Artigo publicado em 22 jan 2013 | Este artigo tem 3 Comentários

Razão e Felicidade!

Não basta existir, é preciso viver. E viver é muito mais que existir.
Viver implica aprender e, para ser aprendiz, é preciso humildade para reconhecer a própria ignorância. (Maísa Intelisano – São Paulo, 02 de fevereiro de 2005).

Passamos à vida tentando chegar a um lugar imaginário, onde há uma felicidade esperada por nós. O que não sabemos é como chegar nesse lugar que a felicidade está. A propósito como viver em harmonia com o outro, se não abrir mão da razão?

Tem muita gente que prefere ter razão a ser feliz. As pessoas somatizam dores, pelo desejo de provar um ponto de vista inflexível. Elas morrem por causa da sua imbatível razão. Chegou o fim, porém, ele (a) não perdeu sua razão. Provou que estava certo! Só que acabou.

A gente pode se sentir feliz quando acha que a vida que se está vivendo vale a pena ser contada. E é importante considerar que isso não acontece no final do balanço, quando o padre chega para dar a extrema-unção. O ideal é enxergar esse sentido na própria história sempre, mesmo aos 15 anos. Contardo Calligaris.

Nos relacionamentos entre casais – existem pessoas que foram feitas para qualquer um, menos um para o outro, ou seja, nunca deveriam ter se aliado. Há situações tão óbvias que quando analisamos cada um em particular, estas pessoas acabam percebendo esta realidade. E se questionam: “Eu nunca deveria ter me relacionado com aquela pessoa”. “Eu não devia ter aceitado as condições impostas por ele (a)”.

Quanto mais uma razão cultivada se consagra ao gozo da vida e da felicidade, tanto mais o homem se afasta do verdadeiro contentamento; e daí provém que em muitas pessoas, e nomeadamente nas mais experimentadas no uso da razão, se elas quiserem ter a sinceridade de o confessar, surja um certo grau de misologia, quer dizer de ódio à razão. E isto porque, uma vez feito o balanço de todas as vantagens que elas tiram, não digo já da invenção de todas as artes do luxo vulgar, mas ainda das ciências (que a elas lhes parecem no fim e ao cabo serem também um luxo do entendimento), descobrem, contudo que mais se sobrecarregaram de fadigas do que ganharam em felicidade. (Emmanuel Kant, in “Fundamentação da Metafísica dos Costumes”).

A estupidez humana é digna de troféus! Se buscarmos nos relacionar com as pessoas é preciso respeitar a condição do outro e vice-versa. Pois é, qual o propósito de se ter razão o tempo todo? Ter razão significa provar algo para alguém. Provar seu ponto de vista. Por exemplo, é exigir de si mesmo viver da razão e não das suas emoções. Mas, isso só tem valor, se o resultado disso for útil para quem prova. Se quem prova não só não ganha nada com à sua suposta prova –  desse modo, pode-se perder toda uma vida. Então, qual o propósito de brigar tanto pela prova?

Às vezes, é preciso deixar a razão de provar tudo para encontrar a felicidade. Enfim, nem sempre temos razão sobre a maioria das coisas que pensamos, falamos e/ou fazemos. Está em jogo a subjetividade de cada um… Tenha menos razão e seja mais feliz!

 

 

Artigo publicado em 10 jan 2013 | Este artigo tem 4 Comentários

O “bom sedutor” tem em si a síndrome do Don Juan. O Donjuanismo é uma expressão em desuso que veio à tona há algum tempo, depois do filme: Don Juan de Marco, com Marlon Brando e Johnny Depp. O donjuanismo é um protótipo particular do comportamento humano, esta baseado particularmente em valores culturais e morais.

De cara, ele pode parecer irresistivelmente sedutor e até carente. Mas o modo de agir nem sempre é o mesmo, embora seja um bom rótulo usado para classificar qualquer homem com tendências a praticar canalhices.

A tese pode não ter base científica, mas a percepção dos relacionamentos da vida real indica que é verdadeira: homens com perfis gente boa, atenciosos e dedicados não despertam tantas e tão acaloradas paixões quanto os que têm ares de aventureiro indomável, e deveriam trazer escrito na testa “nada confiável”. Jovem ou madura, quase toda mulher tem ao menos um relacionamento-encrenca para contar. É que a lista de razões que faz a preferência feminina reincidir sobre o homem-furada é vasta.

Segundo Jung, para quem qualquer forma de arte, assim como os mitos, são veículos para a expressão do inconsciente coletivo, Don Juan pode representar nossos arquétipos (Walter Boechat – veja mais sobre o filme).Trata-se de um padrão de personalidade caracterizado por uma pessoa narcisista, enamorada, inescrupulosa, amada e odiada e que faz tudo valer para a conquista de uma pessoa.

