Artigo publicado em 26 ago 2014 | Este artigo tem 4 Comentários

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O Ser do homem não pode ser compreendido sem sua loucura, assim como não seria o ser do homem se não trouxesse em si a loucura como limite de sua liberdade. Lacan

Segundo o “Dicionário Houaiss”, ciúmes é um estado emocional complexo que envolve um sentimento de que se pretende amor exclusivo; receio de que o ente amado dedique seu afeto a outrem; zelo; medo de perder alguma coisa. O ciúme é um estado de desassossego, de agitação mental, que surge por efeito de suspeitas (infundadas ou não) de infidelidade sexual ou afetiva, ligada diretamente ao fracasso do gerenciamento da perda do espaço, do “colo”, da atenção e carinho. Esse gigante estragado da alma se engendra não somente nas relações amorosas, mas por entre filhos, amigos, objetos, intelectualidade, coisas, sistemas, trabalho.

O ciúme, por muitas vezes é confundido com o tão sonhado amor do parceiro – sentimento doloroso, forte, intenso e dominador que toma rumos desconhecidos e pode surpreender de forma prejudicial a quem está dominado por ele, e ao seu alvo. Os perfis que se destacam com frequência – são em grande parte, adolescentes e jovens que não têm tolerância com os desencantos inerente à vida, não obstante, nem todos reconhecem, o ciúme que sentiam de seus parceiros (as).

A pessoa ciumenta é predominantemente um Ser com baixa autoestima, inseguro de suas competências, e se opõe extraordinariamente as perdas reais ou ilusórias que vivência, espalhando uma pesada carga emocional entre as pessoas as quais convive, a ponto de chegar a uma verdadeira obsessão psíquica e possessividade do Outro.

O demônio é plural. Quando o demônio é repelido, quando finalmente lhe impus silêncio, um outro levanta a cabeça ao lado e começa a falar. A vida demoníaca de um enamorado parece com a superfície de uma solfatara; bolhas enormes (quentes e pastosas) estouram uma atrás da outra; quando uma se desfaz e se acalma, retorna à massa, uma outra, mais longe, se forma, cresce. As bolhas “Desespero”, “Ciúme”, “Exclusão”, “Desejo”, “Conduta Indecisa”, “Medo de perder o rosto” (o mais malvado dos demônios) fazem “ploc” uma atrás da outra, numa ordem indeterminada: a própria desordem da Natureza (BARTHES, 1984, p. 125).

A possessividade nesse caso se relaciona em poupar o amor. Porém, quando ela estabelece as bases da relação, a qualidade de afetividade dentro da relação entra em declínio e a proporção de infelicidade e de descontentamento podem se alterar no limite do insuportável – desencadeando não só a violência contra o parceiro como também contra si próprio. Por quê? Porque pessoas que constroem um relacionamento encarcerado podem acabar prisioneiros de seu próprio cárcere.

O ciúme controlado é natural, em relação a cisma que se tem em perder o objeto amado. Ocorre uma dor narcísica, racional, mas transitória. Não há erro em sentir ciúmes, pois em uma relação amorosa, dizer que não sente ciúmes pode ser percebido por falta de amor e interesse. Portanto, em um relacionamento se sente ciúme, porque, àquela pessoa é especial para aquele que a ama – o parceiro se envolve emocionalmente e vai construindo sonhos e objetivos comuns que não se quer perder, pois a perda do Ser amado implica em dor -, tanto no que investimos quanto nos sentimentos que recebemos. A cisma é de perder o objeto amado e não aquela pessoa em especial.

Há na condição humana um desejo de controlar, mas esse desejo é humano, podemos encontrá-los em vários tipos de relações afetivas, por exemplo, nos pais com os filhos, filhos com os pais, parceiros que controlam parceiras, e o seu contrário também, parceiras que controlam parceiros. Quando nos referimos aos parceiros, a possessividade, ou o índice de desconfiança de um sujeito em relação ao Outro, pode ser pelo desejo de conhecer o novo, às vezes até inconsciente, experimentado pelo sujeito que manifesta o ciúme. Óbvio, que pela cisma de que o Outro possa trair referenciando a própria vontade de trair da pessoa cismada. O sujeito projeta o seu desejo no Outro e daí constrói um cárcere para ele. Entra em jogo o inconsciente. O possessivo controla o Outro para controlar a si próprio.

