Artigo publicado em 29 nov 2012 | Este artigo tem 29 Comentários

“Freud foi o primeiro a afirmar que a consciência era muito mais abrangente do que se imaginava e o que as pessoas mostravam era apenas a ponta do iceberg. Grande parte do nosso ser está mergulhada nas profundezas do inconsciente.”

Nesse artigo abordaremos o embotamento dos bons sentimentos. Porém, não temos a intenção de generalizar a singularidade do ser humano por um único ponto de vista, na qualidade de adjetivos listados no presente artigo. Com isso, necessário se faz o bom senso.

Partindo dessa premissa, o relacionamento com pessoas que não manifestam bons sentimentos, bem como: carinho, afeto, carisma, compreensão, respeito -, corre-se o risco de se transformar convivências em frustrações – para quem de forma espontânea deseja receber gestos afetuosos de intimidade.

Vale lembrar que esse comportamento mais frio, se estende para todos os tipos de relacionamentos, bem como relacionamento de amizade, relacionamento entre os casais e, também, relacionamento familiar. Esse último – familiar – pode ser o causador dessa frieza. Mas vale ressaltar: não cupemos tudo aos nossos pais. Todavia, a frieza afetiva pode ser sentida com mais intensidade no relacionamento entre casais.

A causa do embotamento afetivo desencadeia alguns traços de personalidade, bem como: pessoas secas, distantes, narcisistas, podendo ser também inibidas e introvertidas. São vários os perfis psicológicos e um contingente de razões que se ocultam por trás desses comportamentos. Com frequência, essas pessoas podem ser atraentes, cultas, inteligentes, carismáticas; geralmente, conseguem ser fascinantes, misteriosas, deixando uma magia no ar, atraindo de forma instigante os olhares inocentes e eufóricos dos seus parceiros. Quanto mais qualidades exibem, mais importantes e irresistíveis parecem, mas em contrapartida tamanho é o efeito de sua frieza e afastamento emocional, levando à frustração e o sentimento de solidão que causa no outro.

Na realidade, a aspereza afetiva é compensada pelas qualidades que o envolvido enxerga no outro. Muitas dessas pessoas frias, se soltam e desfrutam os momentos de intimidade, com isso até conseguem satisfazer o seu parceiro, no entanto, ao passar o êxtase retornam ao seu mundo misterioso e isolado, ou, voltam para suas ocupações – abandonando o parceiro que outrora se sentiu amado. Mas é necessário sensibilidade, quando se trata de parceiros amorosos, para não se iludir com suas próprias carências e idealizar-se no outro. Nós enquanto humanos costumamos idealizar demais, com isso à frustração quando nos acomete pode ser devastadora.

A condição humana é heterogênea e complexa, admitindo a posse de atributos, qualidades e privações e ausências de outros. Os analfabetos emocionais podem ser maravilhosos na intimidade sexual, excelente no diálogo – embora, deixam a desejar na afetividade, causando um sentimento de impotência nos relacionamentos.

Quantas pessoas não são enganadas por demonstrações ilusórias de afeto, que acreditavam ser autênticas. Isso acontece entre indivíduos frios e quentes, e o que cada uma dessas temperaturas envolvidas oculta de seu sentimento oposto. Embora nada disso seja regra.

No início de um relacionamento, a parte quente da relação, pode sentir uma completude, mas com o tempo até para suportar o essencial deve conter um limite. E, no limite, a frieza do parceiro desencadeia angústias e põe à prova a parte “quente” da relação. A competência de compreender o relacionamento sem unir os próprios fantasmas.

Vale ressaltar que, analfabetos emocionais, podem se confundir com seus relacionamentos da infância, quando os seus genitores não lhes davam atenção o suficiente e eram pais distantes – assim, na imaginação da criança – ela não era digna de receber o amor deles, pois não tinha qualidades para chamar atenção dos pais. Podemos juntar muitas coisas do passado de pessoas frias para entender o porquê o indivíduo não demonstra afetividade.

Todos nós sabemos que é impossível encontrar uma pessoa completa. Somos seres “furados”. E como diz Lacan: “Somos seres faltantes.” Se não falta é porque a pessoa não enxerga a falta, está simplesmente sonhando e alucinando seu parceiro.

