Artigo publicado em 28 ago 2013 | Este artigo tem 13 Comentários

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“O sintoma é a estrutura.” Jacques Lacan.

O presente artigo tem por objetivo discutir o desvio de caráter e classificá-lo em uma estrutura.
A psicanálise estuda, reflete e trabalha as hipóteses diagnósticas a partir de três principais grupos de estruturas clínicas: Neurose, Psicose e Perversão. Evidentemente que para a psicanálise, o sujeito está caracterizado em uma dessas três estruturas. Abordaremos, portanto, nesse artigo a estrutura Perversa.

Vale ressaltar, que existem nomenclaturas diferentes, mas similares, por exemplo, na psiquiatria a estrutura perversa é chamada de psicopatia. O que discutiremos neste artigo é a estrutura perversa. No entanto, PERVERSO e PSICOPATA têm significados semelhantes.

O conceito de perversão sofreu modificações do início freudiano aos nossos dias. Não devemos confundir a estrutura perversa citada pela psicanálise com as perversões listadas pela psiquiatria e/ou outras ciências e mesmo religiões e filosofias. A perversão do ponto de vista psicanalítico, é uma renegação da castração, com fixação na sexualidade infantil. O sujeito aceita a realidade da castração paterna, que, para ele, é inegável; mas, ainda assim, diferente do neurótico, tenta desmenti-la e negá-la. Para Lacan, a perversão será detectada no discurso de cada um. O perverso se dá o direito de transgredir a lei e viver segundo seus próprios requisitos, enganando as pessoas. Em uma linguagem popular, o perverso é o mau-caráter.

Popularmente muito se escuta estas frases: “Não se pode julgar um livro pela capa. Não se pode criticar pela aparência. Eu sou quem eu sou!” Ana Rufato.

Mas o sex-appeal do perverso mora nos detalhes. Mas também são nos detalhes que residem às armadilhas e maldades do sujeito. O fato de saber mais detalhes da vida de uma pessoa, não quer dizer que conheça o seu íntimo.

A terapia pode curar pessoas com desvio de caráter?
O que nós chamamos de desvio de caráter, a psicanálise chama de perversidade. A psicanálise vê o sujeito com desvio de caráter ou “mau-caratismo” e responde se esse desvio tem cura ou não. Todavia, não existe cura para o sujeito perverso. E não hesite em se iludir, pois a conta a ser paga culminará com a sua saúde ou a própria vida.

Para a psicanálise, o perverso é um sujeito embotado que pratica a maldade e afeta a vida do outro tanto psíquica como física. O perverso é aquele sujeito desprezível, com falta de consideração, que incita o desdém – e faz de tudo para ver o outro – usado por ele – desestabilizado. Portanto, o perverso raramente perde o controle, porque o perverso é embotado. A razão dele é intacta as emoções.

O perverso é aquele sujeito que só tem como meta o prazer e o horror que causa na sua presa. Portanto, não respeita nenhuma lei, que não seja o prazer do gozo para ele. O prazer é a única lei do perverso. Esse perfil desconhece a culpa, não sente culpa e, possivelmente, dependendo do grau do seu desvio de caráter não sente e nunca sentirá angústia.

O perverso sabe tudo! O perverso tem uma lábia que “nós neuróticos” não conseguimos ter. Eles são os melhores sedutores. Por exemplo: ele sabe falar como ninguém, seduz como nenhum outro. Por isso, quando analisamos os casos clássicos da perversão, percebemos o porquê eles são tão sedutores e instigantes. Ou quando convivemos com um desses. Da experiência de convivência e/ou ter convivido com um sujeito de estrutura perversa, restará marcas – feridas – na psique.

“Poderíamos dizer que o psicopata é aquela pessoa que sabe a letra da música, mas não sente a melodia”.  Ana Beatriz Barbosa Silva.

