Artigo publicado em 06 jun 2013 | Este artigo tem 1 Comentário

Melancolia. Uma linha tenuê do existir.

“O sofrimento sempre acompanha uma inteligência elevada e um coração profundo. Os homens verdadeiramente grandes experimentam uma grande tristeza, acometido de uma melancolia súbita.” Fiódor Dostoiévski

O presente artigo consiste em uma breve revisão teórica de como a psicanálise explica a melancolia.

A melancolia é uma dor de existir. A melancolia é uma dor que não se descreve. Geralmente, a melancolia é vista como depressão, e não é só depressão. Faz parte da natureza humana essa dor. Desde Freud, a “dor de existir” vem sendo observada e, atualmente, seu conceito parece confundir-se com a depressão. A pessoa que se encontra na depressão pode sair da depressão. Portanto, esta condição abre um espaço de interpretação singular.

Não é de hoje que a Psiquiatria biológica tenta inutilmente ignorar a subjetividade da dor e da existência humana, buscando respostas dentro do contexto biológico e sonha com o dia – que nunca virá – em que um comprimido irá curar todos os males do mundo. Segundo Estevão (1997) apud Moreira 2001.

DA FARMACOLOGIA:

Não raro, esses acontecimentos se resumem em interesses oculto-suspeitos e nada éticos em que grandes laboratórios estão por detrás e compulsivamente procuram explicar a busca da solução para as angústias humanas numa pílula mágica. O poder e o interesse econômico entram num campo limítrofe e delicado com a fantasia onipotente, com falsas promessas e muitos lucros.

DOS ANTIDEPRESSIVOS:

“Os antidepressivos são ministrados de forma abusiva. Não é só psiquiatra que prescreve. Em alguns locais do mundo, como Estados Unidos e Inglaterra, cerca de 60% das prescrições de antidepressivos são feitas por clínicos gerais, ginecologistas, cardiologistas, entre outros. No Brasil, provavelmente, é parecido porque não há estatística confiável que eu conheça a esse respeito aqui. Quais são os efeitos nocivos dos antidepressivos? O paciente fica como se fosse uma outra pessoa porque o antidepressivo induz a um contentamento que não depende dos fatos da vida. Ele não fica contente porque conseguiu se formar na faculdade, porque teve um bom resultado no trabalho ou porque a família vai indo bem. Não fica feliz porque conquistou coisas, que é o natural. Ele se contenta por ação química. Os fatos da vida dele são os mesmos. E também não houve um amadurecimento emocional para aceitação de eventuais fatos nocivos e desagradáveis. Está tudo igual. O medicamento induz ao contentamento indiscriminadamente. Por isso que digo que é a ação do antidepressivo. Qual o outro efeito nocivo? Ele se dá como se apenas uma parte da pessoa reagisse de forma não depressiva. Em psicanálise nós falamos que na depressão existe uma fúria sádica do sujeito contra ele mesmo, que o faz querer se autodestruir. O antidepressivo pode agir somente numa parte disso. Ou seja, a pessoa sai daquele estado triste, mas permanece a fúria sádica, só que não mais contra si, mas contra alguém próximo. Ele culpa alguém pelos males do mundo. É como se outra pessoa, e não mais ele, tivesse de ser punida. Mas ele não fala isso claramente.” Segundo o psiquiatra e psicanalista Rubens Hazov Coura.

DA ANGÚSTIA, TRISTEZA E A DOR DE EXISTIR:

Em tempo algum podemos esquecer que a tristeza, a dor e a angústia fazem parte da natureza humana – o ato de existir nos expõe a essas sensações no decorrer da vida. Ninguém está isento disso. Exceto os sujeitos que nascem com uma deformação em sua conduta, que é o caso do perverso – esses não sentem angústia, não sentem a dor de existir – eles apenas coexistem. A dor tem sido condição para o desenvolvimento na natureza humana. Sem dor não há crescimento. A evolução humana é com dor, o aprender é com dor. Todo nosso processo de nascer, viver e morrer são perpassados pela dor e angústia. A tristeza, a dor e a angústia fazem parte da natureza humana e o fato de existirmos nos expõe a essas sensações.

DA DEPRESSÃO E A MELANCOLIA:

A depressão e a melancolia para a psicanálise são distintas não só quantitativa como qualitativamente: a primeira é um sinal clínico e a segunda uma categoria diagnóstica, não justificando seu agrupamento num quadro único como pretende a psiquiatria atualmente com a criação do conceito de “Transtornos do Humor.”
Mas, o acompanhamento de um profissional da condição humana é necessário, quando o sujeito está acometido da depressão e comorbidades. O tratamento deverá ser acompanhado por um psiquiatra e psicoterapeuta. Trabalhar o desenvolvimento emocional para que o paciente-analisante reflita e traduza seus pensamentos, criando condições para contornar sentimentos que julga insuportável.

A depressão é, portanto, um problema de saúde e necessita de atenção. Se ela anda sufocando-o, chega de sofrer em silêncio. O melhor remédio que um analista pode oferecer é a oferta da escuta que promove o bem dizer sobre o saber recalcado e proibido, que vai de encontro ao dever ético de orientar-se no inconsciente-consciente.

A partir do que foi exposto pôde-se ter uma noção a respeito da melancolia. Ficam alguns questionamentos a serem ainda investigados e estudados, para um posterior artigo em discussão.

 

Referencias:

Revista ISTOÉ Independente. Edição: 1563.