Nesses tempos em que os relacionamentos estão mais líquidos e menos consistentes, onde as relações acontecem facilmente nas redes sociais, as pessoas estão despertando para o fato que a inteligência abrange muito mais que a razão – onde, supostamente, podemos explicar e provar tudo. É preciso entender que as emoções representam um aspecto importantíssimo do potencial humano.

Artigo publicado em 26 nov 2012 | Este artigo tem 7 Comentários

      

“A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós, proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas.” (Sigmund Freud – Pnbor, 6 de maio de 1856 – Londres, 23 de setembro de 1939). 

Abordaremos nesse artigo, o autoconhecimento frente às decepções amorosas. O olhar voltado para si mesmo faz com que, o outro não se perca na nossa imaginação.

É possível dar a volta por cima e “pôr do avesso os acontecimentos que vieram à tona depois de uma decepção.”

Não é de se duvidar: uma das consequências mais importantes da experiência humana é a de decepcionar-se com alguém, e, exatamente em razão disso, passamos a conhecer melhor a pessoa. O conhecimento é um fruto salutar da decepção. Assim como o autoconhecimento. A desilusão revela que possivelmente houvesse uma enganosa expectativa, uma observação “falha” da realidade do outro, uma admiração pelo sentimento de amar, mas sem uma visão transparente da pessoa em questão. A decepção retira o iludido da falta de discernimento que se encontrava, logo, limpa sua visão e aguça sua percepção. É uma experiência de “defloramento” da consciência. Dissuadido de sua inocência, a pessoa passa a ver a vida mais consciente. A experiência assusta, machuca, causa dor. Mas também deixa o indivíduo mais sensato.

Se analisarmos é complexo amar alguém que não conhecemos mais detalhadamente. Afinal, conhecer o outro é uma tarefa interminável, da mesma forma nos conhecer é uma tarefa árdua e interminável. Nesse caso, na melhor das suposições ama-se o amar.

Quando a decepção acontece, vem o questionamento: “Onde estava minha cabeça, que não percebia o óbvio?” Uma boa dose de reflexão. Talvez a cabeça estivesse voltada para si, não estando atenta adequadamente com o fator externo. Há quem diga: –  “Mas ele (a) expressava coisas agradáveis!” – “Como pode ter virado do avesso?”  As pessoas, geralmente, se apresentam de forma agradável, ou relata sempre o que sabe que será bem recebido pelo o outro – deixando a sinceridade de lado – com o simples propósito de conquistar. Contudo, é possível perceber quando se está diante de uma circunstância confiável ou de uma astúcia sedutora e enganosa. Um exemplo: o especial da sedução não convence; e a pessoa simplesmente questiona: “Ele (a) me dá mimos, mas isso não me parece tão convincente é indiferente ou conivente. (É possível também perceber a incoerência entre as coisas que uma pessoa diz e as que faz). Geralmente, a pessoa deixa sinais que possibilita perceber nas nuances dos feitos. Mas, que fique claro, ninguém está livre, de “entrar de gaito num navio” – como diz a música de Os Paralamas do Sucesso.

Mas, a partir do momento, em que uma decepção é sentida com discernimento e maturidade, os sentimentos se estabelecem em bases mais confiáveis. Passa-se a ver a pessoa como se estivesse conhecendo pela primeira vez. Mas é necessário refletir sobre a lógica: quem se sentiria amado de verdade, se não fosse aceito em seus defeitos, qualidades, controvérsias, dificuldades e dores?

É verdade, existem situações em que se descobre ser impossível conviver com as divergências, em razão de não conseguir administrar as diferenças inerentes de cada um. Às vezes, por mais que uma das partes deseja vencer os obstáculos, o outro não possibilita uma convivência harmoniosa. Acontece. Todavia, a vivência da decepção permite a pessoa ficar munida do necessário para viver o mesmo ou outros relacionamentos – com pessoas resolvidas, assim como ela, feitas de perdas e ganhos. Disso não tenha dúvida.

 

Artigo publicado em 21 nov 2012 | Este artigo tem 2 Comentários

“Não é a força, mas a constância dos bons sentimentos que conduz os homens à felicidade”.

(Friedrich Nietzsche).