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O tratamento terapêutico não é viável para a estrutura perversa, só servirá para esse sujeito aprender a manipular ainda mais, e ficar ainda mais requintado nas suas maldades. O sujeito só é analisável, quando ele pode conjecturar que o analista tem o saber do qual ele pode se beneficiar. Se não houver esse entendimento para o sujeito que, se põe a ser a analisado, compreendendo que essa realidade é a base para o bom desempenho terapêutico, não existirá análise possível de progresso. Mas ressaltamos aqui, o mau-caráter não é analisável do ponto de vista da psicanálise clínica.

CONCLUSÃO:
Não existe na análise cura para tudo. Não raro, existem pessoas que nunca vão assumir a sua identidade verdadeira, ou nunca vão conseguir resolver determinado trauma, independente, da estrutura. O tratamento analítico, portanto, depende de cada sujeito e do nível de profundidade que queira atingir. Mas, não se pode iludir, a terapia não funciona para as mentes perigosas, pois são frios, calculistas, insensíveis, inescrupulosos, transgressores de regras sociais e absolutamente livres de constrangimentos ou julgamentos morais internos. Eles são capazes de passar por cima de qualquer pessoa apenas para satisfazer seus próprios interesses. Mas ao contrário do que pensamos, não são loucos, nem mesmo apresentam qualquer tipo de desorientação. Eles sabem exatamente o que estão fazendo.

REFERÊNCIA:
Mentes Perigosas – o Psicopata Mora ao Lado
Ana Beatriz Barbosa silva 

Artigo publicado em 13 ago 2013 | Este artigo tem 1 Comentário

 

O amor não é inerte. 1

 

“Naturalmente, não se tem sucesso em tudo, mas é preciso querer tudo”.

Jean-Paul Sartre.

É sempre um enorme questionamento: Paixão e Amor. Mas estar “apaixonado” e “amar” são dois sentimentos distintos. A ideia de que paixão e amor é um caso só é um grande equívoco, responsável pelo fracasso de inúmeros casamentos. Por quê? Porque a paixão é garantida pela impossibilidade. O próprio verbo já diz: TU te apaixonas e TU amas o OUTRO. Quando uma pessoa SE apaixona por outra, acontece um processo natural e humano – chamamos isso de projeção – o Outro passa a ser o objeto da projeção. Ou seja, nós projetamos os nossos ideais e desejos na outra pessoa – são perspectivas que na verdade, são nossas e inconscientes. Ocorre que NÓS nos apaixonamos por NÓS mesmos… Por isso, a paixão é uma projeção de nossos ideais/fantasias em relação ao Outro que habita em Nós.

A paixão acontece para que possamos nos aproximar e nos envolver. As “imperfeições” próprias de todos os seres humanos ficam ocultas por um véu de glamour e idealizações que com o tempo serão substituídos pela realidade que se apresentará no decorrer da convivência.

O amor tem a ver com aceitação. Eu descubro o Outro e o aceito como ele é. O que descubro no parceiro pode satisfazer-me ou não, mas esse é o movimento. Dessa maneira, EU opto por estar com aquela pessoa por quem um dia estive apaixonado (a), não por que o parceiro (a) corresponde a todas as minhas expectativas, mas porque eu escolho compartilhar a vida ao lado dele (a).

Por exemplo, Tristão e Isolda: proibidos de se amarem quando na corte, estavam perdidamente apaixonados; na floresta, livres da proibição, acabou a paixão, retornavam à corte – e a proibição, e se apaixonaram novamente. A paixão é sempre o amor proibido ou ainda não conquistado, onde todos os impulsos são vividos com extrema intensidade: é o máximo de amor, de ciúme, de ódio.

Não é por acaso que as pessoas se apaixonam com maior facilidade quando existem obstáculos externos. Não raro, à distância geográfica faz com que parceiros fiquem entusiasmados e levados há uma paixão súbita. Outro fator intrigante são os proibidos, como às pessoas que são casadas, etc. Estas asseguram um certo espaço de afastamento e, portanto, o proibido os dão liberdade.

Mas isso não exclui completamente a paixão. O ser humano continua a projetar, sempre. No entanto, dizemos que a paixão é um tempero. Esse tempero como qualquer outro, deve ser usado com sabedoria para não comprometer a fórmula.