É um jogo de inconscientes ou mesmo até consciente, dependendo, do grau de entendimento dos envolvidos. O Outro pode  aceitar ser controlado por compactuar das mesmas razões. Pensa: “Sabe… creio que não seja tão ruim assim, que o Outro me controle, porque se eu me sentir tão livre posso embarcar na liberdade total...” Percebe-se, que no fundo muitos parceiros até desejam ser controlados, para não acontecer de chegar, no limite, a uma negligência consigo próprio. Lacan diria: “O sujeito só tem consciência de si, a partir do Outro. Isto é formalizado por Lacan como o gozo do Outro”. (…) “Se o gozo do amo é de se submeter ao escravo e Lacan diz que é o escravo que se submete ao amo, Lacan formaliza isso como gozar do Outro”. O sujeito encontra seu gozo no Outro.

A partir do momento que o sujeito assumir o seu próprio desejo ficará mais fácil confiar no Outro. Quem sofre de ciúmes sofre tanto psíquico quanto físico, por isso, é possível encontrar a causa do descontrole e além de encontrar suas causas, elaborar e promover mudanças no comportamento, mas principalmente no amadurecimento do ego, da autoestima, da segurança emocional e confiança pessoal. Esse é o caminho para que o ciúme e a necessidade de controle sejam remanejados – sendo assim, a qualidade da relação amorosa passa a ser melhor. Mas, trata-se de um assunto, que se resolve interiormente. Somente a pessoa pode se decidir no sentido de fazer uma evolução transformadora e determinar-se a dizer não ao cárcere dos seus sentimentos.

 

 Referências:

MILNER, Jean-Claude. A Obra Clara ? Lacan, a ciência, a filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996.

MILLER, Jacques-Alain. Los signos del goce. Buenos Aires: Paidós, 1998.

LACAN, Jacques. O Seminário ? livro 20 Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1975.

BARTHES, Roland. Fragmentos de um Discurso Amoroso. 4ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1984.

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.

 

 

Artigo publicado em 01 ago 2014 | Este artigo tem 7 Comentários

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Nietzsche, grande filósofo alemão do século XIX, escreveu que “a maior parte da filosofia foi inventada para acomodar nossos sentimentos às circunstâncias adversas, mas tanto as circunstâncias adversas como nossos pensamentos são efêmeros”, deduzindo, então, que pensamentos e circunstâncias passam, mas os sentimentos não. O amor é um desses sentimentos que devem ser tratados pela filosofia, principalmente porque ele parece transcender a realidade.

Abordaremos neste artigo a seguinte pergunta: o que leva uma pessoa a desamar outra pessoa a qual tanto amou? Geralmente, os primeiros sinais são percebidos com o distanciamento, isso acontece quando o outro começa a sentir o vazio na relação. Na demanda do amor aquele que desama – começa por não mais investir na relação.
Há de se indagar: o que ocorre, então, para uma pessoa deixar de amar a outra que amou intensamente? Como duas pessoas que viviam um relacionamento intenso acabam em um relacionamento frio/distante, tornando-se um relacionamento vazio?

A pergunta em foco é uma intrigante resposta, se é que há uma resposta concreta, haja vista o amor do ponto de vista psicanalítico é subjetivo. Mas, aqui, não enfocaremos o porquê do amante rejeitado, mas sim, aquele que rejeita.

