciente o que podendo estar relacionado à própria história.

DESLOCAMENTO – Os impulsos procuram exteriorizar-se, mas encontram a barreira da censura. Quando, encontrando essa barreira, não podem passar, dá-se o recalcamento. Mas nem sempre se observa tal coisa. Os impulsos, procurando sair, encontrando a barreira da censura, conseguem, muitas vezes, virem à tona, embora, modificados pela oposição oferecida. Essa modificação, transforma-os, muda-os, tornando-os diferentes do primitivo impulso, irrecognoscíveis.

DRAMATIZAÇÃO – Consiste na imaginação de nossa mente, pois quando estamos acordados racionalizamos tudo que entra em contato conosco, (idéias, pensamentos, sentimentos), entretanto, quando estamos dormindo esse processo se desliga e entra em ação a capacidade de imaginar tudo àquilo que durante o dia racionalizamos, entra em ação o papel de formular imagens para aquilo que vivemos. Segundo Estevam (1995), é uma atividade mental inferior ao pensamento racional, cabe aos sonhos a tradução dos pensamentos e idéias em imagens, por isso a interpretação dos sonhos deve ser feita de maneira minuciosa e criteriosa para se desvendar o significado das imagens dos sonhos, pois elas trazem uma bagagem de conteúdos racionais importantíssimos.

Entre os principais tipos de sonhos há sonhos manifestos e sonhos latentes, que, são os sonhos mais relevantes para a psicanálise.

O que é sonho latente e sonho manifesto? Sonho latente são os sonhos que não conseguimos lembrar, por vezes, pela própria defesa da psique. Ou seja, supostamente, a pessoa  não está preparada para resolver assuntos da vida cotidiana. Por isso, chamamos de sonhos latentes. O conteúdo latente é o verdadeiro sonho. No seu oposto temos os sonhos manifestos, sendo o sonho manifesto aquele em que a pessoa se lembra ao acordar, mas para a psicanálise, o conteúdo manifesto é o que o sujeito conta, sendo um disfarce do verdadeiro sonho. Para psicanálise através dos sonhos podemos resolver muito dos nossos sintomas. Isso quando levado para análise – vamos trabalhar com o material/conteúdo dos sonhos. Há sonhos que são repetitivos, provavelmente nos sonhos repetitivos o sonhador tem necessidade de resolver algumas questões importantes da sua vida. Levando para terapia o analisando e o analista irão trabalhar juntos para que o analisando possa interpretar o seus sonhos para então, elaborar o sonho do sonhador.

Os desejos que provocam os sonhos não são; freqüentemente; desejos aceitos pelo consciente; ao contrário, são desejos que ele combate, reprime e censura. Por conseguinte, o retorno desses desejos recalcados, embora seja uma causa de desprazer para a parte superior. Esquecemo-nos frequentemente que o homem é um ser duplo, disputado por tendências de sentido contrário. A censura reage pela angústia quando ela não pode dominar o desejo animalesco que sobe das profundezas do inconsciente. (ESTEVAM, 1995, p. 61-62.)

Conclusão:

Há uma indagação: é possível interpretar todos os sonhos? Não necessariamente. Não se pode esquecer que, na interpretação de um sonho, têm-se como oponentes as forças psíquicas que foram responsáveis por sua distorção. A distorção pode entrar como uma defesa dos sentimentos do sonhador.

 

Referências:

FREUD, S. A Interpretação dos Sonhos – Edição Comemorativa – 100 anos. 1. ed. Rio de Janeiro: Imago, 2001.

ESTEVAM, C. A vida noturna: Os sonhos. In: ESTEVAM, C. Vida e Obra Freud. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

ALMEIDA, W. C. Defesas do Ego: leitura didática de seus mecanismos. São Paulo: Ágora, 1996.

FREUD, S. (1926[1925]). Inibições, sintomas e ansiedade. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. XX. Rio de Janeiro: Imago [1974]

Freud, S. (1901). Lapsos da fala. In: Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. VI. Rio de Janeiro: Imago [1974].