Artigo publicado em 23 set 2013 | Este artigo tem 5 Comentários

INTRODUÇÃO

 “O instinto de amar um objeto demanda a destreza em obtê-lo, e se uma pessoa pensar que não consegue controlar o objeto e se sentir ameaçado por ele, ela age contra ele”. Freud.

Amar é um estado que povoa o centro cardíaco – nos levando em muitas dimensões prazerosas, mas, também, pode nos confrontar com desespero profundo, quando perdemos o objeto amado.

Talvez não haja maior encanto do que aquele proporcionado pelo estado do amor idealizado. Em contrapartida, a desilusão amorosa é dilacerante.

AMOR, CULTURA E SINGULARIDADES

Amar alicerça a existência humana e compõe de certa maneira o sangue da vida. Amar verdadeiramente o outro é uma das mais complexas de nossas capacidades. Também é inerente a cada cultura e suas regras, haja vista às inúmeras culturas mundo afora.

A educação determinada por tal civilização pode nos parecer abissal e intolerante, mas pode ser perfeitamente normal para aqueles que são educados em determinada cultura.

“Amar talvez seja o trabalho para o qual todos os outros trabalhos não sejam mais do que a preparação”, diz Laing (1954, citado por Gans). No ensinamento bíblico do Velho e do Novo Testamento, aprendemos que temos que: “Amar o nosso próximo como a nós mesmos”. Isso não é de fato tarefa fácil. Nos mandamentos bíblicos temos o maior de todos e o que complementa todos os demais mandamentos: “Ama o próximo como a ti mesmo”.

O próprio complexo de Édipo, coluna vertebral da psicanálise, é a história de como cada um de nós aprendeu a amar e a desejar. Não há dúvidas para a humanidade, que a maioria das pessoas, já se sentiram em êxtase com o amor.

AMOR X IDEALIZAÇÃO

Existe um tipo de amor que é carregado de idealização –, que perpassa o tempo e a transcendência entre os amantes, que faz crer que os dois se fundirão num só. Há também, a idealização de que andamos sempre atrás da cara-metade que irá nos complementar. Na realidade, isso vive no imaginário coletivo.

Mas, para amar, é preciso compreender que o amor é desconstrução. É a desconstrução do que havia antes, a idealização, para a construção da realidade.
Amar, então, começa com a perda do ideal de amor. Nesse sentido, amar é perder.
Lacan diz que “é preciso perder para poder falar. Amar está ligado à castração.”

Todavia, quando os amantes despertam dos sonhos de um amor idealizado, são compelidos a encarar aquele o qual idealizaram, com características que os desagradam. Portanto, quando o entorpecimento da idealização evapora, é quando a verdade sobre a convivência começa e, nos deparamos com os fantasmas reais, pois a idealização que um dia fizemos do outro, não era a verdade do outro, mas tão somente o nosso desejo.

AMOR X CULPABILIDADE DO OUTRO

Muito embora, há quem culpe o outro pelo amor que idealizou. Possivelmente, são indivíduos que ficaram regressos nas fases primárias, (a primeira infância). Esses serão sempre vítimas da vida. E, acredite, conseguem fazer com que o mundo à sua volta, os veja como vítimas dos seus parceiros amorosos. Há que se questionar aquele que se apresenta repetidamente de forma ingênua. Muitos são indivíduos extremamente sedutores e encenam como verdadeiros atores – tal é a credibilidade que conseguem, fazendo com que todos à sua volta os apoiem, diante do discurso da vítima. Desconfie de perfis que estão sempre na posição de vítima. Há que analisar, antes de um julgamento absoluto.

ESCRAVIDÃO DOS SENTIMENTOS

“A pior escravidão é aquela que acontece em função dos apegos, em que a pessoa tem a ilusão que precisa necessariamente de coisas e pessoas para ser feliz”.

Ressaltando o tema deste artigo: quando o amor vira entulho. Certamente, muitos de nós, bem como pessoas próximas a nós, já viveram relacionamentos que amargaram anos e anos de entulhos. Culminando assim, em mazelas que transbordam e desencadeiam doenças, inclusive, cardíaca, para retomarmos o início do nosso discurso, quando falamos que o amor povoa o centro cardíaco, bem como o amor idealizado e projetado subjetivamente – entulha um coração e tantos outros órgãos do corpo humano. “O coração de um homem é o melhor afrodisíaco que existe!”

AMOR E EVOLUÇÃO

Quando em um relacionamento os dois evoluem juntos, o amor prevalece, pois há o fortalecimento do vínculo afetivo através de bases sólidas como a tolerância e o respeito. Não há espaço para disputas porque se compreende e se aceita o outro exatamente como ele é. Certamente, os amantes fizeram a escolha de ficarem juntos pela liberdade de ambos – onde não deixaram espaços para entulhos que apareceram ao longo da convivência intoxicar a relação.

CONCLUSÃO

O amor que perdura além do tempo, é a forte crença de que a tal perfeição não existe, mas que o lindo e maravilhoso do início da relação se transforma e se reinventa. O amor maduro dispensa o comportamento impositivo, o orgulho e a arrogância, alimentando-se de empenho mútuo. É uma porta aberta para o que podemos chamar de plenitude.

REFERÊNCIAS

Autora, Luzziane Soprani

Laing, R. (1954). Reflexions on the ontology of human relation. Glasgow. Não publicado.

