Artigo publicado em 17 dez 2012 | Este artigo tem 1 Comentário

“De erro em erro, vai-se descobrindo toda a verdade”. Freud.

São muitas as pessoas que podem afirmar já ter vivido um relacionamento desatinado. A relação doentia é aquela que se projeta sob um conluio inconsciente e neurótico, baseando-se no início a identificação de um no outro, não raro acreditam que se encontraram porque tinham muito em comum, mas na medida da convivência vão percebendo dois mundos distintos, e que jamais se misturariam – causa dos conflitos e desatinos, que age contra a saúde emocional dos parceiros ou, pelo menos, de um dos envolvidos que tenha sensibilidade para perceber que algumas pessoas só chegam para fazer arrastões tremendos.

Ela pode começar com um aspecto saudável, resultado de real afinidade sexual, afetiva, e mais outras coisas envolvidas, por outro lado, não tarda e a patologia surgi, podendo desencadear os mais diversos sentimentos: ciúme, competição, crítica, agressividade, negligência, rejeição, chantagem. Quem vive uma relação assim, muitas vezes tem dificuldade de se desvencilhar do parceiro porque sente que algo o prende a ele e/ou porque acredita que é apaixonado e não consegue deixá-lo, mesmo sabendo do alto preço que está pagando. Relações dessa natureza são destrutivas, já que elas vão, aos poucos, minando a saúde emocional e a autoestima dos parceiros – reiterando, ou, pelo menos de um dos parceiros, e costumam causar danos gravíssimos. No entanto, o que move esse tipo de relação é o “SENTIR” apaixonado. De fato, não há como duvidar que possa haver sentimentos bons e verdadeiros nesses casos. Porém, o investimento afetivo é tão exacerbado que a pessoa se vê vazia, esgotada e desgastada. Não há reciprocidade, apenas desgaste/desperdício.

Nesse contexto, mesmo os mais apaixonados percebem que a relação é prejudicial. Então, passam a se posicionar para uma provável separação. Entretanto, como é muito dolorido terminar um relacionamento, muitas acabam por protelar a decisão: a pessoa começa  manipular a si mesma, ou seja, marca uma data, mas sempre acha cedo para um diálogo, isto é, quando dá para ter diálogo.

Mesmo sabendo que é o melhor, questiona a sua capacidade de suportar o fim e de fazer a travessia de volta a uma realidade saudável. Uma relação assim consome a autoestima porque faz a pessoa duvidar da própria capacidade, pois geralmente, uma das partes na relação subestima tanto o outro, que esse, o mais sensível acaba por acreditar ser incapaz. Há muita culpa e descrença em si próprio, o que torna ainda mais difícil tomar uma iniciativa e recomeçar a vida.

Mas, logo, se instala uma contradição: se a pessoa está numa “relação desse nível”, não adianta ficar esperando o dia em que se sentirá potente o suficiente para dar um fim. Quanto mais tempo passa, mais descrente fica a pessoa é sua capacidade de superação. Óbvio que o fim de um relacionamento necessita de um tempo para amadurecer a decisão, mas numa relação nociva o melhor é que esse tempo não se prolongue, pois vai ficando improvável que esse dia chegará para que haja o rompimento da relação de forma mais fácil.

O ideal é que se tenha sagacidade e artifícios para impulsionar a separação e para tornar a fase intensa, menos dolorosa. Em suma, esse tipo de relação costuma deixar marcas profundas e, às vezes, até prejudicar relacionamentos futuros, que podem ser vivenciados com desconfiança e temor. Mas, em grande parte desses casos, ficam aprendizados importantes que ajudam a mudar – para melhor – o padrão de relacionamento. As escolhas, dali em diante, provavelmente se tornarão mais maduras e saudáveis. Ao se desprender de uma relação nociva, a pessoa se sente fortalecida, satisfeita consigo mesma pela coragem de dar fim a um ciclo autodestrutivo e por manter essa decisão apesar de todas as tentações de uma recaída. (Mas, é sempre bom estar atento a possíveis recaídas, pois o defeito é, sim, sedutor). Se não o fosse ninguém cairia em esparrelas. Vale ressaltar que, a possibilidade de ingressar em uma terapia ajudará a se autoconhecer e se fortalecer.