Independente das interpretações psicanalíticas sobre o filme Dom Juan de Marco, interessa aqui apenas caracterizar um tipo de conduta atual. Descreve-se o donjuanismo como uma personalidade que necessita seduzir o tempo todo, que aparentemente se enamora da pessoa difícil, mas, uma vez conquistada, a abandona por desinteresse. As pessoas com esse traço não conseguem ficar apegados a uma pessoa determinada, partindo logo em busca de novas conquistas. Elas são os anarquistas do amor (Sapetti), tornando válidos quaisquer meios para conquistar, não obstante, os sentimentos da outra pessoa não são levados em consideração. Aliás, Foucault enfatiza essa questão ao dizer que Don Juan arrebenta com as duas grandes regras da civilização ocidental, a lei da aliança e a lei do desejo fiel.

Em psiquiatria clínica, entretanto, o desprezo para com o sentimento alheio pode ser critério para caracterizar uma atitude psicopática ou antissocial. Para o Don Juan só interessa o hedonismo, o instante do prazer e o triunfo sobre sua conquista, principalmente quando a pessoa de seu interesse tem uma situação civil proibida (casada, freira, irmã ou filha de amigo, etc. Ou ainda, os correspondentes masculinos). Sobre essa característica o escritor Carlos Fuentes, alega ao seu Don Juan a frase: “Porque nenhuma mulher me interessa se não tiver um amante, marido, confessor ou Deus, ao qual pertença…”.

Pois é, o tipo cafajeste é realmente sedutor e, se a autoestima, estiver baixa e a carência em alta, ele vai parecer ainda mais irresistível. “O cafajeste é propaganda enganosa”, diz Fabricio Carpinejar, autor do livro de crônicas “Canalha!” (ed. Bertrand Brasil). Para ele, a mulher que se deixa levar pelo “cafa” é carente e pouco exigente. ‘Como ele cria um papel, e certamente será desmascarado, procura as ingênuas. Assim, a farsa dura mais.

Até o rótulo de cafajeste, um tanto genérico, contribui para as mulheres serem atraídas para emboscadas. Acontece que os “cafa” e/ou “Don Juan” não seguem um único script. Ao contrário, podem assumir diferentes personagens, tornando mais difícil desmascará-los antes de o estrago estar feito. Como medida preventiva, seria viável observar nas entrelinhas os seus atos falhos. Mas até aí seria se policiar demais?  E apostar de menos?

Normalmente essas pessoas ignoram a decência e a virtude moral, mas seu papel social tenta mostrar o contrário; são eminentemente sedutores. O aspecto de desafio mobiliza o Don Juan, fazendo com que a conquista amorosa tenha ares de esporte e competição, muitas vezes convidando amigos para apostas sobre sua competência em conquistar essa ou aquela mulher. Não raro, esses conquistadores trazem listas e relações das mulheres conquistadas, tal como um troféu de caça.

Por outro lado, segundo Kaplan, deve haver significativos sentimentos homossexuais latentes nesses indivíduos. Esse autor considera que, levando para a cama a mulher de outro, o donjuan estaria inconscientemente se relacionando com o marido, motivo maior de seu prazer. Tanto que é maior o prazer quanto mais expressivo é o marido ou namorado traído.

O narcisismo (traço feminóide) dessas pessoas é uma das características mais marcantes, a ponto delas amarem muito mais a si mesmas que a qualquer outra pessoa conquistada. Outros autores acham o donjuanismo um excesso do complexo de Édipo, ou fixação na mãe, já que muitos deles não constituem família com nenhuma de suas conquistas e acabam vivendo para sempre com suas mães. Em contrapartida, muitos desses perfis se casam, algumas vezes, ou vivem de aventuras amorosas.

Apesar dessa compulsão à sedução, isso não significa que a pessoa portadora de donjuanismo seja, obrigatoriamente, mais viril ou mais ativo sexualmente. Esse quadro não deve ser confundido com a Atividade Sexual Compulsiva onde, aí sim há hipersexualidade.

A trajetória de sua vida nem sempre resulta num final satisfatório. Normalmente as pessoas com esse perfil de personalidade acabam por não se fixarem com nenhuma companhia mais seriamente, e acabam se aborrecendo quando constatam que não têm mais facilidade para conquistar mocinhas de 20 anos, quando já estão na casa dos 60. Além disso, muitas vezes acabam ridicularizados por essas tentativas totalmente fora do contexto.

“Ser de todo mundo, não ser de ninguém, é o mesmo que não ter ninguém também… É não ser livre para trocar e crescer… É estar fadado ao fracasso emocional e à tão temida solidão.”

 

Bibliografía
Brockman DD – The fate of Don Juan: the myth and the man – Adolesc Psychiatry,
1992, 18:, 44-62
Holzbach E – Don-Juanism. Sexual formation of style as a culture-historical phenomenon and psychiatric problem – Schweiz Arch Neurol Neurochir Psychiatr,
1977, 120:2, 227-41
Kaplan H, Sadock B, Grebb J – Sinópse de Psiquiatria, Koogan, 4ª ed. 1994.
Sapetti A – Los varones que saben amar, Buenos Aires – Galerna, 1996.
Sapetti A, Rosenszvaig R – Sexualidad en la pareja – Buenos Aires, Galerna, 1987.
Smith CU – Don Juan and the vision of Vision – Perception, 1981, 10:4, 435-53