Homens e mulheres têm uma enorme predisposição em subornar a realidade para garantir seus desejos egoístas sem admitir os julgamentos ou censuras. O extrapolar desse comportamento desencadeia o mau-caráter. No amor, não se encontra meios viáveis para aqueles que querem manter um relacionamento estável, porém não querem abrir mão da liberdade e/ou libertinagem — o que quase sempre acaba em destruição. Melhor dizendo, à tragédia no relacionamento.

O psicanalista inglês Wilfred R. Bion (1897-1979) questionou se era possível analisar um mentiroso – um dilema que diz respeito também ao amor: é possível relacionar-se com uma pessoa que desliza nos enredos sinuosos da mentira? Então, se nós, psicanalistas temos como objetivo “desvendar os enigmas da conduta humana”, como fazê-lo se o sujeito foge às escondidas na dissimulação. Não raro, uma similar reflexão se aplica ao relacionamento, que cria laços e nos atravessa pelos afetos, mas em alguns casos as pessoas só se permitem ser atravessadas pelos afetos quando vivenciam o trágico. (Além do sexo que pode se tornar vazio e invasivo). Dessa maneira é conturbado confiar um no outro, pois a reciprocidade é contraditória com a prática da dissimulação. Por isso, cabe questionar-se: o amor a uma pessoa dissimulada ou entre duas pessoas compactuando da mesma realidade é realmente amor ou hipocrisia? Na mentira, procura-se estabelecer um acordo, porém sem êxito, entre amor e liberdade.

É confuso conviver com uma pessoa dissimulada quando se tem consciência disso e quando não se tem também. Assim, a dúvida é constante, se o parceiro fala a verdade, desconfia-se até nos momentos que fala a verdade, pois uma vez detectado como mentiroso não consegue passar confiança. A relação torna-se um transtorno, quase uma tortura. Já quando não se tem consciência de que o companheiro é dissimulado-mentiroso, a pessoa é tomada por uma sensação complexa de estar sendo manipulada e iludida. É comum a pessoa se entristecer, podendo entrar em depressão e adoecer, logo, este é o preço inconsciente que paga por não admitir sua dúvida ou não verificar e confrontar sua desconfiança. O assunto é ainda mais complexo, pois nem sempre quem mente o faz apenas para o outro, mas também para si mesmo. A noção de má-fé pela ideia de uma mentira sem mentiroso permite entender que uma pessoa pode ser alvo da própria mentira inconscientemente, sendo, ao mesmo tempo, o enganador e o enganado. Quem será realmente enganado: o traidor e/ou o traído? Mas não dá para isentar-se do “delito” ainda que o equivoco seja de origem inconsciente: somos responsáveis pelos nossos atos como um todo. Vale ressaltar a máxima: não adianta ser fiel, é preciso parecer fiel. Qual será a necessidade que o mentiroso tem de se repetir nas suas mentiras. É questionável.

A mentira é o que os seres humanos dissimulam para valer-se do desejo egoísta e cômodo de ficar sãos e salvos, ou seja, dissimular e seduzir o outro, especialmente na amizade e no amor. Essa tendência começa durante a infância e pode perdurar na vida adulta, desencadear, no limite, o mau-caráter. Como escreveu Guimarães Rosa: viver é perigoso. 

 

 

Artigo publicado em 19 nov 2012 | Este artigo tem 0 Comentário

O desejo é a essência da realidade. Jacques Lacan

“A feminilidade tem algo de enigmático; por não ser completo, assim, fica retida na significação fálica que dispõe a sexualidade masculina, e se constrói através de reivindicação e artifícios imaginários, auxílios que sucedem em uma lógica muito peculiar em termos de desejo e gozo”.

Desde Freud, a Psicanálise mostra que a nossa sexualidade é comandada pela linguagem e é ela que revela as diferenciações entre o Desejo e o Gozo.

Por isso, o analista deverá questionar o desejo do Outro, nesse caso, o desejo do analisando – implica dizer que o analisando possa se entender com seu desejo para que ele – possa atravessar a fantasia. A travessia é o conceito de Lacan para falar do ato, do corte, do ponto de basta, que postula a economia do gozo.