 

 

Artigo publicado em 10 dez 2012 | Este artigo tem 5 Comentários

“Líquidos mudam de forma muito rapidamente, sob a menor pressão. Na verdade, são incapazes de manter a mesma forma por muito tempo. No atual estágio “líquido” da modernidade, os líquidos são deliberadamente impedidos de se solidificarem. A temperatura elevada — ou seja, o impulso de transgredir, de substituir, de acelerar a circulação de mercadorias rentáveis — não dá ao fluxo uma oportunidade de abrandar, nem o tempo necessário para condensar e solidificar-se em formas estáveis, com uma maior expectativa de vida”.  Zygmunt Bauman.

Os adventos da modernidade são imprescindíveis para os seres humanos na era contemporânea. Imagine se não houvesse os cosméticos, a estética tão bem requisitada, às cirurgias plásticas, academias de ginástica, telefone celular e internet, nos dias atuais. A vida seria mais complexa, sem graça e angustiante? Na contemporaneidade o fenômeno da globalização – também causa alguns problemas – como, por exemplo, o distanciamento físico entre as pessoas. Devido a avidez dos meios de comunicação do século XXI. O contato presencial tem diminuído nos últimos anos e há uma predisposição a diminuir cada vez mais. Toda essa mudança aconteceu e continua evoluindo, porque, é mais cômodo fazer uma ligação, enviar um e-mail ou, um Skype a um amigo, por exemplo, do que encontrá-lo “ao vivo”.

“O sociólogo Zygmunt Bauman tem uma explicação plausível no seu livro: “Amor Líquido”, Bauman analisa, o que torna as relações humanas altamente vulneráveis e as consequências desse processo, entre elas, a insegurança nos relacionamentos, seja em novas amizades cultivas e começadas pela rede e nos relacionamos entre homem e mulher, essa modernização também apresenta grandes reflexos. Atualmente, os namoros tendem a durar menos. Poucos acreditam no verdadeiro amor, no “feliz para sempre”. “Essa vulnerabilidade é consequência dos efeitos do espírito de nosso tempo, marcado pela velocidade, pressa, impaciência e muita ocupação. O vínculo amoroso exige paciência e tolerância à frustração, ao mesmo tempo em que limita a liberdade extravagante do indivíduo, a liberdade extra do sujeito vagante”, afirma Bauman.

Na era globalizada, geralmente, as pessoas se conhecem – tudo acontece no virtual – e o “eu estou apaixonado” já está no ar. Mas, desse sintoma, é comum percebermos que as pessoas ao saírem juntas algumas vezes, quando se conhecem pessoalmente e dão de cara com seus indesejáveis defeitos – surgem os desentendimentos – logo, é mais fácil desaparecerem um da vida do outro do que tentar se adaptarem às suas diferenças, que, são inerentes à condição humana. Das divergências, surgem frases comuns, como: “eu-não-vou-mudar”, “eu-sou-assim”, normalmente ditadas. Mas, como esquecer o parceiro, com o mínimo de dor e lembranças? Basta excluir das redes sociais, e pronto! Dessa forma, os problemas estão parcialmente resolvidos.

“Para o psicanalista Contardo Calligaris, da mesma forma como as ações, as relações que nascem na rede não são virtuais, defende. Mesmo com o mito que se mente mais na rede quando se quer conhecer um parceiro ou amigos, o psicanalista defende que o comportamento é o mesmo do mundo real. Quando se conhece alguém no mundo físico, é como um baile de máscaras. Você nunca sabe tudo. Mesmo fisicamente, as pessoas fazem cirurgias plásticas”. (…) “Para ele o jogo de esconde e mostra na internet – tanto na personalidade como fisicamente – faz parte da plástica lúdica. “Há casais que se conhecem na web e se casam”. E outras pessoas que não se conhecem fisicamente, mas mantém uma relação muito real. Não há distinção entre real e virtual”, afirma Calligaris.

O mundo de oportunidades quase infinitas aumentou imensuravelmente, no entanto, a insegurança e a desconfiança se agravaram. Muitas pessoas evitam vínculos estáveis e consistentes com medo de sofrerem amargas decepções. Por quê? Porque provavelmente, já viveram em algum momento de suas vidas “eventos fatídicos”. Vivemos em uma cultura da falta de ética, cinismo, deslealdade, traições e inveja. Os valores são seguidos pelas redes da sociedade virtual.