Artigo publicado em 08 ago 2013 | Este artigo tem 2 Comentários

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“A verdade não é outra coisa senão o que o saber só pode aprender que sabe ao pôr em ação sua ignorância.” (Escritos, Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano p.812). 

Existem pessoas que se apaixonam pela experiência proporcionada pela paixão. Dessa maneira, acaba vendo no outro apenas um espelho refletido de suas expectativas.

Qual a necessidade de se ter uma paixão? Talvez seja o pensamento que mais seja questionado nesses tempos contemporâneos

A resposta mais sensata pode ser: ter um amante para nos fazer companhia, bem como: dividir projetos, sonhos, alegrias, angústias, tristezas, e também receber e dar afeto, cuidados e proteção.

A partir desse ponto de vista, os amantes seriam bons companheiros e o sucesso da união dependeria dos adjetivos em comum de cada um e não das diferenças entre os parceiros.

A paixão pode até acontecer no início do relacionamento, mas na convivência do dia a dia ele deve evoluir. Para uma convivência duradoura demanda – calma e sensatez – os amantes devem navegar em mares serenos e seguros para que possam descobrir o amor de uma vida a dois.

A experiência subjetiva da paixão retira a pessoa dos paradigmas em que ela se encontra e a coloca em uma nova maneira de ser e ver o mundo a sua volta. A paixão marca a personalidade naquele momento e dá uma vitalidade incomum de disponibilidade e encantamento. Todas as áreas da vida de um momento para o outro passam a ser avaliada como muito positiva. O mundo do apaixonado passa a ser visto de forma colorida, preenchendo a alma dos amantes, como se refletisse a imagem de um EU em estado de plenitude, magia, meiguice, sensualidade, força e muita disposição para viver.

Mas vale questionar: “Qual é o lugar que se encontra o objeto desejado, nesse enredo?” O outro é quem instiga o movimento desse amor, ou, àquele que incita/estimula o desejo de amar. Mas, às vezes, essa resposta é tão forte que transcende. A pessoa entra em uma dimensão avassaladora pela experiência da paixão que já não tem mais contato humano e real com o objeto do seu amor, ou seja, aquele que o coloca, supostamente, nesse estado.

A paixão pode ser um sentimento perigoso e enganador, uma patologia que afeta corações inocentes e traz consequências destruidoras: o caminho de uma paixão possessiva é a frustração, o arrependimento e a infelicidade.

Quando a paixão enfeitiça o sujeito, implica dizer: que somos incompletos, porque na realidade somos seres incompletos em estado de continua evolução. Estar apaixonado é estar em um mundo de incertezas e, por isto, muitos se assustam perante a paixão. Diante das frustrações as pessoas recorrem, então, a estratégias para se ver livres deste incômodo.

Deveríamos compreender que o que idealizamos do outro é uma ficção e que a ficção escapa o mundo real. Os mistérios da paixão demandam uma contínua invenção. O desconhecido instiga, seduz, intriga, entusiasma, fascina o sujeito, embora possa estigmatizá-lo. Mas um bom começo para se perceber o outro como uma imagem sem possibilidade de frustração é perceber a si próprio como definitivamente incompleto. Desta forma, podemos conviver com nosso amante, ouvir juras de amor e ainda assim manter o desejo – descobrindo no dia a dia que a verdadeira convivência de parceria, companheirismo e o mais importante

Quando a situação é favorável, quem ama se sente preenchido pelo que tem de melhor. Justamente em razão disso, corre um sério risco: o de se apaixonar perdendo de vista àquele que crê amar. Nesses casos, a pessoa – ama/amar – mas nem sempre o parceiro se beneficia desse amor.

Por fim, fixe seus pés no chão, olhe para dentro de si e se conheça. Admita suas imperfeições. Para poder conviver com o outro, entenda que não existe no mundo alguém que seja sua imagem e semelhança refletida, portanto, não vale à pena perder tempo tentando encontrar a cara metade. O amor é muito mais que isso, o amor é viver com os cinco sentidos da alma, é compreender, é confiar e, principalmente, sentir que a divindade habita dentro de nós.