Nesse caso pode-se afirmar que, por mais que se procura conhecer as mulheres – elas estarão sempre a surpreender o sexo masculino com seus desejos e pensamentos. “Freud o mais exímio conhecedor da alma feminina nunca soube exatamente que tantos mistérios guardam uma mulher”. Não há conhecimento na história que algum homem conseguiu desvendar uma mulher. Geralmente, muitos homens dizem que todas as mulheres são iguais, entretanto, será sempre uma suspeita. Eis que até às próprias mulheres não sabem ao certo o que desejam, haja vista quando pensam que têm todas as certezas, logo, viram dúvidas de um instante para o outro. Suas palavras podem dizer uma coisa enquanto sua mente diz outra. Eis a indagação, por que às mulheres são assim? Seguras, mas  frágeis? Decididas, mas inseguras? Na atual conjuntura independentes e ao mesmo tempo tão carentes? De onde vem essa diversidade que habita a alma feminina que, deixam tantos homens sem norte diante de certas atitudes? Isso sem dúvida é um assunto intrigante e de interesse masculino, que sempre reacendem antigas e novas questões e, que, disseminam discussões entre homens e mulheres ao longo dos tempos. Diante desse fenômeno, a psicanálise não propõe uma solução física, mas a compreensão da própria constituição do desejo. “Como afirma Lacan, é porque, para elas, não há clivagem entre desejo e amor. Assim, uma dificuldade referente ao desejo pode ser mais bem tolerada quando continua existindo um investimento amoroso no parceiro”.

“Lacan frisa ainda o aspecto de construção do feminino ao inspirar-se em um artigo da psicanalista Joan Rivière para definir a feminilidade como mascarada, ou seja, um conjunto de artifícios que a mulher utiliza para parecer feminina aos olhos do homem. O papel do olhar aqui não deve ser negligenciado; é esse olhar que a mulher busca em seu parceiro como garantia de sua importância no desejo dele. Se pensarmos que o próprio eu é construído a partir do olhar do outro, que lhe confere consistência, podemos dimensionar o que representa para a mulher ser reconhecida como desejável por um homem.

O desejo é a forma absoluta da necessidade, na medida em que fica para além da exigência incondicional de amor – algumas vezes ele pode vir comprovar o passado. Se é da natureza do desejo necessitar da proteção do Outro. Então, percebe-se que o desejo do Outro não é uma via de acesso para o desejo da outra pessoa, ou seja, o desejo é peculiar e inerente a cada um de nós.

A psicanalista, Joan Rivière, diz que as mulheres precisam representar sua feminilidade uma a uma, em sua singularidade e para isso utilizam de suas “mascaradas”. O que ela chama de “mascarada” feminina são seus enfeites apetrechos que dão essa evidência dos atributos femininos. Mulher usa sapatos enfeitados, brincos, colares, pulseiras, tudo muito delicado e encantador – e elas encantam por suas peculiaridades femininas. Esse é um aspecto da feminilidade contida nas mulheres e, também, nos homens de alma feminina. Sua feminilidade precisa ser apresentada ao Outro e ser reconhecida como objeto de amor. Ser desejada para a mulher é um acontecimento de grande relevância a alma feminina, pois dessa forma o Outro lhe diz o que ela é – ofertando-lhe uma representação sobre si mesma.

Afinal, o que querem as mulheres? Elas querem ser entendidas. Mas, antes do Outro, elas precisam se entender com elas mesmas. O lado enigmático e divergente das mulheres faz com que o desejo do sexo masculino seja instigado e, isso fascina os homens, porque há algo de desconhecido no ar… Não têm  como ser pragmático e racional o tempo todo. E, assim, mudando paradigmas ambos os sexos se compreendem e se desafiam, afinal, a relação dos sexos é um desafio – nessa dualidade convivem em uma eterna peleja interna em busca da evolução dos sexos.

 

Referências:

Sexualidade feminina (1931). S. Freud, em Obras completas, Imago, 1976, vol. 21.

A feminilidade: conferência XXXIII (1923). . Freud, em Obras completas, Imago, 1976, vol. 22.

RIVIERE, Joan. Womanliness as a masquerade. International Journal of Psychoanalysis. (10): 303-313, 1929.

Revista Mente e Cérebro.

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