Artigo publicado em 23 jun 2014 | Este artigo tem 2 Comentários

image“Desejo é o impulso de recuperar a perda da primeira experiência de satisfação”. (Freud)

Este artigo pretende tomar o uso do desejo sobre a subjetividade do Analista, é a operação do analista a partir do objeto a, ou seja, o objeto a, sendo o analista como objeto do desejo do analisando, como operações que precisam ser compreendidas a partir do axioma que define a psicanálise, mas, neste artigo, incitamos, a importância da subjetividade do analista. Desta articulação é possível extrair a tese de que o discurso do analista formaliza e atualiza, a noção de desejo do analisando.

É questionamento frequente, na clínica, a seguinte pergunta: “Qual é a sua linha na psicanálise?” Esta pergunta é pertinente. Não há dúvida que todo embasamento está em Sigmund Freud. No entanto, vivemos em outros tempos. Se o próprio Freud estivesse vivendo na era contemporânea, em pleno século XXI, já teria feito muitas outras revoluções dentro da psicanálise.

É questionável para o analisando ou para quem busca a terapia essas perguntas, mas também para o analista. Dessa forma, entra a subjetividade do analista. – O analista deve ter manejo na transferência do analisando e uma boa capacidade de acolhimento. Por isso, nesse ponto de vista, cada analista e cada analisando são movidos pelas suas próprias experiências.

Há características que constituem um bom analista? Existe no contexto, uma boa dose de estranheza e também interesse pelo diferente, aliás, o diferente impulsiona um bom aprendizado para ambos os lados: analista/analisando. Certo que nas objeções as marcas experienciadas pelo sofrimento compõem um bom terapeuta. Afinal, quem melhor para entender a dor senão aquele que já sentiu.

– O discurso do analista interroga, interpela, evidencia os sentimentos do analisando. Isso, além de provocar uma implosão nesses questionamentos repetitivos sobre o qual tendemos a nos agarrar. O que o discurso do analista vai produzir de interessante no analisando é por conseguinte uma movimentação, e, também, uma mudança no curso do movimento da sua vida, pois não se trata mais de produzir um movimento circular em torno de alguma coisa e/ou da mesma coisa. “Freud já dizia que quando o analisando para de falar durante a sessão é porque está pensando no analista” – “associações livres” acontecem em função do amor que sustenta a transferência e que a presença do “sujeito-analista” enquanto objeto de amor, sustentando a dúvida, o amor na transferência é o responsável por isso.

“Do lado do analista, supõe-se uma análise anterior e, consequentemente, que ele suporte e reconheça o seu não saber da particularidade do desejo do analisante”. (FALCÃO, 2005)

Contudo, todos aqueles que buscam um analista irão demandar no analista a necessidade de certa forma de intervenção. Como saber isso? É só no aqui e agora – que se faz a clínica – nas sessões de análise.
A escuta, ou seja, aquilo que o analisando traz para a terapia será construído a cada encontro – experimentado nas sessões de análise e para cada caso.

Na análise é necessário haver uma condição transformadora da angústia que paralisa o “sujeito-analisante” em uma dinâmica; para que aconteça a transformação da rigidez em maleabilidade – em que a moral da necessidade de agir por impulso se transforme em um desejo ético.

Vale ressaltar um pensamento do psiquiatra e pensador Gregório Baremblitt, em uma de suas entrevistas, ele adverte que: “Todas as certezas são suspensas, até a certeza de que tem que se analisar”… “Exceto que a “inspiração” é o que “cura”.

Abordaremos ainda neste artigo, este texto que ilustra um instigaste e fascinante poema, em que uma menina de 15 anos – na época – em sua visão pura e poética explica tão claramente o desejo da escuta de um analista:

“Gostaria que houvesse alguém
que, ouvisse minha confissão:
não um padre – não quero que me digam meus pecados;
não minha mãe – não quero causar tristeza;
não uma amiga – não entenderia o bastante;
não um amante – seria parcial demais;
mas alguém que ao mesmo tempo fosse o amigo, o amante, a mãe, o padre.
e ainda um estranho – não julgaria nem interferiria,
e quando tudo já tivesse sido dito desde o início até o fim,
mostraria a razão das coisas,
daria forças para continuar
e para resolver tudo à minha própria maneira”.

(Publicado em 1916 em The Little Review)

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Só assim, entenderemos que nós, analistas/terapeutas cada um a seu modo subjetivo, somos apenas instrumentos nas sessões de análise que antes de ser nossa, está sendo construída pelo o Outro. Transitando em várias direções que são absolutamente subjetivas.

Referência:

Revista Psique – número 51, março 2010)