Nesse caso, há várias possibilidades que levam ao fim do relacionamento: frustrações constantes, sentimentos de raiva não verbalizadas, sentimentos de rejeição, desatenção ao parceiro, projetos e planos de vida diferentes, traições, ciúme obsessivo, arrogância, às vezes, por medo de se envolver na relação e se entregar ao outro, e vários outros fatores. É um somatório de fatores que vão acontecendo que levam o amante ao desencanto – e, assim, a relação vai perdendo dia após dia o sentido para o amante que deixa de amar. Dessa maneira, a pessoa passa a ter um olhar de indiferença. Ocorre que esta não sente mais vontade de fazer para o seu amante o que fazia antes: não sente vontade de se cuidar como fazia-o, não sente vontade de fazer os agrados que fazia, definitivamente, deixa de dar a atenção que dava antes, não sente mais vontade de estar com o outro e passa a se incomodar facilmente.

Na psicanálise fala-se em investimento libidinal. Pode-se dizer que o amor apresenta-se em quotas, que faz investimento no próprio ego da pessoa e o investimento de objeto: surgem, então, as explicacões do psicanalista Sigmund Freud, (1856-1939) em que ele fala do “amor egoico” e “amor objetal.”

Ocorre que todos os sentimentos investidos no amante começam a ficar contidos e, assim, a pessoa que rejeita passa a direcionar à sua vida para outros interesses, por exemplo, buscar amizades antigas e/ou novas amizades, passar a focar mais no profissional, buscar um novo amante, etc,. Entretanto, pode acorrer, que toda àquela energia que existia entre os dois, passa a ficar retida no ego da pessoa que deixa de amar, havendo uma mudança em toda à sua vida. A pessoa que está passando por esse momento, pode querer sair com amigos não para um novo relacionamento, mas sim, para libertar-se da relação, ou seja, o amante que rejeita pode não querer mais encontrar um novo parceiro – mesmo que seja temporário.

O fim de um amor deixa os amantes demasiadamente desgastados: tanto psíquico quanto físico -, mas do outro ponto de vista, as pessoas envolvidas agregam as suas vivências grandes experiências. Digamos que a tempestade emocional na qual os amantes se encontram nessas situações têm objetivos: os preparar para novos recomeços.

E nisso reside o sujeito entender que quando não ama mais o seu parceiro, é necessário coragem para falar, para pôr fim… Pode ser um momento crucial, pois o fim de um relacionamento, geralmente, é carregado de dor, mesmo sendo acometido do desamor. Por isso, muitas vezes há pessoas que persistem ficar em um relacionamento que terminou há muito tempo. O que ocorre é a pessoa voltar atrás e continuar no relacionamento – e isso, só vai minando à sua própria vida. Há nesses casos um somatório de argumentos que podem ser usados para protelar a relação, por exemplo, “os filhos”, “estamos passando por uma fase”, ou “o medo de ficar só” etc,. A pessoa que está insatisfeita com o amante desconstrói todas as suas queixas e insatisfações – passando a se autossabotar e, dessa maneira, começa um processo de autotraição. É como se essa pessoa desistisse de focar na sua realidade. Nesse agravo, só há duas opções: a pessoa tem o direito de dar continuidade em seu processo de “autotraição” ou ser leal e comunicar ao outro falando a verdade.

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Mas vale lembrar uma canção de Cartola (Acontece) Cartola foi cantor, poeta e compositor brasileiro Agenor de Oliveira (1908-1980) em que ele canta e fala do amor e do coração que se tornou frio e que não consegue mais dissimular amor. A canção diz:
“Esquece o nosso amor, vê se esquece./ Porque tudo no mundo acontece./ E acontece que eu já não sei mais amar./ Vai chorar, vai sofrer, e você não merece./ Mas isso acontece./ Acontece que o meu coração ficou frio./ E o nosso ninho de amor está vazio./ Se eu ainda pudesse fingir que te amo./ Ah, se eu pudesse./ Mas não quero, não devo fazê-lo./ Isso não acontece”.

Nessa canção podemos entender que por mais que a natureza humana tenha bons motivos para ser moldada de forma que possamos sofrer menos pelo fim do amor que aos poucos vem sendo desconstruido dentro de nós – por razões diversas – e que no início, muitas vezes ainda tentamos protestar para tentar recuperar o amante de nosso afeto, mas, por fim, quando nada disso funciona, é saudável, é leal que deixemos para trás o amante rejeitado e possamos recomeçar com dignidade e sem culpa.