J. psicanal. v.42 n.77 São Paulo dez. 2009

Artigo publicado em 12 set 2013 | Este artigo tem 3 Comentários

 

catherine-zeta-jones
Você não pode ensinar nada a um homem; você pode apenas ajudá-lo a encontrar a resposta dentro dele mesmo. (Galileu Galilei).

O enunciado deste artigo é “conhece-te a ti mesmo, ou seja, nossa condição: quem somos, através de uma conexão evolutiva entre o pensamento, a busca da razão e o conhecimento abordado pela psicanálise, considerando o homem inserido na sociedade e na cultura”.

O fato é que nunca evoluí. Sempre fui eu mesmo. Mario Quintana, poeta (1906-1994).

Conhece-te a ti mesmo! É de se admirar: como um provérbio escrito há mais de dois mil anos pode ser tão contemporâneo. Mas, só podemos utilizá-lo, de forma apropriada, ao adquirirmos maior autoconhecimento e insights. Conhece-te a ti mesmo está dentro do reconhecimento do EU. Reconhecer qual é a “minha identidade”. Parece tarefa fácil –, mas não é bem assim, na verdade, nós estamos extremamente envolvidos uns com os outros – e este mix de envolvimento não é a nossa verdadeira identidade, entretanto, faz parte do nosso EU. O tempo todo estamos envolvidos com o desejo e a necessidade do outro. E ao pensar nesse envolvimento, percebemos que o medo faz parte do desejo, então, ocorre que, muitas vezes sentimos medo pelo o outro e, também, pelo que o outro representa em nós. Esse processo de reconhecer a própria identidade é permeado por crises. O caminho percorrido de (Conhecer a ti mesmo) é abastecido por crises. Estas crises  nos dão possibilidades de nos conhecer… E se, porventura, interrompermos esse fluxo de crises, a mente pode entrar em perigo; configurando assim, um xeque-mate. Isto é, o fim do jogo…

“O ar está tão carregado de espíritos que não sabemos como lhes escapar” Sigmund Freud, citando Goethe em Fausto.

É libertador descobrirmos que rejeição e desamor não são nem sequer análogos. Por exemplo: o relacionamento entre homem e mulher, quando ambos descobrem essa diferença dão a eles o poder do autoconhecimento. Dessa forma, aumentando o autoconhecimento, ocorre uma melhor qualidade nos relacionamentos. Na realidade, não rejeitamos o OUTRO; NOS rejeitamos no OUTRO. Mas à medida que aumenta o poder aumenta proporcionalmente a responsabilidade. É interessante analisar o que nós achamos. Geralmente, achamos que o defeito sempre está no outro. Mas qual é o poder que temos sobre o outro? O poder de mudança deve começar em nós. Quem deve mudar somos nós, não o outro, porque o rejeitamos por um problema nosso, não dele.

O reconhecimento da própria identidade é um processo árduo e em permanente construção, abastecido de crises existenciais, mas evitá-las pode colocar em xeque uma mente saudável. Prof. Renato Dias Martino.

Esse mecanismo acontece em todos os relacionamentos humanos. No terapêutico é bastante presente e comum e, por isso, deve ser sempre analisado. Por exemplo: se o terapeuta tem uma emoção reprimida nele e o analisando/paciente vive essa emoção que o terapeuta reprime nele mesmo, possivelmente, o terapeuta irá rejeitá-lo de alguma maneira – uma delas é sendo hostil em suas intervenções e/ou análises muito incisivas. Por isso, no meu ponto de vista, cada terapeuta tem seu próprio perfil no atendimento terapêutico, que entra no campo de suas vivências e emoções. Podendo haver empatia entre terapeuta/analisando ou não. Nesse caso, o feedback não será um depoimento sobre o comportamento dele, e sim um julgamento emocional, ou seja, vou condenar nele o que condeno em mim.

Só é possível aceitar o outro se eu me aceitar, e só posso me aceitar se me conhecer. Surgi desse ponto o provérbio socrático: “conhece-te a ti mesmo”.

Sócrates era o filósofo por excelência e sua atividade básica era questionar, perguntar, e assuntar, especialmente sobre o homem e o que ele sabia de si. Ele ia de pergunta em pergunta, nem tão interessado na resposta, mas na questão “conhecer-se”, chegando a dizer, de tão sábio, que “só sei que nada sei”… A importância de Sócrates criou inclusive “períodos” na história da filosofia: pré-socrático e pós-socrático. Assim, as questões sobre o homem em busca de si mesmo acompanham a história da cultura e da civilização desde os seus primórdios. Suas dúvidas são as minhas também, provavelmente não teremos “respostas”, mas necessitamos assuntar e indagar.

O pior de uma boa pergunta é uma resposta que pode acabar com a curiosidade de quem questiona; e mesmo porque nem sempre há resposta!  Na verdade, somente podemos nos conhecer parcialmente e de maneira muitas vezes enganosa. Entre outros fatos, porque nós somos indivíduos inseridos em um tempo: presente, passado e futuro; e quem fomos ontem, não somos hoje e quem somos hoje, não seremos amanhã.

Para concluir este artigo, vale ressaltar que os sonhos da humanidade, são seus mitos e os mitos dos homens são seus sonhos.

Como diz Caetano Veloso, “de perto ninguém é normal!”.