Não sei se são as relevâncias de uns tantos problemas, mas alguns acontecimentos no cotidiano das pessoas nas redes sociais e seus respectivos relacionamentos merecem mais atenção. Reporto-me à ilusória ideia de naturalidade que parecem instigar a comunicação e os fascinantes afetos do mundo virtual. É da natureza das redes virtuais nos fascinar a repetição. Entretanto, depois de seguir mecanicamente os desejos cibernéticos -, observamos que as relações construídas na internet e a forma como as pessoas se mostram nas redes sociais, na verdade, são bem reais. O comportamento na maioria das vezes percebidos no virtual é o mesmo mantido fora dele. Não raro no virtual às pessoas se mostram como desejam ser – rompendo com o ego idealizado pela sociedade. De fato, podem ser mais reais do que nas vivências do cotidiano. Finalmente, a contribuição da virtualização tem favorecido bastante a todos nós.

 

 

 

Artigo publicado em 04 dez 2012 | Este artigo tem 5 Comentários

O estar apaixonado consiste num fluir da libido do ego em direção ao objeto. Tem o poder de remover as repressões e de reinstalar as perversões. Exalta o objeto sexual transformando-o num ideal sexual. Visto que com o tipo objetal (ou tipo de ligação), o estar apaixonado ocorre em virtude da realização das condições infantis para amar, podemos dizer que qualquer coisa que satisfaça essa condição é idealizada.  (Freud, Ibid., p. 107).

A separação amorosa desperta na maioria das vezes grande interesse e curiosidade, uma vez que, a maioria dos seres humanos já sofreu a dor de uma perda amorosa. Porém tal sofrimento repercute de maneira diferenciada na vida de cada indivíduo.

Andar a procura um do outro não é um percurso sem ciladas e descaminhos. O sofrimento pode estar sempre a penetrar e adentrar como um intruso. Acontece que há, entre os seres humanos, muito mais desejo e paixão impulsiva do que a ideia de certificar-se e conhecer a pessoa que despertou esses sentimentos. E o desconhecido, sabemos, é um perigo. Não é de se duvidar que as delícias afetivas muitas vezes até “compensam” os perigos e casuais dissabores a serem enfrentados com um estranho. Pois é, às vezes as desilusões são tantas que o coração fica exausto e sem esperanças, implorando por descanso! O fato é que, esta pode ser uma boa ideia. Dar um pouco de tempo para si mesmo, repensar sobre suas vivências, curtir a vida de forma livre, exercer a liberdade e a disponibilidade, é um bom caminho para curar uma desilusão. Além disso, conseguir ficar só durante algum tempo pode ser uma boa oportunidade tanto para à saúde quanto para a maturidade.

No entanto, existem, aqueles que acertam nas escolhas. Algumas pessoas têm uma incrível habilidade para alinhar amor e bom senso. Mas nem todos são tão bem-sucedidos. O amor é muitas vezes considerado, pelos seres humanos, como um dos caminhos a serem percorridos na busca pela felicidade, pois, é uma experiência na qual se pode obter a mais intensa experiência referente a uma transbordante sensação de prazer. Por outro lado, a tentativa de encontrar a felicidade através do amor é fracassada, uma vez que, justamente quando amamos é que nos achamos mais indefesos contra o sofrimento, e além do mais, quando perdemos o nosso objeto amado ou o seu amor nos sentimos desesperadamente infelizes.

E até quando as relações dão certo, há armadilhas a enfrentar. Como somos todos volúveis de relações idealizadas de perfeição, as satisfações reais nunca parecerão completas. Essas fantasias de perfeição em nosso inconsciente estão na raiz da inconstância e da procura incessante pelo amor. E ainda há uma idealização de que o amor ideal não está só em nossa cabeça. Existe um marketing na era contemporânea vendida pela televisão, quanto pela internet e pela mídia. Todos esses canais contribuem para uma atitude “odiosa e agressiva” de insatisfação com os relacionamentos reais, mas vale lembrar, às vezes os relacionamentos são mesmo insustentáveis e é insensato tentar levar adiante. É como diz a música: Aquela Velha Canção, de Marisa Monte e Carlinhos Brown: “Confesso que fiquei magoado, eu fiquei zangado, mas agora passou, esqueci. Não vou te mandar para o inferno porque eu não quero. E porque fica muito longe daqui…”

Podemos concluir que, o tempo necessário a dar a si mesmo não pode significar um voo profundo na vulgaridade da “modernidade líquida” atual, uma viagem ao mundo dos “perdidos nas farras”. A boa pausa é para reflexão, não para à libertinagem. Quem realmente quer dar um descanso ao coração precisa deixar o passado para trás e, assim, não repetir sempre os mesmos sintomas. Depois de tantos tropeços e desencontros é tempo de aprender com as experiências e vivências nos relacionamentos, extraindo boas lições.