Artigo publicado em 19 mar 2013 | Este artigo tem 4 Comentários

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Muitas vezes as coisas que me pareceram verdadeiras quando comecei a concebê-las tornaram-se falsas quando quis colocá-las sobre o papel”. René Descartes.

A mente humana sofre a tendência de achar que está vendo e entendendo todas as situações e as pessoas à sua volta. Mas o que vemos são aparências. Elas são apenas – como o próprio nome revela aquilo que aparece aos sentidos. E eles só satisfazem a percepção sensorial superficial. Mas perceber o que está de fato diante de nós exige um esforço enorme, apenas iludido pela facilidade da percepção das aparências – ou das intuições precipitadas por elas não nos beneficia.

Esta facilidade que nos é concedida pelo sentido visual é percebida e, ligado à superfície da consciência, produz uma ilusória noção de controle da realidade e sentimento de onisciência.

As aparências enganam. Quando um homem ou uma mulher desejam enganar alguém, procuram não despertar dúvidas e desconfianças e fazem o possível para disfarçar suas intenções. Isso ocorre porque o critério de se valorizar alguém pelas aparências falha frequentemente.

Os acontecimentos são sempre mais complicados do que parecem quando queremos chegar a uma conclusão sobre eles. As nossas relações costumam ser construídas através da aparência. Devo ser amigo (a) daquela pessoa que se destaca, pois quero ser como ele (a). Quero me relacionar com aquele homem ou àquela mulher interessante, charmoso (a), educado (a), sensível, super popular e, assim, serei uma pessoa invejada e feliz. Meu alvo é aquele emprego, pois é de destaque e paga muito bem. Somos tentados a tudo isso. Pois vivemos na ilusão das aparências. Não significa que não devemos buscar o que é bom, ou que tenha a aparência de bom. Significa que não devemos nos impressionar com as aparências, e fazer às nossas decisões baseadas apenas nisso. Significa também que, devemos prestar mais atenção aos sinais e usar melhor à nossa percepção-razão-intuição. Diz o ditado: “Não vá com muita sede ao pote. Quem muito corre, acaba por não saciar a sua sede.” Tudo demasiadamente em excesso torna-se perigoso, e nos faz perder a moderação, até mesmo nossos maiores desejos.

O problema não é o mundo contemporâneo, mas os seres humanos: o caráter, a personalidade, a essência humana que habita em cada um de nós. Há também suas instituições: atividades sociais, familiares e políticas.

O oráculo enganador tampouco é só externo, atua desde dentro, na mente de cada um, nos acometendo de equívocos, ilusões, distorções, fantasias. No entanto, a espécie humana prefere viver na ilusão, pois a verdade se acerca do desprazer. De maneira ideal, o oráculo enganador pode ser combatido pelo pensar crítico e lúcido, pela extensão da consciência.

Sabemos que para tudo nesta vida devemos nos empenhar, querer e lutar – e quanto mais nos empenharmos mais rápido e melhor poderão ser os resultados -, mas os resultados obtidos podem chegar pelas vias mais complicadas, dependendo de como cada um se posiciona. George Orwell dizia que enxergar o que está diante do nosso nariz exige um esforço enorme. Quando queremos muito algo e não temos a “paciência em esperar”, por assim dizer, racionalizar um pouco mais, sem perder a emoção e a motivação, acabamos por aceitar o que é talvez parecido ilusoriamente, mas não fosse totalmente o que desejávamos, simplesmente, para satisfazer o EGO – e quando se acorda logo vem à frustração – de não ser exatamente aquilo o tão sonhado querer.

Como dizem, as aparências enganam, mas nem tanto. É preciso nos atentar aos sinais, pois os indivíduos sedutores, sempre deixam algum rastro. Portanto, quando tiver que fazer uma escolha, nunca faça movido só pelas emoções. 


Artigo publicado em 12 mar 2013 | Este artigo tem 4 Comentários

Amor e identificação!

“O narcisismo das pequenas diferenças é a obsessão por diferenciar-se daquilo que resulta mais familiar e parecido”. Sigmund Freud.

A escolha de um amor, às vezes acontece pelo simples ato de olhar e sentir-se atraído pela figura a qual nos enxergamos e desejamos. Não devia ser um impulso cego guiado por emoções e atrações. Incorpora também considerações para com o outro, na busca de sinais a revelar se é alguém que pactua dos nossos quereres, desejos, qualidades, defeitos e virtudes – sobrepujando sempre mais para as qualidades. Mas tirar a sorte grande é quase impossível.

Nos encontros amorosos, as pessoas nem sempre colocam seus sentimentos em certa ordem para ouvir a voz da intuição, ou ainda, racionalizar para ajudar a prever, o que ambos desejam – quais são suas singularidades e necessidades? Ou seja, com qual perfil de pessoa conseguem se ajustar. Ter sensibilidade de si e do outro para intuir com quem estão se envolvendo – esta certeza não é simples, mas, por vezes, é muito mais um risco de se descobrir quem é o outro que nós buscamos? Aqueles que estão atraídos se conectam por excitação e, não raro, por intuição, quase nunca ativa a razão, ignorando o que se esconde nas aparências. E é nisso que se oculta o risco das desilusões.

Na realidade, ambos os sexos podem padecer uma ligação de impasses: essa é uma questão pertinente: inconscientemente pode gerar uma atração que seja coadjuvante também dos conflitos internos. Não são os opostos que se atraem, mas sim, as neuroses que as completam – ou pelo menos, um encontro de atrações de suas neuroses e desejos internos, conflitos e ressentimentos pregressos e, dessa forma, representam também os afetos positivos. Isso acontece, em menor e maior intensidade, dependendo de cada caso vivido. Mas, se os parceiros têm em si equilíbrio emocional, suas escolhas incidirão sobre pessoas que lhes trarão relacionamentos saudáveis. Quem foi criado, num ambiente generoso onde prevaleceu a sobriedade, demonstrando o bom senso cercado de carinho e atenção necessária, tende a não entender sinais mais confusos e situações inquietantes. E provavelmente não ficarão nessas relações.

As pessoas escolhem suas relações conforme os desejos e necessidades de suas histórias de vida.

A manifestação de atenção, por vezes recai sobre quem dá conta dessas pessoas, e sustenta sua subsistência física e afetiva. O que ocorre é o que essa situação reproduz na imaginação, evocando o passado do primeiro amor, aquele que era ocupado à pessoa que os alimentava. Não raro certa cota dessa sobrevivência surgi em toda relação – aliás, quem não gosta de ser cuidado e amparado? Nós seres humanos somos dependentes e com certa fixação na infância. Há muitas relações, muito mais do que podemos imaginar, que são mantidas nesse contexto.

No entanto, quem comanda as escolhas é o mestre do amor a Si mesmo. Percebe-se que na maioria as escolhas são nossos espelhos. “Eu me vejo no Outro”. Nossa relação narcísica. E assim, relacionamentos que não evoluem para outras fases, geralmente, são sujeitos que só se unem a outros que se identificam com os mesmos sintomas. E nisso podem residir as escolhas de pessoas do mesmo sexo para se relacionar, ainda que, não seja um modelo que esclareça tudo.

Na juventude, estamos no estágio do aprender, e na maturidade, compreendemos o que nos invoca a sabedoria. Embora só o amor seja o motor de quase todas as nossas transformações.